Descrição de chapéu The New York Times

Campanha de grupo desconhecido no Facebook ataca plano do 'brexit'

Anúncios na rede social questionam proposta de Theresa May

A primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, passa pelas bandeiras britânica e da União Europeia - Toby Melville - 18.out.18/Reuters
Adam Satariano
Londres | The New York Times

A primeira-ministra Theresa May tem dificuldades para conquistar apoio ao seu plano de saída do Reino Unido da União Europeia. Agora, parte da oposição vem de uma organização desconhecida que publica anúncios para milhões de pessoas no Facebook.

Nos últimos dez meses, a organização gastou mais de £ 250 mil (cerca de R$ 1,2 milhão) em anúncios que defendem uma ruptura mais severa da UE do que May planejava. Os anúncios atingiram de 10 milhões a 11 milhões de pessoas, segundo um relatório publicado no último sábado (13) por uma comissão da Câmara dos Comuns que investiga a manipulação das redes sociais nas eleições.

Os anúncios, que desapareceram subitamente nesta semana, estão ligados a sites da web para pessoas enviarem e-mails pré-escritos para seus representantes no Parlamento, expondo sua posição sobre as negociações de May e a UE. 

"Nós votamos para sair da UE, recuperar o controle de nosso dinheiro e nossas fronteiras", dizia um dos anúncios.

Quem estava por trás da campanha continua sendo um mistério. O nome ligado a ela era Mainstream Network ["rede da corrente dominante"], grupo que não parece existir na Grã-Bretanha, além dos anúncios e de um site. Não há informação no Facebook ou no site da Mainstream Network sobre quem dirige a organização.
 
O painel do governo, a Comissão de Digital, Cultura, Mídia e Esporte, disse que as postagens salientaram a constante dificuldade do Facebook para monitorar publicidade política em sua plataforma. 

"Aqui temos um exemplo de uma organização claramente sofisticada que gasta muito dinheiro em uma campanha política, e absolutamente não temos ideia de quem está por trás dela", disse Damian Collins, presidente da comissão, em um comunicado. "As únicas pessoas que sabem quem pagou por esses anúncios é o Facebook." 

O grupo oficial investigou o papel das redes sociais nas eleições, incluindo a influência do Facebook na acirrada votação em 2016 para sair da UE. Espera-se que divulgue um relatório completo nas próximas semanas.

Rob Leathern, diretor de gestão de produtos do Facebook, disse que a empresa atualizará no próximo mês sua política de divulgação no Reino Unido. Ela vai exigir que os anunciantes confirmem suas identidades e acrescentem informações precisas sobre suas identidades aos anúncios. 

As mudanças fazem parte de novas políticas de publicidade política que o Facebook anunciou nesta semana para usuários da Grã-Bretanha. Não só os anúncios políticos precisarão ser rotulados com mais clareza, como a empresa está montando um arquivo pesquisável de anúncios políticos que foram publicados no site. 

"Sabemos que não podemos impedir a interferência eleitoral sozinhos", disse Leathern, "e oferecer mais transparência na publicidade permite que jornalistas, pesquisadores e outras partes interessadas levantem questões importantes."

O Reino Unido não é o único país que lida com financistas desconhecidos de anúncios políticos no Facebook. Nos EUA, a publicidade no Facebook de doadores desconhecidos começou a aparecer em campanhas para o Congresso. 

 

Para supervisionar sua reação a um número crescente de desafios regulatórios em todo o mundo, a companhia anunciou na sexta-feira (19) que Nick Clegg, um ex-vice-primeiro-ministro da Grã-Bretanha que é politicamente bem conectado na Europa, será seu novo chefe de políticas públicas globais.

Os anúncios da Mainstream Network foram retirados depois que o Facebook anunciou suas novas regras de publicidade na Grã-Bretanha, segundo Mike Harris, executivo-chefe do 89up, uma empresa de marketing nas redes sociais que a comissão parlamentar contratou para ajudar em sua investigação.

Harris, que é especializado em campanhas políticas, descobriu os anúncios recentemente, quando um deles apareceu em seu feed na rede social. Sua empresa, que também trabalhou para grupos a favor da permanência na UE, encontrou mais de 70 anúncios publicados em um período de dez meses.
O grupo por trás dos anúncios parece ser bem financiado. Com base no custo de campanhas publicitárias políticas comparáveis no Facebook no país, a 89up calculou que a Mainstream Network gastou £ 257 mil (R$ 1,24 milhão).

Esse grupo também mantém um site bem cuidado que mistura comentários a favor da cisão dura com a UE ao lado de cobertura de eventos, como o anúncio da Amazon de que aumentará o número de empregos na Grã-Bretanha. 

A Mainstream Network não dá nenhuma pista de quem está publicando o conteúdo. Nenhuma informação de contato está listada em seu site ou na página do Facebook.

"Não há indício de quem está por trás disso, ou quem está apoiando", disse Harris em uma entrevista. "Pode ser um indivíduo rico; um grupo de voluntários que se uniu e decidiu esconder sua identidade; ou pode ser um Estado estrangeiro. É totalmente indefinido."

Os anúncios foram revelados em um momento politicamente frágil no Reino Unido, em que May tenta equilibrar a posição dos que querem manter laços mais estreitos com o continente contra os que querem uma ruptura mais firme.

Os anúncios da Mainstream Network visaram fortemente a posição de negociação central de May, conhecida como "plano Chequers", que manteria uma dura relação comercial com a Europa. Dois membros do gabinete de May renunciaram por causa de sua abordagem. 

A linha-dura pró-Brexit quer que ela remodele o plano e proponha uma relação mais distante, como o acordo comercial da UE com o Canadá. 

As revelações divulgadas no sábado são um prelúdio a outras investigações de desinformação online que deverão ser divulgadas até o fim do ano. Além do relatório final da comissão parlamentar, há grande expectativa sobre as conclusões do Escritório do Comissário de Informação depois de sua investigação da Cambridge Analytica, firma de direcionamento político baseada em Londres que colheu dados pessoais de milhões de usuários do Facebook. 

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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