Ministro italiano sofre críticas após chamar jornalistas de 'chacais'

Vice-premiê Luigi Di Maio acusou imprensa de espalhar fake news para desestabilizar o governo

Roma e São Paulo | Reuters e Associated Press

O vice-primeiro-ministro italiano Luigi Di Maio foi criticado nesta terça-feira (13) por entidades que representam a imprensa após ele e seus correligionários chamarem jornalistas de chacais e vadias.

Di Maio, que também é o líder do partido populista 5 Estrelas, acusou repórteres de criarem notícias falsas para prejudicarem a sigla e ameaçou retirar verba publicitária pública de alguns veículos que o criticam —medida que o presidente eleito Jair Bolsonaro já disse que pretende implementar no Brasil.

“A verdadeira praga deste país é a maioria da mídia, intelectual e moralmente corrupta, que está fazendo uma guerra contra o governo para ele cair”, disse o italiano nas redes sociais.

Em manifestação em Milão contra as declarações de Luigi Di Maio, jornalistas carregam cartazes com a frase "aqui vive um mero chacal" e um desenho do animal
Em manifestação em Milão contra as declarações de Luigi Di Maio, jornalistas carregam cartazes com a frase "aqui vive um mero chacal" e um desenho do animal - Miguel Medina/AFP

O alvo das declarações de Di Maio foram os jornalistas que denunciaram um caso de corrupção envolvendo a prefeita de Roma, Virginia Raggi, um dos principais nomes do 5 Estrelas.

Ela era acusada de abuso de poder ao indicar o irmão de um assessor para chefiar o departamento de turismo da cidade. Segundo a Procuradoria, Raggi mentiu sobre o assunto ao ser questionada por investigadores anticorrupção que cuidavam do caso.

Neste sábado (10), porém, ela foi absolvida por um juiz, que considerou que a prefeita não sabia que a indicação era irregular. Assim, Raggi escapou de uma pena de dez meses e não vai precisar deixar o cargo —o estatuto do 5 Estrelas a obrigava a renunciar caso fosse condenada.

Logo após o veredicto, Di Maio, Raggi e outros líderes do partido imediatamente passaram a atacar jornalistas, o que gerou uma resposta das entidades, que acusam o ministro de ameaçar a liberdade de imprensa.  

“Está claro que este não é um caso isolado, mas uma estratégia para atingir jornalistas e a liberdade de imprensa e, assim, o direito dos cidadãos se informarem”, disse Vittorio di Trapani, presidente do sindicato Usigrai, que representa jornalistas, ao jornal britânico The Guardian.  

O representante de outro sindicato do setor, o FNSI, também defendeu a atuação dos veículos e disse que Ignazio Marino, prefeito anterior de Roma de centro-esquerda, também foi denunciado em reportagens por corrupção —e que as denúncias foram apoiadas pelo 5 estrelas.

“Di Maio e seus apoiadores no 5 Estrelas que sonham em controlar a informação em uma coleira deveriam desistir: ameaças ou insultos não vão impedir jornalistas de fazerem seu trabalho”, disse Raffaele Lorusso, presidente do FNSI, também ao Guardian.  

Os sindicatos realizaram um protesto contra as declarações de Di Maio, na qual jornalistas carregaram cartazes com o desenho de um chacal. 

Em nota, a associação que representa os correspondentes estrangeiros na Itália prestou solidariedade aos jornalistas atacados no país e no resto do planeta.

“Acreditamos piamente que nosso trabalho é um dos pilares da democracia e hoje, mais do que em qualquer outro momento, deve ser protegido”, afirma o comunicado.

Questionado se voltaria atrás após a reação das entidades, DI Maio manteve sua posição e afirmou que a imprensa critica o 5 Estrelas, mas protege seu parceiro de coalizão no governo, o partido de direita nacionalista Liga. “Eles estão tentando fazer o governo cair, mas não vamos morder a isca”, disse ele.

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