Descrição de chapéu The Washington Post Governo Trump

Melania inicia viagem à África com políticas de Trump em xeque

As paradas da primeira-dama destacam programas da Usaid, cujo orçamento sofreu redução

Emily Heil Mary Jordan
The Washington Post

Melania Trump iniciou sua visita de uma semana à África em Acra, Gana. Ao aterrissar na manhã de terça-feira (2), a primeira-dama dos EUA foi recebida no aeroporto por Rebecca Akufo-Addo, a primeira-dama ganense, com um ramalhete de flores envolto em um tecido típico de gana conhecido como kente; depois assistiu a uma apresentação de dança e percussão.

De Gana, Melania viajará ao Malaui, ao Quênia e por fim ao Egito, um itinerário que coloca a primeira-dama, usualmente discreta, a meio mundo de distância de seu marido sequioso de manchetes —e a expõe aos olhos do planeta.

Ainda que a viagem da primeira-dama seja vista como gesto de boa vontade, alguns críticos de Donald Trump também a consideram como dissociada das políticas de seu marido.

As paradas de Melania servirão em geral para destacar programas da Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (Usaid), cujo orçamento o governo Trump busca cortar acentuadamente.

Mais tarde na semana, a primeira-dama também deve visitar uma área de conservação de elefantes e rinocerontes no Quênia, ainda que o governo Trump tenha afrouxado as regras quanto a caçadas e sobre a importação de presas de elefantes e outras partes de animais. Além disso, membros importantes do governo Trump tem a caça como hobby.

Ao ser recebida por dignatários em quatro países, Melania Trump deve praticar a espécie de "diplomacia branda" que é costume esperar das primeiras-damas. Ao contrário de suas predecessoras, Melania precisa lidar com a bagagem dos comentários depreciativos de seu marido sobre nações africanas, que renderam manchetes em todo o continente.

Mas Mark Green, administrador da Usaid, que está acompanhando a primeira-dama na visita a Gana, vê valor na viagem.

Ela serve para "simbolizar os valores e o engajamento americanos. Destaca e eleva o perfil dos programas americanos em ação". E ele diz que o foco de Melania Trump nas crianças a atraiu à região. "Ela tem interesse genuíno pelos jovens."

A média de idade da população africana, de mais de um bilhão de pessoas, é de apenas 19 anos.

Stephanie Grisham, a porta-voz da primeira-dama, disse que a viagem é coerente com a plataforma de Melania Trump e com as políticas do governo Trump, apontando que o presidente declarou que "os Estados Unidos são o maior doador mundial de assistência internacional".

"A África continua a ser prioridade para este governo e acredito que a viagem da primeira dama pelo continente demonstrará exatamente isso", ela disse.

Nos países que a primeira-dama planeja visitar, a viagem não despertou grande interesse, em parte porque os detalhes foram mantidos em sigilo rigoroso, exceto por alguns resmungos na mídia social sobre Melania Trump estar de visita para tirar selfies ao lado de crianças e animais.

Os ativistas da conservalção de espécies também estão discutindo a visita dela ao Quênia, especialmente porque Donald Trump Jr. e Eric Trump, filhos do presidente, são caçadores ávidos.

Uma fotografia de Trump Jr. segurando uma faca e a cauda de um elefante morto, depois de uma caçada no Zimbábue em 2011, ganharam circulação viral na mídia social.

"As políticas impostas pelos Estados Unidos têm impacto significativo sobre nossa capacidade de administrar a sustentabilidade de nossa fauna", disse Kaddy Sebunya, presidente da African Wildlife Foundation em Nairóbi.

"Esperamos que a visita da primeira-dama ilumine os enormes benefícios que a conservação traz para o nosso continente, povos e economias... [e] que resulte em uma reversão de alguns dos cortes de verbas para a conservação da biodiversidade."

Os objetivos de uma primeira-dama em uma viagem como essa são duplos, em geral, disse Myra Gutin, professora de comunicação na Universidade Rider que pesquisa sobre as primeiras-damas dos Estados Unidos. Elas destacam suas iniciativas —no caso de Melania, a campanha "Be Best", cujo objetivo é melhorar o bem-estar das crianças.

E há também a missão diplomática. Quanto a isso, a missão de Melania pode ser mais difícil que as de primeiras-damas anteriores.

A viagem de Melania estava planejada há muito tempo. "A ideia veio dela", disse Grisham. "Na verdade, ela sempre pensou na África para sua primeira grande viagem internacional. Ela quer se educar sobre cada país — história, cultura, desafios, sucessos."

O que Melania Trump espera realizar em sua primeira viagem solo ao exterior? Os objetivos não são completamente claros, disse J. Peter Pham, diretor do Africa Center, no Conselho Atlântico.

"Cabe a ela descrever quais são seus objetivos, e então poderemos avaliar se a visita foi um sucesso", disse Pham.

Na primeira etapa de sua viagem, Melania visitará um hospital administrado por ganeses que obteve sucesso na redução da mortalidade infantil.

O governo Trump desejava cortar drasticamente as verbas da Usaid para o continente, reduzindo-as em até 30% em seu projeto de orçamento.

Isso gerou alarme nos círculos humanitários, que temiam que o corte resultasse no fim de programas americanos de saúde e assistência ao desenvolvimento, e em redução nos esforços de combate à malária e à Aids. O Congresso votou por restaurar as verbas cortadas por Trump.

A Usaid, que trabalhou com a equipe da primeira-dama na organização da viagem, gastou mais de US$ 47 bilhões (R$ 190 bilhões) com programas de combate à Aids, malária e outras doenças, nos 10 últimos anos,

No Malaui, sua segunda parada, Melania Trump deve concentrar sua atenção nos esforços de alfabetização infantil.

Tradução de Paulo Migliacci

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