Artista descobre fotos de soldados nazistas vestidos de mulher na Segunda Guerra

Nazistas toleravam travestismo como forma de escape na guerra, diz artista

Soldados alemães vestidos de mulher, parte do livro "Soldier Studies Cross-Dressing in der Wehrmacht", sobre soldados alemães da Segunda Guerra que se vestiam de mulher (Editora Martin Dammann)
Soldado nazista alemão vestido de mulher durante a Segunda Guerra, um dos retratos resgatados no livro "Soldier Studies Cross-Dressing in der Wehrmacht" - Divulgação
Anna Virginia Balloussier
São Paulo

O regime nazista matou milhares de gays. Promoveu experimentos alegadamente científicos para tentar a “cura gay”. Até correligionários abertamente homossexuais de Adolf Hitler foram eliminados após sua ascensão.

Já homens que se vestiam de mulher, os crossdressers, não eram tão exceção assim no nazismo.

Colecionador de fotografias de guerra, o artista berlinense Martin Dammann encontrou centenas de fotos de soldados do Terceiro Reich com vestidos, saias, lingerie e bijuteria, muitos deles abraçados com colegas de farda. 

É um tipo loiro de top e saião que parece improvisado com uma toalha de mesa branca, admirado por colegas, que estampa a capa de seu livro “Soldier Studies” (ed. Hatje Cantz, 2018, 128 págs., € 28 ou R$ 122).

Como explicar que, sob um sistema que oprimia de tal forma a sexualidade alemã, cenas como essa fossem toleráveis no seio das Forças Armadas? Há um potencial álibi para alguns dos retratos, segundo Dammann: foram tirados no Carnaval.

Mas só isso não basta para justificar o travestismo, já que parte dos registros se deu em outros contextos.“Não acho que haja uma só explicação, pois não há uma motivação única para os casos retratados no livro, nem uma única orientação sexual”, diz o artista à Folha. “Está mais para um amálgama de muitos desejos e necessidades.”

É verdade que, na coleção de Dammann, há também fotografias de soldados americanos e britânicos, nas duas Guerras Mundiais, com roupas femininas. “Tem até evidências de crossdressers desde as guerras napoleônicas.” Mas, até onde ele pode averiguar, eram mais frequentes em tropas de Hitler.

Para o colecionador, oficiais superiores tinham bons motivos para fazer vista grossa para o hábito. “É preciso distinguir entre a ideologia nazista, que era  homofóbica, e a lógica de líderes militares, que precisavam do maior número possível de soldados na melhor forma física e mental possível”, afirma.

“Assim, os militares tinham interesse em todos os tipos de diversões, e o crossdressing era frequentemente, embora nem sempre, tolerado como um desses entretenimentos.” 

Fora que, em grupos que lutavam próximos ao fronte, a maioria dos que aparecerem na obra de Dammann, “o controle das autoridades era de qualquer jeito limitado”. Mais fácil, pois, era para um recruta fazer o que bem entendesse sem o risco de represálias.

Suspeitas sobre uma possível homossexualidade de Hitler, latente ou ativa, o acompanharam por anos e aparecem em várias de suas biografias. Na comédia “Primavera para Hitler”, de 1968, Mel Brooks faz dessa desconfiança sobre a orientação sexual do Führer uma piada, retratando-o como um tipo afeminado e histérico (“Keep It Gay” é uma das músicas na trilha).

Em “O Segredo de Hitler” (2001), o historiador alemão Lothar Machtan afirma que parte das políticas homofóbicas do Führer —como as “listas rosas” que a Gestapo mantinha para perseguir gays— era movida por seu temor de que questões sobre a própria sexualidade fossem reveladas. 

Hitler, segundo Machtan, “se sentiu muito vulnerável devido a esse passado e sempre tentou escondê-lo”.Daí a execução, em 1934, do aliado de longa data Ernest Röhm.

Chefe de uma tropa paramilitar do nazismo, ele era um gay avesso a armários. Há menções a orgias pouco discretas que promoveu, que “despertaram tempestades de protestos dentro do próprio movimento nazista”, de acordo com um livro de 1939, “Hitler is No Fool” (Hitler não é nenhum bobo), de Karl Billinger, um opositor que passou meses num campo de concentração antes de ir para os EUA.

Estima-se que o acossamento de homossexuais na Alemanha sob jugo do Terceiro Reich vitimou 10 mil pessoas. Há desdobramentos perversos dessa política homofóbica, como um médico nazista da Dinamarca, Carl Værnet, que conduziu experimentos médicos em prisioneiros de campos de concentração. A intenção era “curá-los” da homossexualidade.

Ele teve autorização de Heinrich Himmler, um dos oficiais mais graduados do nazismo, que já se referiu ao gosto por pessoas do mesmo sexo como “uma infecção” e pedia “a exterminação dessa existência anormal”.

Værnet chegou a injetar hormônios artificiais na virilha de alguns detentos. Com o tratamento, ao menos dois homens morreram de infecção. 

Para Dammann, as fotografias de soldados muitas vezes há anos longe de casa, talvez sedentos por uma “fuga temporária”, escancaram um “sentimentalismo” pouco associado à imagem carrancuda do nazismo.

O que mais lhe impressionou foi a “ausência de qualquer sinal de alienação entre as várias orientações sexuais nos retratos”.

E também que, “mesmo uma sociedade que enfatizava a masculinidade heroica” encontrou suas maneiras “de expressar um lado diferente”.   
 

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