Acordo para o 'brexit' passa em primeiro teste político com aprovação por gabinete de May

Líder britânica vai ao Parlamento na quinta defender termos acertados com UE

Theresa May se prepara para fazer declaração sobre o "brexit" em frente a Downing Street, em Londres - Henry Nicholls/Reuters
Lucas Neves
Paris

Os principais integrantes do gabinete da primeira-ministra britânica, Theresa May, deram sinal verde nesta quarta-feira (14) para o acordo sobre o “brexit” (saída do Reino Unido da União Europeia) fechado na véspera por negociadores britânicos e europeus.

“Acredito fortemente, com minha cabeça e meu coração, que ele [o acerto] atende da melhor maneira aos interesses do Reino Unido como um todo”, disse a chefe de governo, ao fim de uma reunião de cinco horas em Downing Street, em Londres.

“A escolha diante de nós é clara. [Ou] Esse acordo, que responde ao voto majoritário no plebiscito [de junho de 2016] e nos devolve o controle de nossa moeda, de nossas leis e fronteiras, põe fim à livre circulação, protege empregos, segurança e nossa união como reino, ou uma saída sem acordo, ou nem sequer um ‘brexit’”, completou.    

​May afirmou que irá ao Parlamento na quinta-feira (15) para apresentar e defender os termos do texto e observou que o endosso de seus ministros não foi alcançado facilmente –não está claro se ele foi unânime.

Durante toda a quarta, a imprensa britânica especulou sobre nomes do gabinete que poderiam renunciar por discordar do teor do documento redigido em Bruxelas, mas não houve deserções nem antes, nem durante o longo encontro.

O último a deixar o governo foi o secretário de Transporte, Jo Johnson, que, na última sexta (9), disse que May se preparava a oferecer ao Parlamento britânico uma escolha “entre a vassalagem e o caos”.

Também circulou nos principais veículos da Inglaterra a informação de que correligionários da líder conservadora insatisfeitos com as cláusulas que estavam sendo noticiadas (o texto, de 585 páginas, só foi divulgado após o pronunciamento) estavam articulando um voto de desconfiança em May no Parlamento.

Pelo regulamento dos Tories (conservadores britânicos), 48 membros do Legislativo precisam redigir cartas colocando em questão a liderança do partido para que uma sessão seja convocada com o fim de apreciar a demanda.

A principal causa da contrariedade (e também o item que vinha bloqueando as negociações havia meses) é o chamado “backstop”.

Trata-se da garantia exigida pela República da Irlanda (integrante da União Europeia) de que, caso as partes não chegassem a um acordo sobre sua futura relação comercial até dezembro de 2020 (fim do chamado período de transição), não voltaria a existir um controle rígido de mercadorias e pessoas na fronteira entre as Irlandas –Dublin temia que a “fronteira dura” fizesse ressurgir tensões nacionalistas acalmadas há 20 anos.

A União Europeia sugeriu então que, não havendo acerto entre Bruxelas e Londres a tempo, a Irlanda do Norte ficasse no mercado comum continental provisoriamente. Belfast estrilou, dizendo que não aceitaria tratamento distinto daquele reservado ao restante do Reino Unido.

Londres viu na ideia uma ameaça à soberania e à coesão britânicas. Fez a contraproposta de uma união aduaneira temporária entre a Europa e os quatro países que integram o Reino Unido: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.

Ainda assim, algum tipo de checagem alfandegária seria necessária no mar que separa Grã-Bretanha e Irlandas, cenário a que Belfast resistia por achar que denotava status distinto.

Quando os primeiros detalhes do acordo foram divulgados pela imprensa britânica, líderes do Partido Unionista Democrático, legenda norte-irlandesa que dá sustentação ao governo May, subiram o tom das críticas. “Sejamos claros: não vamos votar [aprovar] essa humilhação!”, escreveu em rede social Sammy Wilson.

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