Descrição de chapéu Governo Trump

Câmara nos EUA terá sua maior renovação desde a década de 1990

Ao menos 55 deputados não buscam reeleição; maioria é de republicanos afetados por impopularidade de Trump

Duas mulheres estão diante das urnas, que têm paredes azuis. Ao fundo há outra observando o sufrágio.
Mulheres sufragam em votação antecipada para as eleições legislativas de novembro em Chicago, no estado americano de Illinois - Kamil Krzaczynski/AFP
Júlia Zaremba
Washington

A Câmara dos Deputados brasileira terá a maior renovação desde 1998 quando o próximo mandato começar, com 47,4% de deputados novos. Nos EUA, fenômeno similar ocorrerá com as legislativas de novembro, quando mais de 50 deputados não tentarão à reeleição —o maior número desde 1992. 

Entre os republicanos, o número é o mais alto desde 1930. 

O recorde foi apontado em abril pelo Centro de Pesquisas Pew. Para atualizar os números, a Folha consultou sites especializados em política e constatou que ao menos 55 deputados não se candidatarão em 2018 —sem contar quem renunciou ou morreu antes do fim do mandato. 

São 37 republicanos e 18 democratas que não concorrem à reeleição nem disputam cargo mais alto (de senador e governador, por exemplo). A Câmara dos EUA é composta por 435 deputados e tem eleições a cada dois anos. Em 1992, 65 congressistas não investiram em uma nova candidatura. 

Se o número é recorde entre republicanos, entre democratas ele segue o padrão, segundo o Vital Statistics for Congress, serviço da Brookings Institution, centro de pesquisas em Washington, que compila o dado desde 1930.

O presidente da Câmara, Paul Ryan, 48, é um dos principais nomes do Partido Republicano a deixar a Casa. Ele completa 20 anos de Congresso ao fim do mandato e disse que quer tempo com a família. 

Cientistas políticos apontam que, no geral, a debandada republicana está ligada à impopularidade de Trump, ao ambiente de polarização no país e à falta de autonomia dos deputados, que ficam reféns de lideranças partidárias.

Historicamente, o partido opositor costuma ganhar a maioria das vagas da Câmara nas eleições de meio de mandato. Levantamento do Instituto Gallup em setembro mostra que presidentes com aprovação abaixo de 50% perdem, em média, 37 assentos na casa. 

Trump, apesar dos bons indicadores da economia americana, é aprovado por 43% dos americanos, segundo os dados mais recentes do instituto, que monitora mandatários desde 1945.

Três presidentes analisados tiveram aprovação menor neste ponto do mandato: Ronald Reagan (42%, em 1982), Harry Truman (39% e 33%, em 1950 e 1946) e George W. Bush (38%, em 2006). 

Isso teria desanimado muitos deputados a fazer campanha, afirma Robert Shapiro, professor de ciências políticas da Universidade Columbia (Nova York), já que uma vitória seria bastante difícil. 

O estilo de governar do presidente também pode afastar correligionários da política. "Eles são felizes como republicanos, mas podem estar menos contentes como republicanos no partido de Trump." 

Alguns estariam ainda frustrados com a falta de autonomia, diz Shapiro, já que as lideranças partidárias têm tentado garantir o apoio da base a determinadas políticas e legislações e ao presidente. 

A polarização no país seria outro fator para a desistência, afirma Richard Arenberg, da Universidade Brown. 

"Em qualquer democracia, é uma situação difícil quando os partidos não vão para a mesa negociar uns com os outros", diz. "Chega a um ponto em que muitos membros da Câmara ficam frustrados pela incapacidade de legislar." 

Segundo ele, a polarização tem sido tendência no ambiente político americano nos últimos 20 anos: "Mas foi exacerbada sob a gestão Trump." 

Quem ganha com a saída de tantos republicanos são os democratas, que precisam recuperar ao menos 23 assentos da oposição para conseguir maioria na Câmara. Especialistas veem boas chances.

Paul Frymer, professor de política da Universidade de Princeton, observa que deputados em reeleição têm mais chances de vencer do que os novatos, o que seria uma ameaça para o governo Trump. Os democratas poderiam dificultar a governabilidade e iniciar investigações contra ele.

A renovação será positiva para estimular reformas no Congresso, segundo o professor. "Os novos membros tendem a ter como objetivo a mudança, o que seria ótimo para o ambiente atual", diz ele. 

Mas há um lado negativo. "Para ser bom legislador, é necessário um período de aprendizagem e treinamento", diz Michael Traugott, professor-adjunto de ciências políticas da Universidade de Michigan. "A instituição paga o preço."

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