Descrição de chapéu Governo Trump

Insurreição no governo Trump atingiu nível inédito, dizem analistas

Autor anônimo publicou texto no jornal The New York Times criticando a atual administração

Júlia Zaremba
Washington

Críticas fazem parte do dia a dia dos presidentes, mas a sublevação de autoridades e assessores contra a agenda e as ordens de Donald Trump é inédita na Casa Branca, segundo analistas.

Na quarta (5), um autor anônimo que alega ser um membro conservador do primeiro escalão do governo publicou um artigo no jornal The New York Times afirmando que existe uma “resistência silenciosa” no governo formada por “pessoas que têm escolhido colocar o país em primeiro lugar” e “tentam fazer o certo” apesar do caos.

O presidente americano Donald Trump nos jardins da Casa Branca nesta quinta (6)
O presidente americano Donald Trump nos jardins da Casa Branca nesta quinta (6) - Ting Shen/Xinhua

​O texto foi publicado um dia após a divulgação de trechos de “Fear”, novo livro do jornalista Bob Woodward sobre os bastidores do governo Trump. A obra revela, entre outras coisas, que assessores escondem documentos delicados para que o republicano não os assine, alegando que assim preservam a segurança e a economia dos EUA.

“É uma situação singular, apesar de sempre ter havido vazamento de informações por parte de quem não apoiasse o governo”, diz Melvyn Levitsky, professor de políticas internacionais na Universidade de Michigan e ex-embaixador dos EUA no Brasil.

A citação à 25ª emenda à Constituição americana por parte do autor do artigo chamou a atenção de Levitsky. A emenda prevê que um presidente pode ser destituído do cargo de for declarado incapaz de ocupar a função. “Trata-se de algo muito sério”, afirma.

Sean Gailmard, cientista político da Universidade da Califórnia em Berkeley, concorda que rusgas são comuns. “O diferente desse caso é que, dado o que foi escrito, é que a insatisfação com o presidente ocorre em escala inédita”, diz.

Artigos e lamentos sobre presidentes tampouco são incomuns. “Mas as pessoas normalmente escrevem quando deixam o governo e o fazem assinando seus nomes”, afirma Gailmard. Para o especialista, contudo, o anonimato mina a credibilidade do autor.

Levitsky não descarta a possibilidade de que o texto tenha sido escrito por mais de uma pessoa. O ideal, diz ele, seria que os responsáveis se demitissem para contar mais detalhes sobre os bastidores.

Os especialistas dizem acreditar que o incidente pode deixar Trump mais paranoico e levá-lo a centralizar ainda mais o poder em suas mãos, o que seria ricochetearia as intenções do suposto assessor.

Na noite de quarta, o presidente tuitou a pergunta “TRAIÇÃO?”, após chamar o autor anônimo de covarde e mentiroso, e pediu que o jornal revelasse sua identidade.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Sarah Sanders, pediu para os veículos de imprensa pararem de especular e sugeriu que os curiosos liguem para a seção de opinião do New York Times, “cúmplices desse ato traiçoeiro”.

A crítica ao anonimato e às práticas citadas não veio só de defensores do presidente.

No jornal The Washington Post, o repórter político Aaron Blake apontou contradição no fato de quem escreveu afirmar que não quis causar uma crise evocando a 25ª emenda, um mecanismo legal, mas criar turbulência ao revelar métodos pouco democráticos para conter um presidente eleito legitimamente como algo corriqueiro no gabinete.

Publicar artigo anônimo é raro, mas não inédito —o Times o fez recentemente com uma salvadorenha ameaçada de deportação. Nesses casos, o jornal assume responsabilidade legal pelo que diz o autor.

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do informado em versão anterior deste texto, o artigo publicado pelo ​The New York Times é de um autor anônimo, não autônomo. O texto foi corrigido.

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