Atentados terroristas atingem mais países e combate é ineficaz, diz estudo

Gastos antiterrorismo não focam prevenção e pouco adiantam contra os ataques

Wasiran, em Java, na Indonésia; ele estava sob risco de ser recrutado por um grupo violento - Andreas Vingaard/Orb Media
Jim Rendon

Joko Tri Harmanto ajudou a construir uma bomba que matou 202 pessoas em Bali, na Indonésia, em 2002. Hoje ele está correndo para atender clientes que tomam café da manhã em um restaurante que ele abriu com um amigo. 

Ao invés de conspirar para matar, Harmanto está tentando impedir que seu amigo Wasiran siga o caminho da violência, orientando-o e mantendo-o empregado. “Eu o peguei para ele não se meter nisso”, diz Harmanto. 

O fato de que Wasiran é potencialmente vulnerável à violência política não é anormal. Reportagem e análise de dados da Orb Media mostram que a aceitação da violência contra civis está aumentando.


Ao mesmo tempo, mais países estão sofrendo violência terrorista, como atentados e ataques a delegacias de polícia que mataram 21 pessoas na Indonésia em maio.

Novos estudos indicam que, mais do que a ideologia, são as relações sociais que ajudam a atrair pessoas para grupos terroristas —e podem ajudar a mantê-las afastadas.

No entanto, iniciativas globais para combater o terrorismo ignoram pesquisas e programas de prevenção, deixando subutilizada uma ferramenta potencialmente poderosa contra o recrutamento.

De acordo com relatório recente do Centro Stimson, um think tank de Washington, o governo dos Estados Unidos, o país que mais gasta no combate ao terrorismo, desembolsou US$ 2,8 trilhões contra o terrorismo entre 2002 e 2016.

Desse total, apenas US$ 11 bilhões —metade de 1% do total— foi gasto em ajuda externa contra o terrorismo fora das zonas de guerra e apenas uma pequena parte desses fundos foi para prevenção.

“Não há evidências de que nada disso reduza a ameaça terrorista a longo prazo”, diz Eric Rosand, pesquisador da Instituição Brookings, sobre a abordagem militarizada. 

Segundo ele, ataques de drones e outros esforços militares podem radicalizar a população, levando a um recrutamento ainda maior. “Não estamos fazendo o suficiente em prevenção”, diz ele.

O assistente social David Aufsess, da organização de prevenção ao terrorismo Vaja, em Bremen, na Alemanha - Christoph Kube/Orb Media


Análise da Orb Media constatou que, apesar dos países gastarem trilhões lutando contra o terrorismo, uma porcentagem crescente de pessoas em todo o mundo considera completamente aceitável que grupos não-estatais usem a violência contra civis.

Embora os especialistas não estabeleçam uma linha direta entre essas atitudes e o recrutamento de terroristas, Clark McCauley, professor emérito de psicologia do Bryn Mawr College, diz que parte do número crescente de pessoas que afirma considerar aceitável esse tipo de violência pode estar mais disposta a se juntar a grupos terroristas.

Sentado fora da casa onde mora com sua esposa e seis filhos em uma rua estreita repleta de casinhas em Solo, Java Central, Harmanto diz que foi recrutado para uma rede de terror por meninos mais velhos em um grupo de estudo extremista do Alcorão.

“Como eu tenho amigos da linha dura do Islã, fui influenciado dessa maneira”, diz Harmanto. E mais tarde, foi seu relacionamento com sua mãe e família que o ajudou a rejeitar a violência.

Esses relacionamentos podem estar entre os fatores mais importantes para determinar quem se junta a esses grupos e quem fica de fora, diz Julie Chernov Hwang, professora de ciências políticas e relações internacionais no Goucher College, em Maryland. Ela passou seis anos entrevistando 55 ex-terroristas e terroristas na Indonésia.

“As pessoas podem se juntar a um grupo porque seu melhor amigo ou irmão mais velho está nele”, diz Chernov Hwang. A ideologia é menos importante que a lealdade. “Eles se juntam porque gostam do sentimento de irmandade”, diz ela.

Esra Basha, gerente de projeto da Al-Etidal, em Bremen, na Alemanha - Christoph Kube/Orb Media


Não existe uma definição de terrorismo mundialmente aceita, e o termo pode ser usado para descrever com precisão um grupo ou para marginalizar dissidências legítimas. Nesta reportagem, a Orb Media usa a definição de terrorismo criada pelo Consórcio Nacional dos Estados Unidos para o Estudo do Terrorismo e Respostas ao Terrorismo ou Start na sigla em inglês, grupo de pesquisadores e especialistas independentes que mantêm o Banco de Dados sobre Terrorismo Global. 

Trata-se da ameaça ou uso real de força ilegal e violência por um ator não-estatal para atingir uma meta política, econômica, religiosa ou social através do medo, coerção ou intimidação.

A pesquisa de Chernov Hwang revela um dos pontos em comum nessa diversidade de grupos, mesmo em lugares tão diferentes quanto a Alemanha e a Indonésia. 

Na Alemanha, programas de prevenção foram desenvolvidos na década de 1980 em resposta à ascensão de grupos neonazistas no país. E nas décadas seguintes, assistentes sociais descobriram que as relações na escola, nos times esportivos e em grupos religiosos são fundamentais para a vida dos jovens. Esses laços podem ser usados para atrair pessoas para grupos terroristas, mas também podem impedi-los de entrar, como na Indonésia. 

“Se algo está faltando, o jovem tem que procurar em algum outro lugar”, diz David Aufsess, assistente social da Vaja, organização de prevenção em Bremen, na Alemanha, que se reúne com jovens em parques e nas ruas. “Eles estão sempre buscando conexões.”

As famílias também podem ajudar a proporcionar relacionamentos sólidos para jovens vulneráveis, afirma Claudia Dantschke, diretora de programas da organização Hayat-Germany em Berlim. “Trata-se de encontrar pessoas que ainda podem alcançar esse adolescente”, diz ela.

Apesar de sua compreensão comum do poder dos relacionamentos, os programas na Alemanha e na Indonésia visam elementos muito diferentes do terrorismo. Os alemães tentam mudar a mentalidade radical de uma pessoa, enquanto os programas indonésios tentam mudar o comportamento.

Joko Tri Harmanto, em Java, na Indonésia; ele ajudou a construir a bomba que matou 202 pessoas em Bali em 2002 - Andreas Vingaard/Orb Media


Quando Harmanto saiu da prisão, ele trabalhou em outro restaurante dirigido pelo Institute for International Peace Building. O gerente do restaurante, Thayep Malik, que ajudou Harmanto e outros a se reintegrarem depois da prisão, diz que mudar a ideologia não funciona. “Não vamos chegar a um entendimento sobre a ideologia”, diz Malik. “Mas podemos nos unir sobre a ideia de rejeitar a violência.”
Harmanto nunca mudou sua visão linha dura. Mas ele renunciou à violência, diz, exceto em autodefesa.

Quando ataques de afiliados do Estado Islâmico mataram 21 pessoas no país em maio, Harmanto estava se esforçando para impedir que outros se juntassem a organizações violentas.

Sidney Jones, diretor do Instituto para Análise de Políticas de Conflito em Jacarta, diz que algumas das grandes organizações muçulmanas do país não se incomodam muito com a ideologia terrorista. “Ao sugerir que as pessoas devem se desradicalizar, você está estigmatizando pessoas que, aos olhos dos membros, estavam apenas fazendo a coisa certa e simplesmente exageraram”, diz Jones.


Mas essa ideia é controversa e é o oposto da abordagem adotada pelos programas na Alemanha. Como a antiga ideologia nazista da Alemanha resultou em genocídio e guerra, a ideologia extremista não é tolerada, diz Dantschke, da Hayat. “A ideologia justifica o uso da violência”, diz ela. “Ela [a ideologia] diz quem você pode matar e quando você tem permissão para matar.”

Programas como esses no mundo todo adotam abordagens variadas, às vezes baseadas em experiências, pesquisas ou outros fatores. Mas poucos acompanham rigorosamente seus resultados. É difícil determinar por que alguém escolheu não se unir a um grupo violento. A avaliação rigorosa ao longo dos anos é cara, e todo o campo é mal financiado.

A Orb Media é uma organização jornalística sem fins lucrativos sediada em Washington, nos EUA. A reportagem original completa pode ser lida no site da organização.

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