Nova fase de repressão na Nicarágua tem como alvo a imprensa, diz OEA

Jornalistas relatam rotina de ameaças, agressões e roubo de equipamentos durante coberturas

Flávia Mantovani
São Paulo

A Nicarágua vive uma nova fase de repressão por parte da ditadura de Daniel Ortega na qual o alvo é a imprensa, afirma a CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos), órgão ligado à OEA (Organização dos Estados Americanos).

A deportação de um repórter austríaco-americano na última segunda (1º) foi o último capítulo de uma rotina de intimidações não só a profissionais estrangeiros, mas também a jornalistas locais.

Profissionais de mídia denunciaram à CIDH constantes ameaças de morte, agressões físicas durante as coberturas, apreensão de equipamentos e perseguição por paramilitares. Alguns tiveram que sair do país. Também há relatos de sites de notícias hackeados e censura do governo a canais de televisão e de rádio.  

No fim de abril, um jornalista morreu atingido por um tiro enquanto cobria um protesto no país, que vive uma onda de manifestações pela saída do ditador Ortega. Transmitido ao vivo pelo Facebook, o episódio tornou-se um dos símbolos da violência contra manifestantes, que já deixou mais de 300 mortos, incluindo uma brasileira

Manifestantes durante protesto contra o ditador Daniel Ortega na Nicarágua
Manifestantes durante protesto contra o ditador Daniel Ortega na Nicarágua - Inti Ocon/AFP

“Me preocupa muito que estejamos chegando a uma quarta etapa de repressão dirigida a comunicadores”, disse Joel Hernandez, relator da CIDH, em uma audiência dedicada à Nicarágua no dia 2 de outubro no Colorado, EUA.

Classificar a repressão em etapas ajuda a criar uma narrativa para interpretar os acontecimentos, diz a CIDH.

Segundo a comissão, a primeira fase foi a repressão direta a manifestantes. Em seguida veio a “operação limpeza”, quando policiais e paramilitares saíram às ruas para desmontar barricadas e acabaram efetuando ataques, sequestros e prisões arbitrárias.

Em terceiro lugar, diz a CIDH, veio a perseguição judicial a ativistas, enquadrados em uma lei antiterrorismo aprovada às pressas.

Nesta quarta etapa, está se consolidando um padrão de deportação de jornalistas estrangeiros, diz Edison Lanza, relator para a liberdade de expressão da CIDH. Em agosto, uma documentarista brasileira foi detida e expulsa do país.

Lanza detalha algumas ameaças sofridas pela imprensa recentemente. “Houve incêndio de instalações de rádio, ordens de censura da autoridade de telecomunicações do governo, agressões a jornalistas e destruição de seu material de trabalho”, disse à Folha.

Segundo ele, jornalistas denunciaram que estão sendo seguidos por paramilitares ligados a Ortega. Vários pediram medidas protetivas e alguns tiveram que sair de casa.

Lanza relata o caso “impressionante” do gerente da TV de maior audiência do país, que se refugiou na Embaixada de Honduras após sofrer represálias por não aceitar a intervenção de um censor na programação do canal.

O relator também destaca que o governo já vinha, há algum tempo, exercendo controle direto de canais de TV e rádio. “Os filhos do presidente são donos de quatro meios de comunicação, e o país tem poucos meios independentes”, afirma.

Segundo o jornalista nicaraguense Alfonso Malespin, 58, o regime recorre à lei de telecomunicações para fechar canais independentes. “A lei não regula conteúdo, só aspectos técnicos. Mas eles inventam argumentos técnicos”, conta.

Malespin diz que o cerceamento à liberdade de imprensa vem desde o início do mandato de Ortega, em 2007, mas agora está “muito mais frequente”. “Começaram impedindo o credenciamento de alguns jornalistas em atividades oficiais. Depois vieram desqualificações, espancamentos, roubos de equipamentos, ameaças às famílias”, conta.

Ele diz que é difícil, para um repórter estrangeiro, conseguir autorização para entrar no país. “A maioria entra como turista e isso se torna um argumento para expulsá-los.”

Alguns jornalistas nicaraguenses trabalham na clandestinidade, sem assinar as reportagens. É o caso de um profissional que está no exílio e deu entrevista sob a condição de anonimato.

Ele cobria os protestos para a mídia estrangeira e um dia viu sua foto, endereço e telefone estampados nas redes sociais, qualificado como “terrorista midiático”.

Precisou sair de casa por medo de represálias. Passou três meses em um quarto na residência de conhecidos, sem sair. Mal dormia, não conseguia comer e por isso teve problemas de saúde. “Envelheci cinco anos nesses cinco meses”, diz ele, que não divulga seu paradeiro e dobrou a segurança de suas redes sociais.

O repórter afirma que conhece ao menos 20 jornalistas que estão no exílio. De um deles, ouviu: “Você vai descobrir, saindo da Nicarágua, seu primeiro sono de verdade em muito tempo”. “E foi assim mesmo. A sensação de estar em um lugar seguro é outra. Dormi quatro dias sem parar quando cheguei.”

Apresentador de um programa na TV nicaraguense, Luis Galeano, 40, recebe todos os dias ameaças por telefone e redes sociais. “Sou chamado de terrorista, dizem que irei preso, que terei um ‘final trágico e sangrento’”, conta.

Ele afirma que tem notado um aumento das ameaças a jornalistas independentes. “As campanhas de desprestígio estão mais fortes.” 

Mas Galeano diz que não pensa se deixar intimidar. “Temos claro o compromisso de fazer jornalismo. Não se trata de tomar partido, mas de dizer a verdade.”

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