Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Brasil não deve ser prioridade para novo Congresso dos EUA

Americanos decidem na terça (6) se controle seguirá com republicanos ou ficará com democratas

Júlia Zaremba
Washington

Com maioria democrata ou republicana, o novo Congresso americano não deve incluir o Brasil em sua lista de prioridades durante os próximos dois anos. As eleições legislativas serão realizadas na próxima terça-feira (6). 

Questões domésticas, como a imigração, a reforma do sistema de saúde, a aprovação do novo acordo com o México e o Canadá e eventuais investigações contra o presidente Donald Trump devem ser alguns dos principais pontos da pauta da nova legislatura.

Mas isso não significa que o Brasil não seja relevante para os congressistas americanos. Primeiro, pela importância econômica: o país está entre os quinze principais parceiros comerciais dos Estados Unidos, segundo dados do censo.

O Capitólio americano, em Washington; eleição vai decidir se republicanos manterão o controle de Câmara e Senado
O Capitólio americano, em Washington; eleição vai decidir se republicanos manterão o controle de Câmara e Senado - J. Scott Applewhite - 17.mar.2017/Associated Press

Depois, pela relevância geopolítica. "Eles reconhecem que somos uma potência importante na América Latina, e têm se engajado conosco principalmente na questão da crise na Venezuela", afirma Cássia Carvalho, diretora executiva do Brazil-US Business Council, braço da Câmara de Comércio dos Estados Unidos que busca fortalecer a relação entre os dois países.

O país conta com uma frente parlamentar na Câmara, composta por cerca de 30 congressistas que defendem interesses do Brasil. O atual presidente do grupo, o republicano Carlos Curbelo, é deputado por um distrito congressional ao sul da Flórida, região com grande concentração de brasileiros.

"É uma frente importante para discutir a relevância do Brasil como parceiro estratégico dos Estados Unidos", diz Carvalho.

Recentemente, por exemplo, os membros da frente enviaram uma carta ao governo Trump apoiando a adesão do Brasil à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), segundo a diretora.

Um dos entraves para a entrada do Brasil é a relutância dos americanos em ampliar o acesso ao organismo internacional, hoje composto por 35 membros e conhecido como "clube dos países ricos".

Para Joel Velasco, sócio da empresa de consultoria americana Albright Stonebridge, no entanto, a frente parlamentar não afeta tanto a agenda entre os dois países. "A indústria e o governo brasileiros não têm um lobby organizado nos Estados Unidos", afirma. "Sem isso, o grupo não terá relevância."

Em agosto o BIC (Brazil Industries Coalition), um dos principais grupos de defesa das empresas brasileiras em Washington, anunciou que fecharia as portas. Ele teve papel importante para isentar o Brasil das tarifas sobre o aço impostas pelo governo americano a outros países.

O cenário mais provável pós-eleições é que os democratas recuperem a maioria de ao menos de uma das casas legislativas (as chances são maiores na Câmara do que no Senado). Nesse caso, dizem os especialistas, não devem ocorrer mudanças drásticas no relacionamento entre as duas nações.

Para a diretora da Amcham Brasil (câmara de comércio americana), Deborah Vieitas, uma Câmara com mais democratas poderia ser mais exigente em relação à questão da sustentabilidade em eventuais acordos comerciais firmados entre as duas nações.

Mas não são esperadas mudanças drásticas em discussões sobre comércio exterior, já que elas têm sido mais pautadas no pragmatismo do que em ideologias, segundo ela.

Letícia Phillips, representante da Unica (união da indústria da cana-de-açúcar) para a América do Norte, a forma com que o Congresso democrata vai lidar com o comércio é uma incógnita. "Historicamente, os republicanos são mais a favor de comércio, mas, com a guerra comercial patrocinada por Trump, tudo ficou um pouco fora do eixo", diz.

A mudança na composição da Câmara também poderia levar a posições mais duras dos congressistas quanto a ações controversas tomadas pelo Brasil, diz Velasco. Caso decida tomar uma posição mais dura em relação à Venezuela, por exemplo.

Nesta semana, o general de reserva do Exército Augusto Heleno, citado por Jair Bolsonaro como ministro da Defesa de seu governo, rechaçou a possibilidade de o Brasil participar de um plano para desestabilizar Nicolás Maduro.

Há precedentes de cartas assinadas por congressistas democratas condenando questões brasileiras. Na última semana, às vésperas das eleições, deputados assinaram um documento em que afirmaram estar "profundamente preocupados com as crescentes ameaças à democracia, aos direitos humanos e ao Estado de Direito no Brasil". Em janeiro, também escreveram uma carta criticando a prisão do ex-presidente Lula.

"E, claro, eles poderiam estabelecer laços com a oposição no Brasil para criticar Bolsonaro, o que seria um erro, na minha opinião", diz Velasco. 

Caso as previsões não se confirmem e os republicanos continuem com a maioria dos assentos no Congresso, o Brasil poderia tirar vantagem disso, diz Vieitas, da Amcham Brasil

"O alinhamento entre os congressistas republicanos e o presidente sempre foi um fator positivo [para avançar a agenda em uma velocidade maior]", diz. "Como Trump já manifestou interesse em ampliar a cooperação comercial e militar com o Brasil, o relacionamento poderia melhorar mais."

Para Phillips, da Unica, é fundamental estreitar o relacionamento entre as câmaras de ambos os países. "Não só de intercâmbio de parlamentares, mas a nível técnico, para fortalecer os vínculos."

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