Descrição de chapéu New York Times

Busca por autor de ataque contra ex-espião russo usou rede de câmeras britânica

Agentes superdotados viram imagens para identificar suspeitos de envenenar Serguei Skripal

Ellen Barry
Londres

Em março, quando detetives britânicos começaram a investigar o envenenamento do ex-espião russo Serguei Skripal, eles tinham poucos elementos com que trabalhar, exceto horas de imagens captadas por câmeras de vigilância. Diante de seus computadores, eles iniciaram o trabalho cansativo de esquadrinhar os vídeos à procura de um assassino.

O Reino Unido é um dos países mais fortemente vigiados do mundo; estima-se que haja uma câmera de vigilância para cada 11 cidadãos.

O país tem tecnologia de ponta para a identificação visual de criminosos, contando com softwares tão sensíveis que são capazes de vasculhar um aeroporto para localizar uma tatuagem ou um anel no dedo mindinho de um suspeito. E há uma equipe de pessoas geneticamente superdotadas conhecidas como “super-reconhecedoras”.

Na quarta-feira (5) as autoridades anunciaram que o esforço rendeu frutos: dois agentes de inteligência russos foram acusados de tentativa de homicídio. Foram as primeiras acusações criminais em um caso que causou uma rixa profunda entre a Rússia e o Ocidente.

Montagem mostra os russos Ruslan Boshirov (esq.) e Alexander Petrov
Montagem mostra os russos Ruslan Boshirov (esq.) e Alexander Petrov, que são procurados pela polícia britânica pelo caso do espião russo envenenado na Inglaterra - Metropolitan Police Service/AFP

Os investigadores divulgaram um arsenal de evidências, incluindo imagens captadas por câmeras de vigilância que traçaram a trajetória dos dois homens de um voo da Aeroflot até a cena do crime e então de volta a Moscou. Eles também divulgaram fotos do delicado vidro de perfume que foi usado para carregar um agente neurotóxico letal conhecido como Novitchok para a tranquila cidade inglesa de Salisbury, onde o ataque ocorreu.

Os mesmos dois russos apareceram diversas vezes nas câmeras nos dias que antecederam o envenenamento de Skripal, em 4 de março.

“É quase impossível se esconder neste país”, disse John Bayliss, que em 2010 se aposentou depois de trabalhar para a Government Communications Headquarters (GCHQ), a agência britânica de inteligência eletrônica. “E, com o novo software que o governo possui, dá para identificar uma pessoa por seu jeito de andar, um anel ou um relógio que ela usa. Fica ainda mais difícil não ser flagrado.”

Conhecida como operação Wedana, a investigação sobre o envenenamento dos Skripal ficará para a história como um teste de uma técnica investigativa da qual o Reino Unido foi pioneiro: acumular e esquadrinhar montanhas de dados visuais.

Na quarta-feira, Neil Basu, o diretor de contraterrorismo da polícia britânica, rompeu meses de silêncio em uma coletiva de imprensa da Scotland Yard convocada às pressas, tomando a medida incomum de confiscar temporariamente os aparelhos eletrônicos dos jornalistas para que a notícia não vazasse até que tivessem sido emitidos os mandados de prisão dos dois acusados, Alexander Petrov e Ruslan Boshirov.

Duas horas mais tarde, a primeira-ministra Theresa May anunciou que os serviços de inteligência britânicos haviam identificado os dois como agentes do GRU, o serviço de inteligência militar da Rússia.

Autoridades russas reagiram com escárnio, dizendo em comunicado do Ministério do Exterior: “Rejeitamos decisivamente essas insinuações”.

Maria Zakharova, porta-voz do Ministério do Interior, disse: “É impossível ignorar que colegas britânicos e americanos atuam conforme o mesmo esquema: sem se darem ao trabalho de apresentar quaisquer provas, anunciam uma lista de supostos ‘agentes russos’ para justificar a caça às bruxas movida por Londres e Washington”.

John Bayliss disse que desde o início os investigadores tinham consciência plena de que os suspeitos seriam protegidos na Rússia e nunca levados a julgamento, apesar de terem sido emitidos alertas vermelhos pela Interpol e mandados de prisão britânicos e europeus.

“Diante disso, muita gente desistiria, porque de que adianta?”, ele disse. “Eles estão na Rússia. Não vamos conseguir que voltem. Mas o importante é que, quando chegamos a esse ponto, isso quer dizer que essas pessoas não podem mais sair da Rússia.”

Além disso, falou Bayliss, “há a satisfação de chegar à verdade, de poder provar ao mundo ocidental que os russos fizeram isto”.

No dia do ataque, Serguei Skripal e sua filha, Iulia, foram encontrados quase inconscientes sobre um banco à margem do rio Avon. Os dois se recuperaram, mas alguns meses mais tarde dois britânicos, Dawn Sturgess e Charlie Rowley, adoeceram depois de serem expostos ao veneno. Sturgess morreu.

Nos dias seguintes ao ataque aos Skripal, investigadores começaram a colher 11 mil horas de vídeo de portos, estações ferroviárias, vitrines de lojas, painéis de carros e das ruas em volta da casa dos Skripal.

Os investigadores disseram, brincando, que, antes de procurarem uma agulha no palheiro, tiveram que construir seu palheiro.

A investigação empregou alguns dos elementos mais famosos da Scotland Yard, como sua célebre Unidade de Super-Reconhecedores. Os policiais que integram essa unidade são selecionados por possuir capacidade elevada de se lembrar de rostos. É o oposto da prosopagnosia, ou incapacidade de reconhecer rostos.

Imagens de câmeras de vigilância mostram os dois russos suspeitos do ataque em Salisbury um dia antes do envenenamento
Imagens de câmeras de vigilância mostram os dois russos suspeitos do ataque em Salisbury um dia antes do envenenamento - Metroplitan Police - 3.mar.2018/Reuters

“Esses agentes não focam sua atenção nos detalhes óbvios: os cabelos grisalhos, o bigode ou os óculos”, disse à Sky News na semana passada o fundador da unidade, Mick Neville. “Eles olham para os olhos, a boca, as orelhas –ou seja, as coisas que não mudam. São capazes de reconhecer um rosto a partir do vislumbre de uma parte minúscula dele.”

Em casos como a investigação Skripal, que começou com um pool enorme de potenciais suspeitos, os super-reconhecedores podem ajudar, identificando pessoas que parecem se movimentar de modo suspeito, dizem especialistas.

Policiais locais muitas vezes são chamados também para ajudar a eliminar transeuntes casuais que também possam parecer suspeitos, como pequenos traficantes de drogas, por exemplo.

Esses resultados então foram confrontados com dados dos passaportes de russos que deixaram o país pouco após o envenenamento dos Skripal. Com isso, o pool de suspeitos caiu para um número com qual foi possível trabalhar.

Os policiais também puderam rastrear os suspeitos de outras maneiras, por exemplo mapeando seu uso de celulares e cartões bancários.

Um grande avanço foi conquistado quase dois meses depois de os Skripal terem sido envenenados, quando a polícia chegou ao hotel City Stay, na zona leste de Londres, onde os dois suspeitos passaram duas noites antes do ataque.

Policiais retiraram amostras de material do quarto onde os dois homens tinham se hospedado e os mandaram para análise em laboratório. Duas das amostras revelaram traços de contaminação com o agente neurotóxico utilizado no ataque.

The New York Times

Tradução de Clara Allain

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