Família foge de repressão na Nicarágua e se junta a caravana para os EUA

Perseguidos pela ditadura Ortega, os Velasquez Gonzalez já percorreram mais de 1.000 km

A família Velasquez Gonzalez, com a bandeira da Nicarágua ao fundo, descansa na calçada da cidade de Huixtla, no México
A família Velasquez Gonzalez, com a bandeira da Nicarágua ao fundo, descansa na calçada da cidade de Huixtla, no México - Moises Castillo/Associated Press
Huixtla (México) | Associated Press

Entre os milhares de hondurenhos, salvadorenhos e guatemaltecos que participam da caravana de imigrantes da América Central que tenta chegar aos EUA, Lester Velasquez Gonzalez e sua família, sempre com uma bandeira da Nicarágua ao lado, chamam a atenção.

A caravana que começou no dia 13 em Honduras está atualmente na cidade de Huixtla, no sul do México, mas a trajetória da família Velasquez Gonzalez começou muito antes, em decorrência da repressão da ditadura de Daniel Ortega.

Em fuga da Nicarágua desde julho, Lester, 38, a mulher Idania Molina Rocha e os filhos Axel, 14, e Alexa, 9, passaram por três países até se encontrarem na Guatemala na última semana com a caravana que ruma em direção aos EUA —no total, já percorreram mais de 1.000 km na fuga. 

Nicaraguenses são uma exceção no grupo, formado basicamente por pessoas dos três países do Triângulo do Norte da América Central —Honduras (de onde vem a maioria), El Salvador e Guatemala—, região marcada pela violência da gangues. 

É exatamente essa violência a principal razão citada pelos próprios migrantes por terem entrado na caravana, em contraste com a família Velasquez Gonzalez, que diz ser alvo de perseguição política.

“Nós não podemos voltar para a Nicarágua, simplesmente não podemos, porque sabemos o que acontecerá conosco”, disse Lester à agência de notícias Associated Press em uma barraca improvisada em Huixtla, onde iriam passar a noite desta quinta (25). 

Tudo começou em 8 de julho, quando a família participou de um protesto contra o governo Ortega na cidade de Diriamba (40 km da capital, Manágua), onde moravam. Como virou rotina no país, a manifestação foi reprimida com violência pelas forças de segurança.

 “Eles vieram com armas pesadas, atiradores”, disse Axel, que lembra que os tiros o impediram de alcançar um amigo que foi atingido e sangrava pelo abdômen. “Eles mataram o meu melhor amigo, Josie Mojica, bem na minha frente”, conta ele.

Axel acabou sendo atingido por uma bomba de gás lacrimogêneo e o ferimento ainda é visível em seu fêmur. Por isso, anda com dificuldades e teve que usar muletas durante todo o trajeto da Nicarágua ao México.

A seu lado, sua irmã Alexa carrega sua boneca favorita, Sofia, e diz sonhar em brincar com a neve nos Estados Unidos.

Com a repressão, a família deixou Diriamba e passou 12 dias escondidas nas montanhas e depois seguiu para a capital Manágua, onde passou semanas pulando de um esconderijo para outro até conseguir sair e cruzar a fronteira com Honduras. De lá, eles seguiram para El Salvador e para a Guatemala, onde se encontraram com a caravana e decidiram entrar no grupo.

Assim como os outros 7.000 migrantes que estão na caravana, segundo números da ONU, os Velasquez Gonzalez pretendem pedir asilo aos EUA quando chegarem na fronteira, a 1.800 km de distância de Huixtla.

Embora o presidente americano Donald Trump tenha criticado a caravana e cogite proibir asilo para seus integrantes, a repressão do governo Ortega pode facilitar que os nicaraguenses recebam a concessão, já que Washington impôs sanções contra Manágua.

Por isso, Idania carrega documentos e imagens para tentar provar que a família sofre perseguição política, um dos motivos que justifica a concessão de asilo.

Ela tem reportagens que mostram a perseguição política na Nicarágua e imagens mostram pôsteres em postes de Diriamba que diz que os Velasquez Gonzalez são procurados vivos ou mortos.

Ela tem ainda uma foto que mostra uma construção cheia de buracos de balas e pichada com frases pró-Ortega, como “vida longa a Daniel” e “mete chumbo”. “É a nossa casa”, diz ela.

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Segundo os jornais The New York Times e The Washington Post, a medida seria inspirada no decreto anti-imigração lançado no ano passado contra países de maioria muçulmana, como Irã, Síria e Iêmen.

A ordem executiva também teria a mesma justificativa: considerar que os imigrantes são uma ameaça à segurança nacional. Membros do governo afirmaram às publicações que o decreto poderia ser anunciado nesta terça-feira (26), mas ponderaram que o presidente pode mudar de ideia.

Ao mesmo tempo, também lançaria uma medida para proibir a solicitação de asilo para aqueles que entrem ilegalmente no país. A única exceção neste caso seria para aqueles solicitantes que passaram por tortura em seus países. 

Hoje, as solicitações de asilo podem ser feitas tanto por quem ingressa nos postos de controle oficiais e em passagens clandestinas. Os candidatos têm que provar que estão sofrendo uma ameaça crível e podem ficar no país até a conclusão do processo.

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