Preso político egípcio retrata período na cadeia com pinturas e desenhos

Nas imagens, Yassin Mohammed mostra superlotação das celas de pessoas detidas por se opor a regime

Hamza Hendawi
Cairo | Associated Press

Nas gravuras e pinturas de Yassin Mohammed, ele e outros presidiários egípcios estão amontoados dentro de celas minúsculas, com os pés nos rostos dos outros e seus poucos pertences pendurados nas paredes.

As cenas de aperto, definidas por barras e portas de celas fechadas, capturam a realidade claustrofóbica das cadeias egípcias, onde dezenas de milhares de pessoas estão presas, eventualmente por meses ou anos sem condenação definitiva, devido à maior repressão à oposição na história recente do país.

“Um dia toda essa dor vai embora”, declara um dos desenhos em aquarela.

Mohammed, que foi libertado no mês passado após cumprir uma condenação de dois anos de prisão por ir a uma manifestação, transformou em crônica o cotidiano do pavilhão onde estava em dezenas de gravuras e pinturas, oferecendo um olhar raro e íntimo de dentro do sistema prisional egípcio.

Ele tem vivido entre estar ou não na cadeia desde 2013, quando um golpe militar derrubou Mohammed Mursi, um presidente eleito democraticamente, mas com uma polarizante vertente islamita. 

Desde então, dezenas de islamitas foram presos, da mesma forma que outros seculares e ativistas pró-democracia, muitos dos quais tiveram papel preponderante na revolta de 2011 que derrubou o ex-ditador Hosni Mubarak.

Sob o comando de Abdel Fattah al-Sisi, que liderou o golpe de 2013, as autoridades veem até o dissenso moderado como ameaça. Protestos foram proibidos, centenas de sites foram bloqueados e leis vagas criminalizam a divulgação do que elas consideram notícias falsas.

Na maior parte dos dois anos em que esteve preso, Mohammed dividiu uma cela de 90 m² com outros 30 detentos, incluindo islamistas, extremistas islâmicos, liberais de esquerda e, afirma, pessoas que estavam no lugar errado na hora errada.

Grupos de direitos humanos afirmam que o maltrato a presos políticos é disseminado no Egito, mas Mohammed disse não ter sido vítima de abuso físico que não ser empurrado ou levar tapas de guardas. Ele disse que a real tormenta veio do tédio sem fim e da total falta de privacidade.

Sua única válvula de escape era a arte.

Ele dava um jeito de pintar em um canto da cela em que os guardas não pudessem vê-lo. Temendo que os guardas pudessem destruir as peças se as encontrassem, ele começou a mandá-las clandestinamente para fora.

Um dos desenhos que o colocaram em problemas foi uma caricatura de Sissi, que os guardas apreenderam em uma revista surpresa a sua cela. Os carcereiros decidiram não denunciá-lo, mas mandaram para solitária, punição leve para um homem que ansiava tanto por privacidade que passava o tempo no banheiro só para evitar a presença dos outros presos.

Um autorretrato feito inspirado nessa experiência mostra-o sentado no canto de uma cela cinza e preta, engolido pela resignação enquanto um pequeno raio de sol entra pela janela gradeada.

Outros mostram raros sinais de normalidade e até beleza. O desenho de um banheiro de prisão —incluindo baldes usados pelos presos para estocar água diante das frequentes faltas— tem símbolos na parede: “Por favor, deixe o banheiro assim como você gostaria que estivesse.”

Um buquê de flores de cores vivas está pendurado —um presente de aniversário de casamento da mulher de um dos detentos. Em outra, caixas de papelão que viraram vasos estão pendurados nas barras de ferro do corredor.

Mohammed afirma que os detentos guardaram as caixas de papelão que suas famílias usavam para trazer comida e juntaram terra dos sacos de batata que eles conseguem na cozinha. “Plantas e flores são como vida no meio da morte.”

Enquanto preso, ele conseguia de vez enquanto um celular para se comunicar com amigos próximos nas redes sociais. Nas mensagens, que pede a amigos para não compartilharem por medo de represálias, ele descreve sua rotina e faz reclamações, e a claustrofobia que ele retrata nas pinturas.

“Deus, eu rezo para o senhor todos os dias quando o sinal de orações do amanhecer toca para que o senhor liberte todos estes detidos de forma injusta ou que amenize seu sofrimento, ou que me faça encontrar com Tom Hanks.”

Desde que foi solto, em 20 de setembro, dias antes de seu aniversário de 24 anos, ele saiu por Cairo recolhendo os trabalhos que ele mandou para fora. 

Ele fará uma exposição de 50 deles, mas as poucas galerias de arte que ainda existem no Egito dificilmente mostrariam seu trabalho por temor de represálias. Em vez disso, ele planeja expô-las em seu apartamento no centro do Cairo.

“Não quero voltar para a prisão. Não precisa de muito para isso hoje”, disse. “Então vou ouvir, ver e observar em silêncio e quando eu sentir a necessidade de expressar uma opinião política, vou falar sozinho comigo dentro do meu quarto.”

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