Descrição de chapéu The New York Times

Militares de Mianmar estão por trás de campanha no Facebook contra rohingyas

Ação coordenada usava perfis falsos para espalhar boatos sobre a minoria muçulmana

Paul Mozur
Naypyitaw (Mianmar)

Eles posavam como fãs de estrelas pop e heróis nacionais enquanto enchiam as páginas do Facebook com seu ódio. Um deles disse que o islamismo era uma ameaça global ao budismo. Outro compartilhou uma notícia falsa sobre o estupro de uma budista por um muçulmano.

As postagens não eram de usuários comuns da internet. Eram de militares de Mianmar que transformaram a rede social em uma ferramenta de limpeza étnica, segundo ex-oficiais, pesquisadores e autoridades civis do país.

Os militares de Mianmar foram os principais atores por trás de uma campanha sistemática no Facebook que começou há mais de uma década e que visava a minoria étnica rohingya, formado por muçulmanos, segundo essas pessoas.

Um policial de Mianmar em frente a um posto de segurança na cidade de Maungdaw
Um policial de Mianmar em frente a um posto de segurança na cidade de Maungdaw - Adam Dean - 26.jul.18/The New York Times

Os militares exploraram o amplo alcance do Facebook em Mianmar, onde é tão utilizado que muitos dos 18 milhões de usuários da internet no país confundem a plataforma de rede social com a própria internet.

Grupos de direitos humanos culpam a propaganda contra os rohingyas por incitar assassinatos, estupros e a maior migração humana forçada da história recente.

Enquanto o Facebook fechou as contas oficiais de importantes líderes militares em Mianmar em agosto, a extensão e os detalhes da campanha de propaganda —que se escondia atrás de nomes falsos e contas fraudulentas— passaram despercebidos.

A campanha, descrita por cinco pessoas que pediram para não ser identificadas porque temiam por sua segurança, incluiu centenas de militares que criaram contas falsas e páginas de notícias e celebridades no Facebook e então as inundaram com comentários incendiários e postagens com hora marcada para terem maior audiência.

Trabalhando em turnos em bases arranjadas nos morros próximos à capital, Naypyitaw, os oficiais também eram encarregados de coletar informações sobre contas populares e criticar postagens desfavoráveis aos militares, segundo essas pessoas. As operações eram tão sigilosas que todos, menos os líderes principais, tinham de entregar seus telefones na entrada.

O Facebook confirmou muitos detalhes sobre a sombria campanha conduzida por militares. O chefe de segurança cibernética da rede social, Nathaniel Gleicher, disse que encontrou "tentativas claras e deliberadas de disfarçadamente disseminar propaganda que era diretamente ligada aos militares de Mianmar".

Na segunda-feira (15), depois de perguntas do jornal The New York Times, a empresa disse que fechou diversas contas que supostamente eram dedicadas a entretenimento, mas na verdade estavam ligadas aos militares. Essas contas tinham 1,3 milhão de seguidores.

"Descobrimos que essas páginas aparentemente independentes de entretenimento, beleza e informações estavam ligadas aos militares de Mianmar", disse a companhia em um comunicado.

Os atos anteriormente não relatados de militares de Mianmar no Facebook estão entre os primeiros exemplos de um governo autoritário usando a rede social contra sua própria população.

É outra faceta das disruptivas campanhas de desinformação que se desenrolam no site. No passado, russos e iranianos apoiados pelo Estado espalharam pelo Facebook mensagens divisoras e inflamatórias contra pessoas de outros países. Nos EUA, grupos americanos adotaram agora táticas semelhantes nas eleições legislativas.

"Os militares extraíram muitos benefícios do Facebook", disse Thet Swe Win, fundador da Synergy, grupo que se concentra em promover a harmonia social em Mianmar. "Eu não diria que o Facebook está diretamente envolvido na limpeza étnica, mas há uma responsabilidade de que eles tinham de tomar as medidas adequadas para evitar ser um instigador do genocídio."

Em agosto, após meses de relatos sobre propaganda anti-rohingyas no Facebook, a companhia admitiu que demorou para agir em Mianmar. Então, mais de 700 mil rohingyas tinham fugido do país em um ano, no que autoridades da ONU chamaram de "um exemplo elementar de limpeza étnica". A empresa também disse que está reforçando as iniciativas para conter tais abusos.

"Tomamos medidas significativas para remover esse abuso e dificultar para o Facebook", disse Gleicher. "Investigações sobre esse tipo de atividade estão em andamento."

O comitê de informação sobre os militares de Mianmar não respondeu a diversos pedidos de comentários.

A operação dos militares de Mianmar no Facebook começou vários anos atrás, segundo pessoas inteiradas de seu funcionamento. Os militares aplicaram muitos recursos na tarefa, segundo informações, com até 700 pessoas trabalhando nisso.

Eles começaram montando o que pareciam ser páginas de notícias e páginas do Facebook dedicadas a estrelas pop, modelos e outras celebridades birmanesas, como uma miss que gostava de repetir propaganda militar.

Depois cuidavam das páginas para atrair grande número de seguidores, disseram as pessoas. Eles tinham uma página no Facebook dedicada a um atirador militar, Ohn Maung, que ganhou fama nacional após ser ferido em batalha. Eles também tinham um blog popular chamado Olhos Opostos que não tinha ligação externa com os militares, disseram as pessoas.

Campo de refugiados rohingya em Thang Khali, Bangladesh
Campo de refugiados rohingya em Thang Khali, Bangladesh - Adam Dean - 7.set.17/The New York Times

Esses se tornaram canais de distribuição para fotos obscenas, notícias falsas e postagens inflamatórias, muitas vezes visando os muçulmanos de Mianmar, segundo as pessoas. Contas falsas dirigidas pelos militares disseminavam conteúdo, calavam os críticos e alimentavam discussões entre comentaristas para instigar as pessoas. Muitas vezes elas postavam fotos falsificadas de cadáveres que diziam ser prova de massacres cometidos pelos rohingyas, segundo uma das pessoas.

Pegadas digitais mostravam que uma das principais fontes de conteúdo do Facebook vinham de áreas ao redor de Naypyitaw, onde os militares têm instalações, disseram algumas das pessoas.

Uma das campanhas mais perigosas ocorreu em 2017, quando o ramo de inteligência militar espalhou boatos no Facebook para grupos muçulmanos e budistas que um ataque do outro lado era iminente, disseram duas pessoas.

Usando o aniversário do 11 de setembro de 2001, ela espalhou avisos no Facebook Messenger através de contas de grande repercussão disfarçadas de páginas de notícias e celebridades de que "ataques da jihad" seriam efetuados. Para grupos muçulmanos, enviou uma mensagem de que os monges budistas nacionalistas estavam organizando protestos antimuçulmanos.

O objetivo da campanha, que deixou o país de prontidão, era gerar sentimentos generalizados de vulnerabilidade e medo que só poderiam ser solucionados com a proteção dos militares, disseram pesquisadores que acompanharam a tática.

O Facebook disse que encontrou evidências de que as mensagens eram intencionalmente disseminadas por contas inverídicas e fechou algumas na época do incidente. A empresa não investigou qualquer ligação com os militares naquela altura.

Os militares usaram sua rica história de guerra psicológica que desenvolveram durante as décadas em que Mianmar foi controlado por uma junta militar, que entregou o poder em 2011.

O objetivo então era desacreditar as transmissões de rádio da BBC e da Voz da América. Um veterano daquela época disse que aulas sobre guerra psicológica avançada de 15 anos atrás ensinavam uma regra de ouro das falsas notícias: se um quarto do conteúdo for verdadeiro, ajuda a tornar o restante verossímil.

Alguns militares utilizaram técnicas da Rússia. Três pessoas que conheciam a situação disseram que alguns oficiais estudaram guerra psicológica, invasão de computadores e outras técnicas na Rússia. Alguns davam aulas para transmitir a informação quando voltavam, disse uma dessas pessoas.

A ligação dos militares birmaneses com a Rússia já existe há décadas, mas se intensificou nos anos 2000, quando o governo de Mianmar passou a enviar oficiais para estudar e pesquisar no país.

Estes soldados enviados a Rússia treinavam abrindo blogs e debatendo com exilados birmaneses que viviam em outros países, por exemplo.

The New York Times

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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