Papa enfrenta guerra civil contra ala conservadora da Igreja Católica

Grupo se posiciona contra Francisco em temas como homossexualidade, aborto e divórcio

Protesto em Paris contra a sugestão do papa Francisco de que crianças gays devem ter ajuda psiquiátrica
Protesto em Paris contra a sugestão do papa Francisco de que crianças gays devem ter ajuda psiquiátrica - Bertrand Guay/AFP
Clóvis Rossi
São Paulo

​Está em curso o que Ross Douthat, colunista de The New York Times, chama de “guerra civil católica".

A salva potencialmente mais mortífera dessa guerra foi desferida pelo arcebispo Carlo Maria Viganò que, em carta, acusou o papa Francisco (e seus antecessores) de saber dos pecados do cardeal americano Theodore McCarrick (agora afastado) e, não obstante, ter pedido conselhos dele para indicar prelados.

Os pecados estão relacionados a abusos sexuais praticados por religiosos e o acobertamento deles pela hierarquia da igreja —a mais recente causa de crise no catolicismo.

Mas a carta de Viganò vai além da discussão sobre abusos e acobertamentos. Exige a renúncia de Francisco.

Há especialistas que, em vez de “guerra civil", preferem dizer que “está em curso um putsch” (tentativa de golpe) contra o papa. É o caso de Michael Sean Winters, pesquisador visitante do Instituto para Pesquisa Política e Estudos Católicos da Universidade Católica.

Os lados da “guerra civil” ou do “putsch” estão bem definidos: Viganò seria a ponta de lança dos conservadores, incomodados com certas aberturas (ainda que tímidas) do papa em questões comportamentais, como homossexualidade, aborto, divórcio e a atitude da igreja ante novo casamento de divorciados.

Daniel Verdú, de El País, politiza ainda mais as cores da “guerra", a ponto de depositar Viganò no colo do Tea Party, a ala hiperconservadora hoje predominante no Partido Republicano (ele foi núncio apostólico em Washington, ou seja, embaixador do Vaticano).

Escreve Verdú: “O epicentro da guerra contra o papa procede da corrente tradicionalista da igreja americana, vinculada ao Tea Party e a poderosos círculos de mídia próximos de Steve Bannon” (que foi assessor de Trump e é o ideólogo da extrema direita).

A politização do conflito descarta o caso dos abusos sexuais e seu encobrimento como fonte da crise. À Folha, Winters disse que o que chama de “ataque coordenado” ao papa “não tem nada a ver com os casos de abuso sexual". O especialista lembra que já houve outra ofensiva contra Francisco, quando ele se mostrou condescendente com os homossexuais. 

“Eles [os conservadores] montaram um ataque teológico ao papa mas não houve avanço. Agora, estão tentando esse enfoque [acusar o papa de não agir contra um prelado acusado de abusos] para reverter a decisão dos cardeais em 2013”, o ano em que Jorge Mario Bergoglio foi eleito papa, com o nome de Francisco.

Juan Arias, correspondente de El País no Brasil, ex-seminarista e com anos de excelente cobertura do Vaticano em seu período como correspondente em Roma, também usa termos bélicos para se referir à crise.

Disse à Folha: “O medo daqueles que temiam ser afetados pelos gestos de ruptura de Francisco fez com que se unissem para dar a batalha final".

Quem ganha a “batalha final"? Responde Arias: “Não sei se os conservadores vão conseguir, mas o golpe foi quase mortal".

O que complica a situação do papa é que ele não foi suficientemente ágil para atacar o problema dos abusos sexuais e, principalmente, do encobrimento. “A crise dos abusos sexuais é uma crise por causa do encobrimento, não por causa do sexo. Se os pedófilos tivessem sido rapidamente removidos de suas funções na igreja e entregues às autoridades civis para serem processados pelos crimes, não teria havido crise", diz Winters.

Reforça Juan Arias: “Acho que houve certa ingenuidade em Francisco ao pensar que ele poderia resolver o problema [dos abusos/acobertamento] sem antes derrubar as estruturas da Cúria". A Cúria Romana é uma concentração de conservadores e Arias diz não saber se “o Francisco da ternura será capaz de lidar com ela".

Fecha com uma frase que indica a gravidade do enfrentamento desatado por Viganò: “em Roma, já se diz que é preciso esperar que se permita ao sucessor de Francisco ser papa de verdade".

O especialista Michael Sean Winters também olha com inquietação para o futuro imediato: “Se os bispos americanos não se levantarem, como um corpo único, para defender o Santo Padre, nós podemos estar deslizando para um cisma".

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