Descrição de chapéu The Washington Post

Estado americano vai testar modelo em que eleitor faz ranking de candidatos

No Maine, eleitor pode votar até em quatro pessoas em ordem de preferência

Jenny Starrs Daron Taylor

Os moradores do estado do Maine, no nordeste dos EUA, farão história eleitoral na próxima semana —de novo.

Eles já foram precursores em suas primárias ao usar um sistema de votação chamado "ranked-choice" (escolha ranqueada) para definir os candidatos de cada partido. Agora eles serão os primeiros a classificar seus votos em uma eleição geral federal.

Neste tipo de votação, também chamada de desempate instantâneo, o eleitor enumera diversos candidatos por ordem de preferência em vez de votar em apenas um. 

Cédula de votação usada no estado do Maine, nos EUA, permite ao eleitor ranquear seus votos para deputado e senador de acordo com a preferência
Cédula de votação usada no estado do Maine, nos EUA, permite ao eleitor ranquear seus votos para deputado e senador de acordo com a preferência - Reprodução

Na apuração, se contam primeiro a primeira opção de cada eleitor. Para vencer, o candidato precisa conseguir mais de 50% dos votos, e não apenas ser o mais votado, como é mais comum nos EUA.

Se ninguém conseguir ultrapassar os 50% nesta primeira rodada, o candidato com menor quantidade de votos é eliminado. Com isso, passam a ser contabilizados os votos na segunda opção de quem tinha escolhido primeiro esse candidato. 

Se alguém conseguir mais de 50% nessa segunda rodada, é declarado vencedor. Se não, o candidato com o menor número de votos é eliminado novamente, e esses votos são aplicados à opção seguinte dos eleitores. E assim por diante, até que alguém consiga a maioria.

Segundo o gabinete do secretário de Estado do Maine, a lei estadual que institui a votação por escolha ranqueada estipula que os votos sejam apurados em turnos, até que restem só os dois candidatos com maior número de votos. Então o que tiver mais votos é declarado vencedor.

Na maioria das eleições por escolha ranqueada, o vencedor da maioria dos votos na primeira opção acaba vencendo. Os casos em que ela pode inclinar a balança são em disputas com diversos candidatos com posições sobrepostas em alguns temas.

No Maine, o deputado republicano Bruce Poliquin e o democrata Jared Golden estão empatados nas pesquisas, com dois independentes —Tiffany Bond e Will Hoar— muito atrás. Segundo todos os indícios, os votos de segunda opção decidirão quem tem a maioria no 2º Distrito Congressional.

Bond, Hoar e Golden prometeram aceitar o resultado da apuração por escolha ranqueada, mas Poliquin se recusou a responder à pergunta "sim ou não" em seu último debate."Vou marcar Bruce Poliquin, um único voto, colocá-lo na urna e ir embora", disse ele em 16 de outubro.

"Não acho que ele respondeu à pergunta, mas sim, com certeza (aceitarei)", refutou Golden.

Outras cidades, países e organizações já usam a votação por escolha ranqueada , como San Francisco, a Austrália e a categoria de melhor filme no prêmio da Academia de Cinema, o Oscar.

Defensores desse sistema dizem que ele promove o domínio da maioria por desígnio, pode cultivar candidatos mais centristas e campanhas mais civilizadas e abre a porta para candidatos mais fortes de terceiros partidos —ou no mínimo remove o temor de "divisão de votos".

Lembram-se da reação contra os eleitores de Jill Stein e do Partido Verde depois da eleição de 2016? Algumas pessoas afirmaram que sem Stein tirando votos da esquerda teríamos como presidente Hillary Clinton em vez de Donald Trump.

O argumento se baseia fortemente em hipóteses, desconsidera a votação real e minimiza o efeito que o colégio eleitoral, a divisão desproporcional de distritos e o número de eleitores tiveram na vitória de Trump.

A votação por escolha ranqueada provavelmente não teria inclinado a balança para Hillary em 2016. Mas a frustração com os candidatos de terceiros partidos é algo que os defensores da reforma eleitoral tentam eliminar: na votação por opção classificada, os eleitores não precisam se preocupar com dividir seus votos entre dois candidatos.

Mas há defeitos potenciais: os adversários dizem que os votos das pessoas basicamente não contam se seu voto for "esgotado", o que acontece quando elas preferem não classificar os candidatos e sua primeira opção não vence, que isso torna a votação complicada e demorada demais e que só candidatos de centro de segunda opção podem ganhar.

A indignação na disputa para prefeito de Oakland em 2010 exemplifica o descontentamento com a votação por escolha ranqueada, que levou à vitória um candidato de segunda opção.

O candidato mais bem situado nas pesquisas e vencedor na primeira opção, Don Peralta, acabou derrotado por Jean Quan, que se concentrou em atrair apoiadores de outros candidatos para seu voto de segunda opção.

Os apoiadores de Peralta acusaram Quan de "burlar o sistema" para conseguir a maioria em um campo lotado.

No Maine, a mudança para votação de escolha ranqueada foi provocada por uma série de fatores: um eleitorado historicamente independente, a frustração com eleições recentes polarizadas como a do governador Paul LePage (republicano) e diversas tentativas fracassadas de implementar a votação por escolha ranqueada pelo Legislativo estadual.

Os cidadãos coletaram assinaturas para uma iniciativa de petição e aprovaram a medida como uma consulta popular numa votação em novembro de 2016.

O estado teve um percurso acidentado para implementar a votação por escolha ranqueada. Depois que os eleitores aprovaram seu uso nas eleições de 2018, o Legislativo do Maine votou para adiar seu uso até 2021, obrigando os proponentes a se unirem para vetar essa lei. No fim, a decisão de aplicar o modelo já nesta eleição acabou definido em um referendo, aprovada por 54% dos eleitores. 

Mas sua implementação ainda é aguardada para cargos estaduais na eleição geral, por causa de um parecer judicial sobre o uso da palavra "pluralidade" na Constituição estadual, significando que parte dos votos dos eleitores incluirá uma seção de opção classificada e outras partes não.

Muitos eleitores no 2º Distrito do Maine estavam entusiasmados com a mudança.

"A votação por opção classificada me dá uma oportunidade de pelo menos expressar minha opinião. E mesmo que meu candidato não vença eles recebem a colaboração", disse Jan Hill, de Bangor, que votou na primária republicana em junho.

"Acho que isso dá ao povo uma voz maior, e você não tem de escolher entre democrata ou republicano. Isso abre um pouco o campo e nos dá mais voz", disse Josh Hill, de Brewer.

"Ainda há definitivamente uma curva de aprendizado na votação por opção classificada. Houve nas primárias assim como agora, eu acho", disse Sarah McCarthy, de Bangor. "Eu pessoalmente me sinto mais à vontade com ela e tenho melhor entendimento. Não acho que a compreendo totalmente, mas de fato tenho uma melhor compreensão depois de passar por isso em junho."

Com a eleição chegando e a perspectiva de uma apuração demorada, Bond, Hoar e Golden se uniram para dar uns aos outros seus votos de segunda e terceira opções.

"São pessoas boas", disse Golden no debate de 16 de outubro.

Bond acrescentou: "Seria tolice não classificar, porque você poderia acabar ficando com o outro candidato".

The Washington Post

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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