Colômbia vive crise de confiança entre presidente e diplomatas

Funcionários que defendem ações polêmicas contra a Venezuela geram problemas para Iván Duque

Sylvia Colombo
Buenos Aires

​A controvérsia diplomática causada há duas semanas na Colômbia, quando um alto funcionário sugeriu que uma iniciativa do presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, em tomar uma ação militar na Venezuela seria apoiada pelo presidente Iván Duque, provocou também um debate sobre a intensa politização da diplomacia colombiana.

Iván Duque, presidente da Colômbia, durante encontro em Bruxelas - Eric Vidal - 24.out.2018/Reuters

Quando assumiu o poder, Duque, apadrinhado pelo ex-presidente Álvaro Uribe, quis afastar alguns personagens da linha mais dura do uribismo, para reforçar a ideia de que ele não seria um governante de direita e sim um "extremista de centro", como gosta de se auto-denominar. Para isso, entregou dezenas de postos diplomáticos a personagens de médio e alto escalão do uribismo. ​

Entre eles estão o atual embaixador nos EUA, Francisco Santos, o ex-procurador-geral Alejandro Ordoñez, que virou representante do país na OEA (Organização de Estados Americanos), a ex-senadora Nohora Stella Tovar Rey, embaixadora na República Dominicana e o ex-chanceler Guillermo Fernández de Soto, que virou embaixador junto a ONU, entre outros.

Se por um lado essas nomeações afastaram da Casa de Nariño os apoiadores mais radicais do Centro Democrático, partido do presidente, por outro espalhou pelo mundo porta-vozes da Colômbia que têm opiniões extremas e, às vezes, dissonantes com a relação às do presidente.

Entre elas, por exemplo, de que o país deve tomar medidas mais duras para pressionar pelo fim da ditadura de Nicolás Maduro, ou de fechar ou limitar o acesso dos venezuelanos pela fronteira (já são mais de 1 milhão no país). Ou, ainda, a de usar a força para eliminar o ELN (Exército de Libertação Nacional), abandonando de vez as negociações para atingir um acordo de paz temas espinhosos da agenda internacional do governo Duque.

Pouco depois de que o chanceler Carlos Holmes Trujillo chamou a imprensa para dizer que diplomatas estão desautorizados em dizer coisas em nome do governo sem consultar antes a Presidência, o embaixador Francisco Santos voltou ao ataque contra a Venezuela.

Em entrevista ao Diario Las Americas, dos EUA, afirmou que “o ELN é um grupo paramilitar do governo venezuelano", e que por conta disso deveria ser combatido. Santos também afirmou que, por conta de ter recebido abrigo em território venezuelano, a guerrilha agora estaria pagando por isso, realizando tarefas e "coisas sujas" pedidas por Maduro.

Duque também está enfrentando críticas dos diplomatas de carreira. Margarita Manjarrez, presidente da Associação Diplomática e Consular, disse que, dos 769 cargos diplomáticos que existiam no começo do ano, 49% está nas mãos de diplomatas, mas todo o resto foi entregue a nomeações políticas. A maioria para uribistas a quem Duque devia apoio por terem participado de sua campanha, mas que, por outro, lado não queria por perto na hora de governar.

“Isso é muito ruim para a Colômbia, pois reforça coisas que há anos estamos lutando contra, que são o clientelismo, o nepotismo e o mau uso desses cargos que são essenciais para as relações da Colômbia com o resto do mundo", diz Manjarrez. 

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