Papa Francisco celebra missa de canonização de Paulo 6º e Óscar Romero

Contestados dentro da igreja nas décadas passadas se tornam santos com outros cinco religiosos

Retrato de Óscar Romero e Paulo VI que foram canonizados pelo papa Francisco neste domingo (14)
Retrato de Óscar Romero e Paulo VI que foram canonizados pelo papa Francisco neste domingo (14) - Alessandro Bianch/Reuters
AFP e Reuters

O papa Francisco canonizou neste domingo (14) seu antecessor Paulo 6º (1897-1978) e dom Óscar Romero (1917-80), arcebispo salvadorenho que combateu injustiças sociais e denunciou assassinatos durante a guerra civil em seu país.

Em missa na praça de São Pedro, Vaticano, Paulo 6º, que comandou a Igreja Católica nos anos 60 e 70 e foi opositor de métodos contraceptivos, e Óscar Romero, assassinado quando rezava uma missa em San Salvador após ter denunciado violências de militares e paramilitares.

O papa Francisco acena após a missa de canonização do papa Paulo 6º e do arcebispo de El Salvador Óscar Romero
O papa Francisco acena após a missa de canonização do papa Paulo 6º e do arcebispo de El Salvador Óscar Romero - Alessandro Bianchi /Reuters

O conflito civil matou 75 mil pessoas e deixou 8.000 desaparecidos em El Salvador.

“Declaramos e consideramos santos Paulo 6º e Óscar Arnulfo Romero Galdámez”, disse em latim o papa.
Paulo 6º é o terceiro antecessor que o pontífice argentino canoniza desde 2013. Antes dele, Francisco tinha tornado santos João 23, que morreu em 1963, e João Paulo 2º, que morreu em 2005.

Tanto Romero quanto Paulo 6º, que guiou a Igreja até a conclusão do modernizante Concílio Vaticano 2 de 1962 a 1965, foram figuras célebres dentro e fora da Igreja.

Cerca de 5.000 peregrinos salvadorenhos viajaram a Roma para a cerimônia, e dezenas de milhares de pessoas passaram a noite do lado de fora da catedral de San Salvador, onde os restos mortais de Romero estão sepultados, para assistir à missa. 

A morte de Romero comoveu El Salvador, e sua imagem só não foi mais divulgada devido à forte oposição no Vaticano e entre conservadores da Igreja na América Latina, para os quais sua defesa contra injustiças sociais e sua aproximação com Teologia da Libertação podiam levar à disseminação do ideário marxista em plena Guerra Fria.

Sua santificação também é simbólica no momento em que El Salvador está mergulhado na violência de gangues e tem um dos mais altos índices de homicídio do mundo (60,1 por 100 mil habitantes em 2017, o dobro do Brasil).

“Seu martírio continuou [mesmo depois de sua morte]. Ele foi difamado, caluniado... até mesmo por seus próprios irmãos no sacerdócio e no episcopado”, disse Francisco em 2015. “Ele foi atingido pela pedra mais dura que existe em o mundo: a língua.”

O papa já havia buscado redimir a figura do arcebispo salvadorenho em 2015, quando o beatificou.

O papa Francisco, após a missa de canonização de Paulo 6º, Óscar Romero e outros cinco religiosos
O papa Francisco, após a missa de canonização de Paulo 6º, Óscar Romero e outros cinco religiosos - Alessandro Bianchi/Reuters

O próprio Francisco é considerado simpático às ideias da Teologia da Libertação, que inclui a crítica às causas estruturais da pobreza e o pedido para que a Igreja e os pobres busquem mudanças sociais —o que provocou uma reação conservadora logo após seu surgimento, em 1968.

Já Paulo 6º, apesar de sua veemente oposição a métodos contraceptivos, também desagradou à parte mais conservadora da Igreja Católica por se aproximar de outras religiões, em especial dos judeus.

Nascido João Batista Montini em Concesio, Itália, foi ele o primeiro papa em tempos modernos a viajar para fora da Itália para ver os fiéis, introduzindo uma prática que se tornou sinônimo do papado, e que permitiu que a missa fosse celebrada na língua local e não mais só em latim.

Paulo 6º, que ficou mais conhecido pela encíclica Humane Vitae (1968), em que a Igreja se opõe ao controle de natalidade, foi eleito papa em 1963 e se manteve no cargo até a morte, em 1978.

Francisco também canonizou cinco religiosos europeus. 

São eles os padres italianos Francisco Spinelli (1853-1913) e Vicente Romano (1751-1831), além do jovem religioso italiano Nuncio Sulprizio (1817-36); a alemã María Catalina Kasper (1820-98), cuja obra atendeu de rincões na Europa à Índia, e a freira espanhola Nazaria Ignacia de Santa Teresa de Jesús (1889-1943), que atuou na Bolívia e na Argentina.

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