Descrição de chapéu The Washington Post

Arábia Saudita usa dinheiro, emprego e intimidação para emboscar opositores

Similar ao feito com jornalista desaparecido, cortejo cresceu com posse de príncipe herdeiro

Bandeira aparece esmaecida ao fundo da imagem; à frente dela, uma cerca de metal com ponta de arame farpado
Bandeira da Arábia Saudita tremula na parte alta do consulado do país em Istambul - Lefteris Pitarakis - 18.out.18/Associated Press
Loveday Morris Zakaria Zakaria
Istambul

Omar Abdulaziz apertou gravar em seu telefone e o colocou no bolso do peito no paletó, sentando-se em um café em Montreal (Canadá) para esperar por dois homens que, segundo disseram, trariam uma mensagem pessoal do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman.

Quando ele chegaram, Abdulaziz, 27, um ativista de oposição saudita, perguntou por que eles tinham ido até o Canadá para vê-lo.

“Há dois cenários”, disse um emissário, falando a Abdulaziz na terceira pessoa. No primeiro, ele pode voltar para a Arábia Saudita, para seus amigos e sua família. No segundo, “Omar vai para a prisão”.
Qual delas Omar prefere?, perguntaram, segundo Abdulaziz.

Para demonstrar o que estava em jogo, os visitantes tinham trazido da Arábia Saudita, para a reunião, um irmão mais moço de Abdulaziz. Este pediu que o irmão mantivesse a calma. 

As gravações clandestinas —mais de dez horas de conversa— foram apresentadas ao Washington Post por Abdulaziz, um amigo próximo do jornalista saudita desaparecido Jamal Khashoggi

Elas dão uma imagem assustadora de como a Arábia Saudita tenta atrair figuras da oposição de volta ao reino com promessas de dinheiro e segurança. Esses esforços aumentaram acentuadamente desde que Mohammed se tornou príncipe herdeiro, no ano passado, segundo grupos de direitos humanos. 

Vários amigos de Khashoggi disseram que autoridades sauditas graduadas próximas ao príncipe o contataram nos últimos meses, chegando a lhe oferecer um emprego de alto nível no governo se ele voltasse ao reino. 

Ele disse que não confiava na oferta, temendo que fosse uma armadilha. Segundo interceptações de autoridades sauditas feitas pela inteligência dos EUA, Mohammed ordenou uma operação para atrair Khashoggi de sua casa na Virgínia à Arábia Saudita e então detê-lo.

Não houve notícias de Khashoggi desde que ele entrou no consulado saudita em Istambul em 2 de outubro. Investigadores turcos concluíram que ele foi morto dentro da missão e então esquartejado. Autoridades sauditas disseram que não têm informação sobre seu destino.

Abdulaziz, que tem asilo no Canadá, disse que trabalhava em vários projetos com Khashoggi que podem ter dado à liderança saudita mais motivos para querer tirá-lo do caminho. 

Khashoggi lhe havia enviado US$ 5.000 (R$ 18,4 mil) para um projeto que chamavam de “as abelhas” —uma iniciativa para formar um “exército” online na Arábia Saudita para contestar informações pró-governo na internet. 

A dupla também estava trabalhando em um curta-metragem, um site de direitos humanos e um projeto pró-democracia, segundo Abdulaziz.

Esse trabalho deveria ser secreto. Mas Abdulaziz disse que foi localizado por espiões sauditas em meados deste ano. “Eles tinham tudo”, disse ele. “Eles viram as mensagens entre nós. Escutaram as ligações.” 

Na gravação feita por Abdulaziz, os dois visitantes disseram várias vezes que vinham pessoalmente da parte do príncipe herdeiro. Eles também mencionaram que estavam trabalhando sob ordens de Saud al-Qahtani, um estrategista graduado e assessor de Mohammed.

Foi Qahtani quem, segundo Khashoggi disse a amigos, lhe telefonou meses antes de seu desaparecimento, pedindo-lhe para terminar seu exílio voluntário e retornar à Arábia Saudita.

Abdulaziz deixou o país em 2009 para estudar no Canadá, lembrou ele. Formou um público no Twitter durante a Primavera Árabe e então, quando estava na Universidade McGill, iniciou um programa popular no YouTube conhecido por criticar e satirizar a liderança saudita. Ele conseguiu a residência permanente no Canadá em 2014.

Abdulaziz e Khashoggi ficaram amigos depois que o jornalista saudita se mudou para Washington no verão de 2017. “Ele estava solitário quando partiu”, disse Abdulaziz. “Começamos a falar sobre morar no exterior, longe de nossas famílias, sobre a vida e os projetos que vamos fazer. Jamal era um pai, um amigo.”

“O exército de abelhas” foi ideia de Abdulaziz, mas ele disse que Khashoggi a aprovou.

Enquanto criticava a liderança saudita e como colunista independente do “Post”, Khashoggi havia encontrado as contas pró-governo no Twitter que os ativistas chamam de “moscas”.

“Jamal ficou tão insultado pelos bots sauditas”, disse Abdulaziz. “Eles enfocavam Jamal como se ele fosse a voz na mídia ocidental.”

Abdulaziz disse que ele sugeriu um contramovimento online. Ele só precisava de algum dinheiro para lançá-lo. “Vamos chamar de ‘exército das moscas’”, disse ele. “Nós chamamos a nós mesmos de ‘exército das abelhas’.”

O plano, como ele lembrou, era comprar chips de celular com números americanos e canadenses que os sauditas no reino pudessem usar. As contas no Twitter devem ser verificadas com um número de telefone, e os ativistas na Arábia Saudita têm medo de ligar seus números locais a contas no Twitter, temendo que sejam localizados e presos por criticar o governo, disse ele. Eles já distribuíram 200 chips a pessoas em seu país. 

Khashoggi também tinha pedido que Abdulaziz ajudasse em um curta mostrando como a liderança saudita está dividindo o país, e no desenho de um logotipo para uma fundação que estava criando, a Democracia para o Mundo Árabe Agora. Abdulaziz também ajudava Khashoggi a criar um site para acompanhar questões de direitos humanos. 

Mas Khashoggi estava especialmente apreensivo sobre o projeto dos chips de celular. “Ele me disse que esse projeto é perigoso demais”, disse Abdulaziz. “Ele me disse para tomar cuidado. (...) o Twitter é a única plataforma que temos, não temos um Parlamento.” 

Em uma mensagem de 21 de junho, Khashoggi escreveu a Abdulaziz: “Vou tentar conseguir o dinheiro. (...) Devemos fazer alguma coisa. Você sabe que às vezes sou [afetado] pelos ataques deles.”

Dois dias depois, Abdulaziz fez um pedido na Amazon. Ele clicou num link enviado a seu telefone para localizar a encomenda, e desconfia que esse ato infectou seu telefone.

O projeto Citizen Lab, da Universidade de Toronto, que investiga espionagem digital contra a sociedade civil, o avisou em agosto que seu telefone poderia ter sido hackeado. 

Duas semanas atrás, o grupo concluiu com “alto grau de confiança” que seu celular tinha sido visado por um operador ligado “ao governo e serviços de segurança da Arábia Saudita”. 

Abdulaziz disse que um dos homens lhe fazia convites para voltar à Arábia Saudita havia vários meses. Se o homem tinha uma mensagem, podia trazê-la ao Canadá, Abdulaziz se lembra de ter dito. 

Ele poderia recomeçar a vida na Arábia Saudita, diziam eles. Abdulaziz disse que iria e montou um grupo no WhatsApp chamado “New Era” [Nova Era] em 30 de março, segundo mostra uma captura de tela.

Na época, o assertivo príncipe de 32 anos estava numa onda de publicidade favorável. Tinha acabado de fazer uma visita de sucesso aos EUA, onde se encontrou com celebridades como Bill Gates, o dono do Post, Jeff Bezos, e Dwayne “The Rock” Johnson. 

Mas um calafrio já tinha sido lançado sobre a comunidade dissidente saudita. Na Arábia Saudita, o príncipe tinha detido ativistas e reunido empresários que prendeu no Hotel Ritz-Carlton.

Os ativistas fora do país também não estavam imunes. Uma das mais famosas ativistas mulheres da Arábia Saudita, Loujain al-Hathoul, foi sequestrada na rua em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, e levada à Arábia Saudita. 

Ela foi libertada após alguns dias, mas colocada sob proibição de viagem e com ordens de não falar em público. Mais tarde ela foi presa por acusações que incluem contrato com entidades estrangeiras. Ela continua na cadeia. 

O príncipe Khaled bin Farhan al-Saud, um dissidente real na Alemanha, disse que foi submetido ao que considera uma trama semelhante em setembro. Segundo ele, parentes lhe disseram que receberia um cheque do Estado para ajudá-lo em suas dificuldades financeiras se ele fosse ao Cairo. 

Ele diz que não sai da Alemanha há sete anos por medo de ser sequestrado. “A Arábia Saudita está enviando um sinal muito claro e deliberado, dizendo que você nunca será livre”, disse a diretora-executiva da Human Rights Watch, Sarah Leah Whitson. “Onde quer que você esteja, nunca será livre para dizer o que quiser.”

Khashoggi tinha aconselhado Abdulaziz a encontrar os homens em locais públicos e não voltar ao reino com eles. “Ele disse: ‘se você quer dinheiro, a decisão é sua’”, lembrou Abdulaziz. “’Mas não volte; não confie neles.’”

Os visitantes sauditas começaram a pressionar Abdulaziz em 15 de maio, no encontro no Café Juliette et Chocolat em Montreal, enquanto tocava ao fundo “Sweet Caroline”, de Neil Diamond.

Khashoggi é uma “dor de cabeça”, mas ele pensava em voltar à Arábia Saudita, disse um homem. Abdulaziz também deveria. 

“Omar, para tratar com você nós não quisemos vir de um ministro ou um embaixador. Quisemos vir do topo da pirâmide, do príncipe”, disse um dos homens. “Ninguém pode lidar melhor com esse assunto do que o próprio príncipe.” 

O Post ouviu mais de dez horas de gravações fornecidas por Abdulaziz, que segundo ele foram feitas durante reuniões com os homens durante quatro dias em maio. Os dados do arquivo mostram que as gravações foram feitas nas horas que ele especifica. 

Mensagens no WhatsApp contemporâneas sobre a visita também combinam com sua história. Abdulaziz pediu que os homens não fossem identificados. Ele disse que não sabe se eles trabalhavam para a inteligência saudita ou foram obrigados pelo governo a tentar levá-lo de volta. 

Os homens, ambos figuras públicas que falaram em apoio ao príncipe, não responderam a telefonemas ou a perguntas enviadas na quarta-feira pelo Post. Um deles disse que enviaria uma mensagem, mas não o fez. Ligações para um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores saudita não foram respondidas.

O tom da maior parte da conversa é jovial e amistoso. “Eles começaram com as cenouras”, explicou Abdulaziz. “Tentando me convencer a voltar, levando meu irmão.” 

Ele acreditou então que queriam levá-lo de volta ao reino, pagar-lhe e usar seu amplo público na rede social para a propaganda saudita, disse ele. 

Em certo ponto da conversa, os homens lhe pediram para visitar a embaixada saudita com eles para pegar um novo passaporte —um pedido que hoje ele considera sinistro, já que Khashoggi desapareceu dentro do consulado em Istambul.

Durante o café, os homens elaboraram as opções. Um cenário em que Abdulaziz volta à Arábia Saudita é uma situação em que todos saem ganhando, disse um dos homens.

“Omar é um beneficiário ou um vencedor, porque volta para casa”, diz ele. “O outro lado, o Estado, é um vencedor e também fica contente.”

O retorno de Abdulaziz poderia ajudar a polir a imagem do reino, disseram eles. O governo já tinha gasto milhões de dólares na visita do príncipe a Washington para melhorá-la. “Isto mostra que o reino está disposto a dar esse passo”, diz ele. 

Mas no segundo cenário todo mundo perde, continuou o homem. “Omar é um perdedor porque vai para a cadeia”, disse ele, acrescentando que seria preso no aeroporto. O governo também perderia. 

Como Abdulaziz não é uma figura importante de oposição, qualquer “informação” obtida se ele for detido não teria muita utilidade para o Estado. Mas o governo seria prejudicado pela “propaganda” dos grupos de direitos humanos e da mídia cobrindo sua detenção, disseram eles.

Em certos momentos, a conversa gira sobre quanto dinheiro Abdulaziz poderia ganhar se aceitasse a oferta deles. Ele diz que a Arábia Saudita lhe deve cerca de US$ 316 mil (R$ 1,16 milhão) por suspender os pagamentos de sua bolsa de estudos. 

“Eu aceitarei o dinheiro e darei aos sem-teto de Montréal, ao hospital do câncer ou comprarei um relógio novo e o quebrarei”, diz ele em outra reunião. “Não é da conta de ninguém.” 

Durante as conversas, Abdulaziz manteve contato com Yahya Assiri, um ativista saudita de direitos humanos em Londres. 

“Eu sempre lhe perguntava: ‘Você quer alguma coisa? Quer achar um meio-termo com eles?’”, disse Assiri. “Ele dizia: ‘Não, não, não. Quero ver o que eles querem de mim’. Na minha opinião, estava claro o que eles queriam. Queriam que ele voltasse. Livrar-se de seu trabalho e silenciá-lo.”

Abdulaziz disse que nunca teve a intenção de voltar. Os homens disseram que não transfeririam o dinheiro antes que ele voltasse. Ele recusou a oferta, e os homens acabaram saindo de Montreal sem ele.

No início de agosto, os dois irmãos mais moços de Abdulaziz foram presos na Arábia Saudita, juntamente com oito de seus amigos, disse ele, segurando as lágrimas.

Ele enviou uma mensagem a um dos homens que o visitaram em maio. “Compreendo que você é um intermediário “, disse, segundo fotos de tela da mensagem. “Pergunte quais são as exigências deles.”

A resposta chegou, e referia-se às “abelhas”. “O grupo falou muito sobre as contas na rede social. E eles sabem que você as tem.”

Mas Abdulaziz disse que não pode ceder. “Eles grampearam meu telefone e prenderam meus irmãos, sequestraram e talvez mataram meu amigo”, disse ele. “Não vou parar.”

The Washington Post
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