Descrição de chapéu Venezuela

Sarampo se alastra entre os ianomâmis na Venezuela e mata 72

Apenas em agosto e setembro foram confirmadas 19 mortes em comunidade de 16 mil

Fabiano Maisonnave
Manaus

Fora de controle, o surto de sarampo na fronteira entre a Venezuela e o Brasil já matou 73 ianomâmis neste ano, segundo números oficiais de ambos os países. Desses, apenas um caso foi registrado em território brasileiro.

Do lado venezuelano, onde vivem cerca de 16 mil ianomâmis, foram confirmadas 19 mortes de ianomâmis apenas entre agosto e setembro, segundo boletim epidemiológico da Organização Panamericana de Saúde (Opas), que se baseia em informações repassadas pelo governo venezuelano.

Duas mulheres indígenas seguram bebês com tecidos vermelhos presos aos corpos, ao lado de duas crianças menores, vistas sem foco, diante de duas ocas na flores a meio plano.
Mulheres e crianças ianomâmis na aldeia Irotatheri, na Venezuela, perto da fronteira com o Brasil - Ariana Cubillos-7.set.12/Associated Press

Dois especialistas venezuelanos ouvidos pela Folha temem que o número de casos e de mortos seja ainda maior.

“De acordo com a informação que recebemos diretamente de agentes comunitários de saúde ianomâmis, a situação atual parece indicar que os casos estão aumentando, que o surto se expandiu a outros setores e comunidades e que há um número maior de mortos pela doença”, diz Luis Bello, da Associação Wataniba, que promove direitos indígenas.

Bello afirma que o governo venezuelano tem dificuldades logísticas e de apoio aéreo para o combate ao sarampo. “Nossa organização é as organizações indígenas têm insistido na necessidade de continuar acompanhando a epidemia, ser mais efetivo com as vacinações e ampliar o alcance dos operativos de saúde."

“A única informação que temos é a publicada por meio da Opas uma vez ao mês, no melhor dos casos”, afirma Julio Castro, professor do Instituto de Medicina Tropical da Universidade Central da Venezuela (UCV), a mais importante do país. 

“Mas os médicos que estão nos hospitais nos dizem que os serviços de epidemiologia são lentos para classificar os casos. Ou seja, há uma burocracia relacionada e uma evolução natural sem que o governo tenha controle em nível nacional."

Segundo ele, a epidemia na Venezuela mostra que a cobertura vacinal no país governado por Nicolás Maduro teve uma queda vertiginosa há pelo menos uma década. “O fato de que o grosso dos casos está entre pessoas de 10 a 12 anos revela que elas não foram vacinadas quando tinham 1 ou 2 anos.”

Relatório do Ministério da Saúde venezuelano indica que o último surto de sarampo entre os ianomâmis ocorreu em 1968, com uma taxa de mortalidade de até 17,1% entre os doentes de comunidades infectadas.

Nos dois lados, os ianomâmis ocupam uma área de 192 mil km2, pouco menor do que o estado do Paraná.

No lado brasileiro, onde moram cerca de 27 mil ianomâmis, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) conseguiu, até agora, conter o avanço do sarampo, principalmente por meio de campanhas de vacinação.

Até julho, a Sesai havia registrado 74 casos confirmados, incluindo um morto, e nove suspeitos. Desses casos confirmados, 66 são de ianomâmis com nacionalidade venezuelana. 

“A Sesai intensificou a ação na fronteira e conseguiu criar um cinturão. Os ianônamis do lado brasileiro se sentem seguros, é uma feliz realidade”, afirma Marcos Wesley de Oliveira, coordenador em Roraima da ONG ISA (Instituto Socioambiental).

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