Chanceler visita cidade alemã atingida por onda de protestos e ataques xenófobos

Chemnitz tenta conter grupos da ultradireita que vieram de todo o país

Chanceler alemã, Angela Merkel, responde perguntas eme evento no jornal de Chemnitz, cenário de protestos violentos da ultradireita
Chanceler alemã, Angela Merkel, responde perguntas eme evento no jornal de Chemnitz, cenário de protestos violentos da ultradireita - Kay Nietfeld/Reuters
Chemnitz (Alemanha) | Associated Press

A chanceler alemã, Angela Merkel, visitou nesta sexta-feira (16) a cidade de Chemnitz, atingida por uma onda de protestos violentos de ultradireita há três meses.

Ela participou de um evento de duas horas com leitores do jornal local Freie Press, no qual foi questionada repetidamente sobre a violência que colocou a cidade no noticiário internacional. Perto dali, manifestantes realizaram um ato contra a chanceler.

“Há pessoas que estão preocupadas que talvez haja muitos refugiados aqui. Há ainda pessoas que têm preconceitos declarados contra pessoas que simplesmente têm uma aparência diferente. Você tem que diferenciar [esses dois grupos]", disse Merkel.

Policiais caminham diante de manifestantes contrários à visita de Angela Merkel, em Chemnitz, na Alemanha - Jens Meyer/AP

Os protestos começaram após a morte, em agosto, do carpinteiro alemão Daniel Hillig, 35 , supostamente esfaqueado por imigrantes da Síria e do Iraque. 

No dia seguinte, 800 pessoas foram às ruas de Chemnitz protestar contra o ocorrido e mostrar "quem mandava na cidade" de 247 mil habitantes, segundo convocatória lançada por um grupo de hooligans locais. Nas franjas da marcha, houve relatos de insultos, intimidações e agressões físicas a estrangeiros. A polícia foi pega desprevenida.

Mais 24 horas se passaram, e então eram de 6.000 a 8.000 pessoas, inclusive de outras localidades, a engrossar a manifestação. Nas redes sociais, tinha se disseminado a notícia falsa de que o carpinteiro morrera tentando salvar uma criança de um estupro.

As manifestações colocaram em teste a capacidade das autoridades de Chemnitz de manter a ordem depois que cenas de “justiceiros” perseguindo estrangeiros pela cidade e de skinheads fazendo a saudação nazista chocaram a Alemanha

No mês passado, autoridades prenderam sete pessoas suspeitas de formar uma organização terrorista de ultradireita autointiulada Revolução Chemnitz e planejar ataques.

Parte da Alemanha, incluindo membros da coalizão de centro-direita de Merkel, mostrou compreensão aos motivos que levaram aos protestos e defendeu que eles não fossem condenados por atos de violência de uma minoria neonazista.

Merkel deixou claro nesta sexta que pensa diferente. "É preciso separar as coisas. Você não pode demonstrar compreensão para tudo", afirmou a chanceler, comparando a situação com sua experiência crescendo na antiga Alemanha oriental, sob clima de denuncismo alimentado pela polícia secreta do regime comunista.

“Eu decidi que não precisaria ir até a Stasi [denunciar alguém] para ter uma carreira, não importa quão ruim o sistema seja. E você também não precisa perseguir as pessoas porque tem uma divergência política."

Analistas apontam que a visita de Merkel vem pouco depois de seu anúncio de que não concorrerá a um quinto mandato em 2021, mudando o foco de sua agenda para a construção de seu legado.

“Essa [visita] é um sinal de alguém que se importa e talvez queira retificar impressões construídas em 2015, quando ela permitiu aos imigrantes entrar na Alemanha", disse Sudha David-Wilp, de um centro de estudos em Berlim.

A maioria dos alemães recebeu bem a decisão de Merkel de abrir as fronteiras para os milhares de imigrantes do Oriente Médio e África que fugiram para o continente europeu nos últimos anos. Mas o impacto na economia alemã e crimes violentos atribuídos aos imigrantes mudaram a opinião pública.

A prefeita de Chemnitz, Barbara Ludwig, disse nesta sexta-feira que os alemães vivem "uma polarização em todos os níveis da sociedade" e que os atos violentos na cidade "ameaçam até mesmo destruir o governo federal".

Nas pesquisas, o bloco de Merkel perdeu apoio e cresce a influência do nacionalista Alternativa para a Alemanha. Membros do partido marcharam junto aos extremistas de ultradireita durante um dos protestos em Chemnitz. Os nacionalistas esperam vencer a eleição estadual do próximo ano em Saxony, onde fica a cidade e que atualmente está sob gestão do partido de Merkel.

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