Descrição de chapéu Venezuela

Crise argentina empurra venezuelanos para nova diáspora

Imigrantes voltam à Venezuela ou buscam novos destinos devido à inflação e ao desemprego

Sylvia Colombo
Buenos Aires

“Estou de volta a Caracas, para pensar numa nova estratégia”, assim respondeu à Folha, por telefone, a venezuelana Simonetti Fossi, 30, que, após imigrar para a Argentina fugindo crise humanitária em seu país, desistiu e retornou para a Venezuela.

“Fiquei dois anos em Buenos Aires. Trabalhei de garçonete um tempo, mas isso não dava para pagar as contas. Depois armei com uma amiga um delivery de saladas, mas também não conseguia o suficiente, a inflação não permite que a gente tenha o suficiente para comer e ainda mandar algo para casa, que era o objetivo inicial.” 

Agora, Fossi está em Caracas há menos de um mês, mas tampouco planeja ficar ali por muito tempo. “Estou tentando os documentos para ir para Miami ou para a Espanha, mas isso é lento.”

Venezuelanos caminham pela estrada Pan-Americana, após cruzar a fronteira do Equador para o Peru, próximo a Tumbes (Peru) - Martin Mejía - 26.ago.18/Associated Press

“Vir para a Argentina é atraente à primeira vista porque a burocracia é mais fácil, a documentação para a residência temporária sai rápido, leva de três a cinco meses. Mas depois é muito difícil achar emprego, e a inflação vem castigando muito”, conta a jornalista Maria Laura Chang, 30, que busca trabalho em qualquer área há oito meses e não consegue.

Na semana passada, a comunidade venezuelana na Argentina entrou em choque quando o jovem Enrique Martínez, venezuelano recém formado em engenharia eletrônica na Argentina, se suicidou. 

Segundo seu pai, ele vinha com “um quadro de forte depressão e angústia, pois não achava emprego. E isso não melhorava porque ele não se conformava de saber que a situação de seu país vinha se deteriorando”, contou à Folha seu pai, que não quis revelar seu nome nem onde está na Venezuela porque está lutando para que as autoridades venezuelanas o ajudem a pagar os custos para repatriar o corpo do filho.

Até hoje, a Argentina era um lugar atraente para os imigrantes venezuelanos pelas opções de estudo e pelos atrativos da capital, além da facilidade em obter documentos.

A dificuldade inicial era a distância, o que atraiu desde o começo uma imigração de pessoas de melhor situação econômica, profissionais com diploma e suas famílias, músicos formados nas tradicionais orquestras venezuelanas, gente interessada em estudar ou fazer cinema por conta do tamanho e da tradição desse mercado.

“Até agora tem sido bom, mas está começando a fazer com que muita gente tenha dúvidas por conta da piora na qualidade de vida que vem com a inflação e a desvalorização do peso”, diz Chang.

Na semana passada, a moeda local perdeu 12% de seu valor, e mais de 50% ao longo do ano. O país, em crise econômica e política, não tem dado conta de cumprir os requisitos exigidos pelo FMI para obter um empréstimo de US$ 50 bilhões (R$ 202 bilhões) acertado em junho. A inflação ronda os 25%, e os juros já são os mais altos do planeta, 60%.

Segundo o departamento nacional de Migrações, 4 em cada 10 venezuelanos que chegam afirmam que desejam ficar temporariamente no país, para esperar a crise na Venezuela passar, ou para juntar dinheiro e ir para a Europa ou os EUA. Outros seis têm planos de se instalar por mais tempo, e muitos buscam comprar ou alugar propriedades.

O fluxo de entrada ainda cresce, mas já há reclamações com relação às dificuldades impostas pela economia. 

Nelly Rodríguez, 38, que chegou há cinco meses com o filho caçula, de oito anos, diz que a situação não está tão fácil como imaginava. “Achava que a essa altura já teria trabalho estável e estaria mandando dinheiro para os meus familiares. O trabalho que consegui é temporário, e o salário tem dado apenas para que nós dois sobrevivamos”, conta.

No primeiro semestre de 2018, entraram na Argentina 21.444 venezuelanos. No total, estão no país legalmente 31.167. A maioria é estudante ou tem ensino superior completo.

Os venezuelanos ouvidos pela Folha dizem ter escolhido o país, entre outras coisas, porque há menos xenofobia e rejeição do em países como Colômbia, Peru e Chile. “Caminho nas ruas com menos medo, a polícia não é agressiva, sinto que os argentinos gostam do nosso jeito mais aberto de ser”, diz Rodríguez.

Há décadas há no país uma comunidade latino-americana numerosa. Uma primeira leva de imigrantes chegou há entre sete e doze anos e instalou negócios que empregam conhecidos ou parentes, como o café Al Grano, em Villa Ortúzar, apenas com garçons e garçonetes venezuelanos.

Carmen García, 25, que trabalha nessa função, gosta da Argentina, mas está com medo do que vem pela frente.

“Voltar para a Venezuela agora está impossível. Ficar aqui, ganhando em pesos, está obrigando a mim e a meus amigos a ter dois, três ou até mais empregos ou bicos. A ideia é juntar logo mais dinheiro e ir para Miami, para o Panamá, ou algum outro destino.”

Segundo uma pesquisa da Universidade Tres de Febrero, 70% dos venezuelanos na Argentina têm diploma de ensino superior, e 13% vem para inscrever-se numa universidade ou para começar um curso ou para validar um diploma e terminar os estudos. As cidades preferidas são Buenos Aires, La Plata, Mendoza, Córdoba e Rosario.

Em Lima, casa 'Sem Fronteiras' abriga 200 venezuelanos

Sem cobrar a estadia, um empresário têxtil peruano abriu em Lima um abrigo que recebe hoje 200 imigrantes venezuelanos.

René Cobeña alugou a casa de 200 m² no distrito de San Juan de Lurigancho, na capital peruana, depois de ter vivido a experiência de ser imigrante no Japão e na Coreia do Sul nos anos 1990.

Segundo ele, já passaram pela casa 1.700 venezuelanos fugidos da crise no país. No começo, ele oferecia aos albergados um prato de comida por dia, mas, graças a doações, agora oferece café da manhã, almoço e jantar.

"Batizei o abrigo de 'Sem Fronteiras' porque a fome não tem bandeira", diz Cobeña, 51.

O regulamento da casa proíbe fumar, beber álcool ou brigar e estabelece uma estadia máxima de um mês. "A única coisa que pedimos é colaboração na limpeza."

Como os 40 beliches não são suficientes, dezenas dormem em colchões no chão, mesmo no quintal. "Todo dia" chega mais um, diz Cobenã.

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