Lobistas apostam em onda democrata na eleição dos EUA

Grupos de interesse no Congresso favorecem candidatos opositores a Trump

Danielle Brant
Nova York

Na próxima terça-feira (6), acompanham ansiosamente os resultados das eleições legislativas dos EUA os candidatos que concorrem a vagas na Câmara e no Senado, os eleitores, jornalistas e —talvez com tanto ou mais interesse— lobistas e ativistas.

O clima de fla-flu tem pouca paixão e muita razão por trás: afinal, são apenas negócios. Principalmente do lado dos lobistas, o interesse é saber se os candidatos que receberam contribuições de seus clientes conseguiram os assentos que disputavam.

É o primeiro passo para que, ao longo do mandato, se desenhem leis e propostas que, eventualmente, favoreçam direta ou indiretamente uma empresa ou indústria.

Cartazes apontam para locais de votação em Irvine, Califórnia (EUA) 
Cartazes apontam para locais de votação em Irvine, Califórnia (EUA)  - Mike Blake - 30.out.18/Reuters

Ao contrário do que ocorre no Brasil, onde o lobby é malvisto e se equilibra numa linha tênue por causa do forte histórico de corrupção no país, nos EUA há uma indústria que se desenvolveu com o objetivo de, no mínimo, levar os interesses de grupos ao conhecimento dos congressistas. O que não necessariamente é ruim. Depende do objetivo, que pode ir de eliminar o controle sobre armas a melhorar práticas ambientais.

Essa indústria e o dinheiro investido também funcionam como termômetro da corrida eleitoral —ninguém gosta de apostar em perdedores.

Nas midterms, como são conhecidas as eleições que ocorrem no meio de um mandato presidencial nos EUA, as contribuições ajudam a dar uma ideia do que se espera como resultado —ou seja, se a “onda azul” democrata vai, efetivamente, sair do papel.

A depender de movimentações recentes captadas pelo Center for Responsive Politics, há indícios de que isso pode acontecer. Neste ano, uma tendência registrada em 2010 voltou a ser detectada.

Naquele ano, 51% das contribuições de corretoras e gestores de fundos iam para democratas, até que eles perceberam que os republicanos levariam o comando das duas Casas. Com isso, houve uma inversão de fluxo e a indústria acabou dando 69% de seus recursos a candidatos “vermelhos” —cor associada ao Partido Republicano.

Neste ano, o mesmo está acontecendo, mas na direção dos democratas. Nos 21 meses até 1º de outubro, a indústria de ações e investimentos havia destinado 52% de seus fundos a democratas. Do dia 1º até o dia 17, esse percentual subiu para 71%. No acumulado, foram destinados US$ 7,86 milhões (R$ 29 milhões) para campanhas, segundo o Center for Responsive Politics.

A surpresa ficou por conta da NRA (National Rifle Association), o lobby das armas, um dos mais atuantes. Após uma série de ataques a tiros e diante de um governo republicano, o grupo diminuiu para US$ 4 milhões (R$ 15 milhões) o lobby neste ciclo —foram US$ 27 milhões (R$ 100 milhões) nas eleições de 2014.

Na América polarizada, os lobistas e ativistas —pró ou contra aborto, drogas ou pela preservação ambiental— acabam, também, segregando sua atuação.

“Há poucos legisladores moderados. Com pouca gente no meio, os republicanos e democratas fazem um trabalho ruim de conversar uns com os outros, o que dificulta a aprovação de leis de senso comum”, afirma Paul Kanitra, da Lobbyit, que busca tornar a prática mais acessível.

Em tese, qualquer um tem acesso aos congressistas. Mas isso pode ser uma tarefa cara.

“O custo geral do lobby era proibitivo para grupos menores. Quando abrimos, em 2009, queríamos mudar isso. Quebramos o lobby em seus componentes e fizemos vários níveis para que o cliente soubesse o que teria direito com seus dólares”, diz Kanitra.

Ele diz que a empresa busca ser o mais apartidária possível na escolha dos temas, focando em temas pouco polarizados. “Tentamos ficar de fora de temas sociais, religiosos, assuntos que podem ser controversos”, afirma.

Ou seja, ficam de fora bancadas como a verde e a favor ou contra o aborto. São esses grupos os que têm mais dificuldade de fazer lobby profissional. Normalmente, eles tentam se fazer ouvir se aproximando de congressistas identificados com os temas.

“É muito difícil competir com o dinheiro das grandes indústrias”, diz Chayenne Polimedio, vice-diretora do centro New America. “O dinheiro que vai apoiar as causas sociais não tem o retorno que uma empresa tem.”

O resultado final do trabalho de lobistas também não é explícito, afirma Daniel Auble, pesquisador do Center for Responsive Politics. “Não é sempre tão óbvio, porque lobistas podem tirar uma linha, remover uma provisão. Eles conseguem ter sucesso sem precisar fazer uma luta pública disso”, diz.

Mas acreditar que todas as leis tiveram influência de empresas e grupos é um exagero também, ressalta Timothy LaPira, professor da Universidade James Madison.

“É implicitamente assumir que eles não têm um cérebro. São indivíduos com grandes egos e posições individuais. O congressista pode tomar uma decisão sem ter um grupo por trás”, afirma o professor.

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