Choque cultural faz de cidade na Alemanha retrato da xenofobia

Chemnitz, leste do país, torna-se principal palco de protestos e ataques recentes a estrangeiros

Os cartazes coloridos trazem os dizeres "Chemnitz não é cinza nem marrom", nome de uma campanha lançada pela associação local das indústrias para tentar descolar da cidade a pecha de capital da intolerância
Monumento de Karl Marx, na Brückenstrasse, no centro de Chemnitz (Alemanha), em torno do qual acontecem protestos de simpatizantes da extrema-direita - Lucas Neves/Folhapress
Lucas Neves
Chemnitz (Alemanha)

O busto de bronze de sete metros de altura de Karl Marx (1818-83) que fita o movimento na Brückenstrasse, larga artéria do centro de Chemnitz, a esta altura já se resignou com as ironias da história.

No fim dos anos 1980, viu militantes se aglomerarem aos milhares ao seu redor para pedir o fim do regime comunista na Alemanha Oriental, da qual fazia parte a localidade —chamada oficialmente cidade de Karl Marx de 1953 até 1990.

Nas últimas semanas, são hordas de simpatizantes da extrema-direita que, semanalmente, têm acudido ao local, como que respondendo ao chamado "Proletários de todos os países, uni-vos!", inscrito em letras garrafais no mural de concreto do prédio de repartições públicas para o qual o monumento dá a nuca.

Quase toda sexta-feira, algumas centenas de pessoas batem ponto ali munidas de bandeiras alemãs e palavras de ordem como "fora, estrangeiros!" e "devolvam-nos nosso país". Saudações nazistas já foram flagradas na multidão.

A mobilização xenófoba à luz do dia não é novidade aqui (nem no resto da Alemanha), mas sim seu vigor e amplitude. A fagulha para a mudança de patamar foi a morte do carpinteiro Daniel Hillig, 35, no fim de agosto, em uma altercação mal esclarecida que envolveu um sírio e um iraquiano, ambos presos depois.

No dia seguinte, 800 pessoas foram às ruas de Chemnitz protestar contra o ocorrido e mostrar "quem mandava na cidade" de 247 mil habitantes, segundo convocatória lançada por um grupo de hooligans locais. Nas franjas da marcha, houve relatos de insultos, intimidações e agressões físicas a estrangeiros. A polícia foi pega desprevenida.

Mais 24 horas se passaram, e então eram de 6.000 a 8.000 pessoas, inclusive de outras localidades, a engrossar a manifestação. Nas redes sociais, tinha se disseminado a notícia falsa de que o carpinteiro morrera tentando salvar uma criança de um estupro.

Os policiais novamente foram pegos de calça curta, sobretudo porque, desta vez, acontecia em paralelo um contraprotesto pró-imigrantes. Uma semana depois, um show de rock produzido com o mote da tolerância seria visto por mais de 50 mil pessoas, segundo autoridades municipais.

A Saxônia, estado onde fica Chemnitz, tem um histórico incômodo como berço de organizações de retórica xenófoba que não raro se converte em violência física.

O movimento Nacional Socialista Underground, de inspiração nazista, foi descoberto em 2011 nessa região. Um de seus líderes acaba de ser condenado à prisão perpétua por assassinar dez pessoas nos anos 2000.

Fundado em 2014, o grupo Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente (Pegida) tem raízes em Dresden, a uma hora de Chemnitz.

Por fim, a polícia prendeu no começo de outubro sete supostos membros do Revolução Chemnitz. O grupo tinha um pequeno arsenal de armas brancas e de fogo, e, segundo mensagens interceptadas, planejava atacar estrangeiros e simpatizantes da causa dos refugiados. Eles foram indiciados por terrorismo.

Segundo o cientista político Hajo Funke, da Universidade Livre de Berlim, o que está em curso é uma união de forças entre neonazistas que protestam há anos e grandes contingentes de Wutbürger —cidadãos enraivecidos, em tradução literal, que correspondem grosso modo ao segmento "contra tudo que está aí" das manifestações brasileiras.

E mais: o "casamento" se produz sob as bênçãos do Pegida e do Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de direita nacionalista que chegou ao Parlamento na eleição de 2017 com 12,6% dos votos nacionalmente (e 27% na Saxônia, onde liderou).

"Uma mudança no comando da AfD resultou na normalização do discurso de ódio", diz Funke. "Além disso, a votação expressiva do partido deu a eles confiança para recalibrar o tom e instrumentalizar quem está só insatisfeito."

Mas por que Chemnitz virou palco do acirramento da tensão que atravessa o tecido social alemão desde 2015, quando 1,1 milhão de estrangeiros cruzaram a fronteira com a política de portas abertas da chanceler Angela Merkel?

Há o fator econômico. A diferença de padrão de vida entre os estados da antiga Alemanha Oriental e os do lado ocidental caiu desde 1990, mas a um ritmo mais lento nos últimos anos, o que pode estimular impaciência e ressentimento. O leste tem hoje 73% do PIB per capita do oeste.

É preciso ressaltar que Chemnitz, esvaziada por um êxodo maciço pós-capitulação do comunismo no começo dos anos 1990, hoje atrai muitos jovens e famílias com aluguéis abaixo da média nacional.

Uma sensação difusa de insegurança também turbina o discurso. "No centro, à noite, grupos ficam andando a esmo", conta Rene Bergelt, 29, funcionário da Universidade Tecnológica da cidade. "Não se entende o que dizem, têm cor de pele diferente. Para pessoas mais velhas, isso é uma mudança drástica, cria medo."

O engenheiro Frank Diersch, 49, que foi a um dos protestos anti-imigrantes, faz coro. "Muitos vêm do Magreb, de países seguros. Não estão em perigo. Não entendo por que são aceitos aqui", afirma.

"Nas estatísticas de criminalidade, têm maior peso proporcional do que alemães. Deveriam ser deportados após o primeiro crime. Se não sabemos distinguir os corretos dos outros, é culpa do governo."

Os números derrubam duplamente a argumentação. Os países do extremo norte africano não aparecem no "top 5" dos que mais possuíam cidadãos radicados na Alemanha (ou em Chemnitz) em 2017.

Além disso, segundo a polícia da Saxônia, os crimes e contravenções atribuídos ali no ano passado a estrangeiros representam 6% do total, porcentagem quase idêntica à da fatia de não alemães na população do estado (5%).

O terceiro e talvez principal adubo da intolerância em relação a quem vem de fora é o temor de uma reviravolta cultural, de um terremoto no campo dos usos e costumes.

"A cultura alemã vai ser destruída. Quando viajo para cidades do oeste, como Colônia, vejo que todo mundo tem cara de estrangeiro", diz Diersch. "Precisamos de cientistas e engenheiros, não de salões de chá árabes ou kebaberias."

A cuidadora de idosos Sandra B., 36, também foi a um dos atos da extrema-direita.

"É pelo futuro, pela segurança das crianças e velhos [que participa]. Muitos estrangeiros não respeitam os alemães. E fica uma mistura muito grande. Russos, muçulmanos... [os manifestantes] não somos nazistas, temos família, trabalho. Só achamos que o Estado deveria fazer mais por nós do que por eles."

Depois de se despedir da reportagem, ela passa mais de meia hora ajeitando as velas, bichos de pelúcia, flores e bilhetes deixados no memorial improvisado para o carpinteiro assassinado Daniel Hillig, na calçada da Brückenstrasse, a um quarteirão do Marx.

No centro das homenagens, desponta uma cruz de madeira, sobre a qual pende um boné e em que se apoiam duas bandeiras: a alemã e a de Cuba —Hillig tinha ascendência caribenha. Grande mistura.

Memorial tem flores, sequência de velas e as bandeiras da Alemanha e de Cuba
Memorial improvisado em calçada do centro de Chemnitz (Alemanha) para homenagear o carpinteiro Daniel Hillig, morto após discussão com estrangeiros em agosto - Lucas Neves/Folhapress

Campanha busca reverter imagem negativa

Enegrecido pelo tempo, o busto de Karl Marx ganhou há pouco companhia colorida: cartazes da campanha "Chemnitz não é cinza nem marrom".

A iniciativa da Associação da Indústria da Saxônia tenta ajudar a cidade a escapar do rótulo de capital neonazista trazido pelos eventos recentes.

O cinza faz referência à fama de pouco formosa que Chemnitz cultivou ao longo das décadas, sobretudo na comparação com as vizinhas Leipzig e Dresden. Já o marrom alude ao uniforme do grupo paramilitar do Partido Nazista.

Até agora, a campanha obteve mais de € 240 mil (R$ 1 milhão) de 60 empresas para projetos para instalação e estímulo à integração de refugiados, como aulas de alemão.

"As imagens na mídia não correspondem à cidade que conhecemos. Não somos um antro nazista", diz Katrin Hoffmann, gerente da associação.

"Há qualidade de vida. Temos o maior bairro de arquitetura art nouveau da Europa. Somos o berço do que é hoje a Audi, já fomos uma das cidades mais ricas do país."

A mão de obra local não supre a demanda da indústria. Por isso, torna-se premente a receptividade a estrangeiros. A má fama fere o bolso.

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