Crise do abuso sexual está no topo da agenda de assembleia de bispos dos EUA

Igreja analisa reformas para responder a escândalos; ativistas católicos pedem medidas adicionais

David Crary
Associated Press

A crise dos abusos sexuais cometidos por clérigos vai dominar a agenda da assembleia nacional dos bispos católicos dos EUA, esta semana, em meio a chamados de críticos para que líderes da igreja finalmente promovam reformas substanciais para expulsar os padres que os cometem.

A assembleia, que começa nesta segunda-feira (12) em Baltimore e terá duração de três dias, ocorre após uma série de escândalos de abuso sexual neste ano que provocaram choque por seu número e sua magnitude.

 

Bispos vêm analisando várias reformas para apresentar uma resposta mais forte aos escândalos, mas alguns ativistas católicos vêm pedindo medidas adicionais, incluindo a divulgação dos nomes de todos os clérigos acusados de cometer abusos e a ampliação da voz das vítimas. Uma coalizão de católicos preocupados, o movimento 5 Teses, pretendia pregar suas propostas de reformas nas portas de igrejas em Baltimore e em outras cidades.

A crise do abuso sexual está no primeiro plano de vários desafios que se colocam para líderes católicos, que enfrentam pressões conflitantes sobre o papel das mulheres e das pessoas LGBT na igreja. E, embora a população católica nos Estados Unidos venha crescendo, a maioria dos católicos comparece à missa apenas raramente, e o número de padres na ativa e de freiras continua a cair.

Definindo o tom da assembleia nacional, o presidente da conferência episcopal, cardeal Daniel DiNardo, de Galveston-Houston, pediu a seus colegas bispos que passassem os sete dias precedentes em oração, jejum e reparação intensificados.

Inicialmente, os bispos discutiriam novas medidas para policiar suas próprias fileiras durante casos de abuso sexual e aprovariam uma investigação conduzida por especialistas da polícia (não ligados à igreja) sobre o tratamento dado ao escândalo envolvendo o ex-cardeal de Washington.

No começo da reunião, contudo, DiNardo anunciou que quaisquer votos serão adiados até depois de um encontro global sobre os abusos sexuais que será realizado no Vaticano em fevereiro do ano que vem.

DiNardo disse estar decepcionado, mas esperançoso de que o adiamento garanta uma resposta ainda mais ampla à crise enfrentada pela Igreja Católica. 

Em julho, o papa Francisco exonerou de seu cargo o cardeal Theodore McCarrick, líder da igreja católica nos EUA, depois de investigadores terem concluído que uma alegação de que ele teria apalpado um coroinha adolescente na década de 1970 era digna de crédito. Vários ex-seminaristas e padres denunciaram subsequentemente ter sido assediados ou molestados por McCarrick quando eram adultos, e as denúncias geraram discussões sobre quem pode ter tido conhecimento de seus erros de conduta e os acobertado.

O cardeal Theodore McCarrick em foto de 2011
O cardeal Theodore McCarrick em foto de 2011 - Patrick Semansky-14.nov.11/AP

Em agosto, um grande júri na Pensilvânia divulgou relatório detalhando décadas de abusos sexuais e acobertamentos em seis dioceses, alegando que mais de mil crianças foram molestadas por cerca de 300 padres ao longo de anos. Desde então, um promotor federal na Filadélfia começou a trabalhar em um processo criminal sobre exploração infantil, e procuradores-gerais de vários outros Estados abriram investigações.

Os bispos reunidos em Baltimore vão analisar várias propostas aprovadas por um comitê em setembro. Elas incluem a criação de um código de conduta para bispos com relação a abuso e assédio sexual e a criação de um disque-denúncia confidencial, a ser administrado por uma terceira parte, para receber alegações de erros de conduta sexual cometidos por bispos e transmiti-las às autoridades da igreja e civis competentes.

O comitê também endossou uma “investigação plena” sobre o caso de McCarrick que teria a participação de especialistas policiais.

Críticos exortaram os bispos a ir mais longe, dando a investigadores externos acesso pleno aos registros da igreja sobre abusos sexuais e apoiando modificações nas leis sobre prescrição de delitos, para permitir que mais casos de abusos cometidos muitos anos atrás possam ser levados aos tribunais.

Outra recomendação foi feita por uma força-tarefa sobre abuso sexual criada na Universidade Villanova, na Filadélfia, uma das maiores escolas católicas do país, que pediu que a conferência de bispos exija que todos os bispos passem a ter a obrigação de denunciar suspeitas de abuso sexual, como é o caso de professores, assistentes sociais e outros profissionais que trabalham com crianças.

Esse passo vem sendo evitado até agora, disse a força-tarefa, não obstante “os atos nefandos de certos bispos, transferindo padres que cometem abusos sexuais de uma paróquia a outra, e em alguns casos de uma diocese a outra, sem informar às autoridades civis sobre as suspeitas de abusos”. Ainda segundo a força-tarefa, “os bispos americanos não devem nunca mais ter a opção de se omitir e guardar silêncio”.

A maioria dos Estados americanos inclui clérigos entre as categorias que têm a obrigação de denunciar suspeitas de abusos, mas não é o caso de todos.

A crise do abuso sexual coincide parcialmente com tensões crescentes na igreja católica americana em relação a sua abordagem às pessoas LGBT. Alguns ativistas conservadores atribuem os abusos sexuais à presença de homens gays no clero, apesar de estudos encomendados pela igreja terem contestado essa alegação. E há uma reação conservadora contra esforços de alguns líderes liberais da igreja para promover uma atitude mais acolhedora em relação aos gays.

O padre de uma igreja em Chicago queimou uma faixa de arco-íris, provocando reações de repúdio da comunidade LGBT local, e foi posteriormente exonerado de seu posto pelo arcebispo de Chicago. Um funcionário gay de uma escola católica de San Diego se demitiu depois de ser sujeito a assédio e vandalismo persistentes. E conservadores impuseram o cancelamento de vários discursos previstos do reverendo James Martin, um padre jesuíta destacado cujo livro recomenda uma abertura católica maior para a comunidade LGBT.

“O ódio é espantoso”, tuitou Martin na semana passada, descrevendo vários insultos feitos a ele online e pessoalmente.

Martin diz que os bispos americanos estão divididos quando ao mérito de uma abertura em relação à comunidade LGBT.

“A maioria dos bispos tem uma atitude de desconfiança ou tem dificuldade em aceitar essa comunidade”, ele disse. “Uma minoria a aceita e acolhe. É uma divisão profunda.”

A igreja enfrenta pressões semelhantes sobre o papel das mulheres. Grupos americanos que exortam o Vaticano a permitir que mulheres exerçam o sacerdócio têm conseguido poucos avanços, mas continuam ativos, em alguns casos pedindo que a igreja permita que mulheres sirvam como diáconos.

Cientes dessas posições, bispos e padres que participaram de uma reunião multinacional no Vaticano no mês passado pediram uma presença maior de mulheres nos processos decisórios da igreja.

Todos esses desafios coincidem com pressões demográficas implacáveis. Segundo os dados mais recentes do Centro de Pesquisas Aplicadas sobre o Apostolado, da Universidade Georgetown, o número de padres católicos nos Estados Unidos caiu de 59.192 em 1970 para 37.181 no ano passado, enquanto o número de freiras caiu de 160.931 para 45.605. As paróquias que não têm um padre residente subiram de 571 para 3.552.

Segundo o centro, nesse mesmo período os católicos nos EUA passaram de 47,9 milhões para 68,5 milhões, mas a maioria deles hoje frequenta a igreja apenas algumas vezes por ano.

Tradução de Clara Allain

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