Descrição de chapéu Governo Trump

EUA mantêm 12.800 crianças migrantes em abrigos em setembro, diz jornal

Número de famílias apreendidas em agosto sobe 176% em relação a mesmo mês de 2017 e chega a 12.774

Mulher com uniforme verde aparece do lado direito da imagem. No centro, há uma bandeira dos EUA em uma mureta que divide de uma área descampada que termina em uma grade do lado mexicano, em que há diversas casas.
Agente de imigração patrulha área de fronteira entre os EUA e o México na região de San Diego, na Califórnia - Frederic J. Brown - 17.abr.18/AFP
Danielle Brant
Nova York

O governo americano mantém um recorde de 12.800 crianças migrantes em abrigos espalhados pelo país em setembro, de acordo com dados obtidos pelo jornal The New York Times e divulgados nesta quarta-feira (12).

O número representa um forte aumento de 433,3% em relação aos 2.400 menores sob custódia americana em maio de 2017, segundo o NYT. As informações são do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS, na sigla em inglês) e foram obtidas pelo jornal com membros do Congresso, que receberam os dados.

O jornal diz que o salto não foi provocado pelo aumento do fluxo de crianças entrando nos EUA, mas sim pela redução do número de menores liberados para viver com suas famílias e outros responsáveis.

O resultado é um sistema de abrigo federal próximo de atingir sua capacidade completa. Os abrigos operam perto de 90% da capacidade, comparados com os 30% de um ano antes.

A maioria das crianças cruzou a fronteira sozinha, sem os pais. Entre os menores há muitos adolescentes da América Central, que são colocados em um sistema de mais de cem abrigos ao redor do país. A maior concentração está na fronteira com o México.

Pessoas familiarizadas com o sistema de abrigo americano afirmam que a política de tolerância zero adotada em abril e que incluía a separação de famílias flagradas tentando entrar ilegalmente nos EUA teve um efeito diferente do esperado pelo governo.

Em vez de desestimular as migrações de uma maneira geral, desencorajou apenas os pais e amigos da família de acompanhar as crianças.

Os números de agosto do serviço de Alfândega e Proteção das Fronteiras dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) também apontam para o baixo impacto da política de tolerância zero sobre as imigrações ilegais ao país.

As apreensões de famílias imigrantes na fronteira dos Estados Unidos com o México cresceram 175,8% em agosto em relação ao mesmo mês de 2017 e atingiram um patamar recorde para o mês, informou o órgão nesta quarta

Foram 12.774 famílias apreendidas enquanto tentavam entrar ilegalmente no país pela fronteira sul. Esse número também representa um aumento mensal das apreensões, depois de três meses de queda: o crescimento foi de 38,1%.

O governo americano atribuía a diminuição observada em maio, junho e julho aos efeitos da política de tolerância zero. O aumento de agosto, segundo Tyler Houlton, secretário de imprensa do ICE, é um “claro indicador” de que os fluxos migratórios estão respondendo a “brechas” no arcabouço regulatório americano.

“Enquanto os números gerais são consistentes com um esperado aumento sazonal, o número de unidades familiares ao longo da fronteira sul aumentou 38% —3.500 a mais que em julho e recorde para agosto”, afirmou, no comunicado.

“Contrabandistas e traficantes conhecem nossas frágeis leis de imigração melhor que a maioria e sabem que se uma unidade familiar entrar ilegalmente nos EUA, ela deve ser liberada para o interior [do país]”, disse Houlton. O ICE deve liberar famílias que entram ilegalmente no país dentro de 20 dias após a apreensão.

A secretária de imprensa ressaltou que a maioria das famílias liberadas, apesar de não ter direito a permanecer no país com status legal, não deixa os EUA e também não é removida.

Entre abril e junho, apenas 1,4% das unidades familiares foram repatriadas a seus países de origem —entre os exemplos citados por Houlton estão El Salvador, Guatemala, e Honduras.

O ano fiscal considerado pelo ICE começou em outubro de 2017 e termina neste mês.

Em agosto, as autoridades apreenderam um total de 37.544 indivíduos tentando entrar no país pelo México, um aumento de 68,4% em relação a um ano antes e de 19,95% na base mensal. No ano fiscal de 2018, o total de apreendidos na fronteira sul chega a 355.106 —foram 281.379 no mesmo intervalo do ano passado. Além disso, 9.016 pessoas foram consideradas inadmissíveis, alta de 8,9% ante agosto de 2017 e de 4,2% contra julho.

Cerca de 3.000 crianças foram afastadas dos pais e enviadas a abrigos espalhados pelos EUA como resultado da política. Segundo a ACLU, organização de defesa dos direitos civis, 416 menores ainda estavam separados dos pais em 4 de setembro, sendo 14 com menos de cinco anos. Um juiz federal de San Diego havia determinado que todas as famílias fossem reunidas até 26 de julho.

A forte reação negativa tanto doméstica quanto internacional forçou o presidente Donald Trump a assinar, em 20 de junho, um decreto para proibir a prática.

A Administração republicana esperava que a separação tivesse o impacto de inibir que outras famílias fizessem a travessia em direção aos EUA. Especialistas, porém, alertavam que era preciso acompanhar o movimento de outros meses para saber se as medidas de tolerância zero seriam eficazes ou não.

Muitos fatores podem influenciar o fluxo de imigrantes, principalmente no verão [hemisfério Norte]. O calor intenso é um deles, já que a jornada é extensa e inclui áreas descobertas, como um deserto, e chuva.

Apesar de revogar a separação de famílias, o governo continua apertando o cerco contra a imigração ilegal. Uma das práticas usadas tem sido a combinação de esforços de órgãos oficiais para deportar aqueles que buscam a cidadania americana depois de se casarem com um cidadão do país.

 
O presidente Donald Trump - Nicholas Kamm-12.set.18/AFP

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