Descrição de chapéu The New York Times

Ilha taiwanesa ponto de conflito com a China se aproxima de Pequim

Kinmen fica afastada do resto do país e próxima da fronteira chinesa

Chris Horton
Kinmen (Taiwan) | The New York Times

As ilhas do condado de Kinmen, e as tropas nacionalistas estacionadas lá, suportaram ataques de artilharia da China muito depois da vitória comunista na guerra civil chinesa.

Hoje as relações entre a China e Kinmen, a poucos quilômetros de distância, são muito diferentes.

Com aproximadamente o dobro do tamanho de Manhattan, Kinmen foi governada por Taiwan desde que os nacionalistas derrotados fugiram da China para as ilhas em 1949. Mas a ilha principal de Taiwan está a 224 km de Kinmen, enquanto a China pode ser vista numa distância próxima —e que está diminuindo, literal e figurativamente.

Turista em Kinmen, que pertence a Taiwan, aponta a cidade chinesa de Xiamen
Turista em Kinmen, que pertence a Taiwan, aponta a cidade chinesa de Xiamen - Tyrone Siu - 20.ago.2018/Reuters

​Um novo aeroporto para a cidade chinesa de Xiamen está sendo construído ao norte de Kinmen, em uma ilha a 5 quilômetros, e os aterros feitos para esse projeto deixaram o território chinês quase 1,5 km mais perto.

O projeto de uma ponte de Kinmen ao aeroporto de Xiamen basicamente eliminaria a lacuna que resta. No mês passado, a China começou a fornecer a Kinmen água potável através de um novo duto de 16 quilômetros. E Kinmen provavelmente receberá em breve eletricidade mais barata de seu antigo inimigo.

A cerimônia em 5 de agosto de inauguração do aqueduto salientou o quanto Kinmen, que tem cerca de 130 mil habitantes, foi atraída para a órbita da China, cujo governo do Partido Comunista nunca controlou Taiwan e quer anexá-la.

Liu Jieyi, diretor do Escritório de Assuntos de Taiwan em Pequim, usou seu discurso na cerimônia na ilha para pedir que Taiwan, que é democrática e se autogoverna, aceite a política da "China Única", que afirma que Taiwan e a China fazem parte do mesmo país.

"A vasta população de Taiwan certamente fará a opção correta", disse Liu.

Ele quase certamente não teria feito esse discurso na ilha principal de Taiwan, onde a desconfiança da China é grande. Quando o antecessor de Liu viajou por Taiwan em 2014, enfrentou protestos em diversas cidades e seu carro foi manchado com tinta.

Wang Ting-yu, um legislador taiwanês do Partido Democrático Progressista, disse que a liberdade e a democracia desfrutadas em Kinmen tornam improvável que seus moradores queiram fazer parte da China autoritária. Mas ele disse que o Partido Comunista que governa a China teve certo sucesso na ilha com a chamada tática da Frente Unida, sob a qual trabalha com grupos não comunistas para alcançar seus objetivos.

"Quanto a aproximar Kinmen da China, eu diria que hoje ainda parece duvidoso", disse Wang. "Mas você não pode negar que os recursos que a China investiu no trabalho da Frente Unida em Kinmen tiveram certo efeito."

Chen Fu-hai, o magistrado do condado de Kinmen que dividiu o palco com Liu na cerimônia do aqueduto, disse que não se preocupa com o fato de que o fornecimento de água dê vantagem política à China.

"Eu acho que a China e Taiwan devem ter mais interação", disse ele em uma entrevista.

O novo aqueduto levará a Kinmen 30% de sua água encanada, compensando os gastos do suprimento local com o crescente turismo chinês, fatores ambientais e as duas destilarias de sorgo que fornecem a maior parte das receitas fiscais da ilha.

Assim como no território principal de Taiwan, a identidade pode ser uma questão complexa para pessoas nascidas em Kinmen. A geração mais velha tende a se identificar mais como chinesa que taiwanesa, enquanto os mais jovens veem com cautela a crescente influência da China.

A ilha, juntamente com a adjacente Pequena Kinmen, foi atacada esporadicamente pela China dos anos 1950 até o final dos 1970. Ela foi fortemente militarizada e isolada da Taiwan continental até 1992, quando terminou a lei marcial em Kinmen —cinco anos mais tarde que no resto de Taiwan— e os moradores participaram de sua primeira eleição local.

Kinmen, ao contrário da Taiwan continental, não passou meio século como colônia japonesa; foi um território chinês na maior parte desse período. Essas diferenças marcantes em suas experiências, assim como a distância entre as ilhas, tornaram o relacionamento original.

Turistas de Taiwan que visitam Kinmen talvez achem estranho um morador falar em "ir para Taiwan" para estudar ou trabalhar, implicando que Kinmen não faz parte de Taiwan.

Muitos kinmeneses dizem que foram abandonados por Taipei, a capital de Taiwan, desde a chegada da democracia. Chen, um político independente e o primeiro magistrado eleito de Kinmen que não é membro dos Nacionalistas, ou Kuomintang, disse que nenhum dos presidentes eleitos de Taiwan deu atenção suficiente às necessidades do condado.

Depois da desmilitarização de Kinmen em 1992, disse ele, "não tínhamos água, nem eletricidade ou estradas —não tínhamos nada".

Economicamente, segundo Chen, Kinmen teve de cuidar de si desde então, contando basicamente com as vendas de bebida alcoólica de sorgo e, mais recentemente, com o turismo chinês. Serviços de balsa para a China continental começaram em 2001, e a visão de Kinmen de seu vizinho gigante vem se abrandando desde então.

"Neste momento, na verdade, vejo o continente como bastante democrático, pelo menos o que eu vi em Xiamen", disse Chen sobre a pujante cidade chinesa próxima. Indagado a esclarecer, ele disse que os departamentos do governo local que conheceu foram "bastante abertos".

À sombra do burburinho urbano de Xianmen, grande parte da população de Kinmen foi esvaziada, com os jovens preferindo mudar-se para o território principal de Taiwan ou para a China. Na maioria de suas aldeias tradicionais apenas um terço das residências está ocupada, com muitas das antigas casas com pátios descuidadas.

Alguns jovens que ficaram dizem que o clima político mudou.

Wang Ting-chi voltou a Kinmen depois de seis anos em Nova York e fundou uma empresa, a Local Methodology, para fornecer uma plataforma não governamental para promover a cultura de Kinmen. Ela disse que se preocupava que os kinmeneses se sentissem "como órfãos" por causa da distância da ilha principal de Taiwan, e que eles poderiam ser tentados por gestos de abertura de uma China cada vez mais poderosa.

Pessoas que expressam preocupações sobre a influência chinesa, disse Wang, muitas vezes são consideradas ingênuas. "Acho que Kinmen vai estabelecer relações com a China por conta própria."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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