'Não recebi nem roupas dela', diz mãe de brasileira morta na Nicarágua

Três meses após crime, família reclama de falta de informações sobre julgamento

Maria José da Costa, mãe de Raynéia Lima, com fotos da filha em sua casa em Garanhuns (PE) Adolfo Santos Soneria/Folhapress
Maria José da Costa, mãe de Raynéia Lima, com fotos da filha em sua casa em Garanhuns (PE)  - Adolfo Santos Sonteria/Folhapresd
Flávia Mantovani
São Paulo

Mãe da estudante brasileira morta na Nicarágua há três meses, Maria José da Costa, 55, está escrevendo um livro sobre a vida da filha.

Já está quase tudo pronto —as lembranças da gravidez, de como criou a menina sozinha desde que ela tinha dois anos de idade, o sonho da garota de cursar medicina, a luta para se manter em outro país. Mas Maria José não consegue terminar. Falta um desfecho.

“Quero concluir com o que aconteceu no último dia da minha filha”, diz. “E eu ainda não sei a verdade.”

Raynéia Gabrielle Lima, 31, foi atingida por um tiro de grosso calibre na noite do dia 23 de julho em Manágua, quando voltava de um plantão no hospital para casa, de carro. Dois meses antes, havia começado um período conturbado na Nicarágua, com uma onda de protestos contra o ditador Daniel Ortega e uma forte repressão a opositores que segue em curso e já deixou centenas de mortos e milhares de feridos.

Maria José, que vive na cidade de Garanhuns (PE), queixa-se da falta de apoio do governo federal brasileiro. Diz que só conseguiu trazer o corpo de Raynéia porque o governo de Pernambuco custeou as despesas. Até hoje, passados mais de três meses, não conseguiu ter de volta os objetos pessoais da estudante.

“Os móveis eu mandei doar, mas as roupas e outros objetos eu quero guardar de lembrança, quero fazer um cantinho da minha filha. Mas não tenho condições de arcar com os custos de trazer”, conta.

A enfermeira aposentada também reclama da falta de informações sobre o andamento das investigações. Diz que só sabe do que acontece por reportagens da imprensa local  —que tem sofrido com censura e com a perseguição a jornalistas.

A primeira audiência do julgamento foi a portas fechadas e, segundo a imprensa nicaraguense, durou apenas 35 minutos. Maria José disse que a família não foi informada e não pôde enviar advogado ou representante.

Também há dúvidas sobre a autoria do assassinato. Cinco dias depois do crime, a polícia informou que um vigilante particular chamado Pierson Gutiérrez Solís tinha confessado. Segundo sua versão, ele viu o veículo de Raynéia em alta velocidade, achou que corria perigo, pegou uma arma que tinha em seu carro e atirou.

Mas não foi isso que disse a única testemunha do crime, o nicaraguense Harnet Lara, namorado de Raynéia. Ele vinha em outro carro logo atrás e levou-a ao hospital para ser socorrida.

Segundo Ernesto Medina, reitor da universidade onde a brasileira estudava, Lara disse que viu três homens encapuzados na rua e que o tiro partiu de um deles. “Todos sabem que aquela área estava cheia de paramilitares que protegem altos funcionários do governo que moram ali. São eles que andam encapuzados”, disse Medina à Folha.

Organizações internacionais como a OEA (Organização dos Estados Americanos) denunciam a ação violenta desses grupos armados no país. Segundo relatos de nicaraguenses, são ex-integrantes do Exército ou militantes do partido do presidente que reprimem ilegalmente manifestantes e outros opositores.

Medina afirma que, na manhã seguinte à morte, o carro e os documentos da brasileira tinham sido retirados do local pela polícia. Câmeras de segurança também foram arrancadas, segundo o reitor.

Ele afirma que a Justiça não informa em qual prisão o suspeito está. “Esse é o único caso de um paramilitar que foi julgado por um crime, e isso só ocorreu porque a vítima era estrangeira. Mas os julgamentos aqui têm sido muito irregulares. Não temos confirmação nem de que ele esteja de fato preso”, diz, e acrescenta: “Uma pergunta que nos fazemos é: como é possível que um civil ande com uma arma de guerra em seu carro?”

Depois que prestou depoimento, o namorado de Raynéia e a família tiveram que sair do país por sofrerem ameaças. A mãe da estudante diz que passou um mês e meio sem ter notícias dele.

“Depois ele entrou em contato e disse que teve que sair às pressas da Nicarágua, que foi ameaçado caso contasse a verdade. Disse que ainda está muito abalado, passando por tratamento psicológico, e que quando se sentir seguro virá ao Brasil me contar a verdade”, diz Maria José.

As amigas da filha também estão temerosas. “Elas dizem que depois que foram depor, tiveram o celular grampeado. Pediram para não ligar mais por enquanto, está todo mundo apavorado”, afirma ela.

Após o crime, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro convocou a embaixadora da Nicarágua no país e também o embaixador do Brasil na Nicarágua para esclarecimentos. A conclusão dessas conversas não foi informada à mãe de Raynéia nem à Folha, após uma solicitação.

Para o Itamaraty, o caso chegou ao seu desfecho com a chegada do corpo ao Brasil. “Do ponto de vista consular, considera-se o caso encerrado, embora a embaixada e o Itamaraty permaneçam abertos para consultas da família”, afirmou, em nota.

Uma amiga de Raynéia enviou à Folha um email que escreveu em 3 de outubro ao Itamaraty, pedindo que entrassem em contato com a mãe da estudante para conversar sobre o envio dos pertences dela e também solicitando atualizações do caso.

Como não houve resposta, 19 dias depois ela ligou para a ouvidoria do ministério, que enviou uma mensagem curta no dia 24 informando que os objetos que estavam sob posse da Embaixada foram enviados ao Brasil juntamente com os restos mortais de Raynéia.

“O único que eu recebi foi o documento e o diploma dela. Os objetos pessoais continuam lá”, diz a mãe. “O Itamaraty deu as costas para o caso. Se não fosse o governo de Pernambuco, ela teria sido enterrada como indigente.”

Em nota, o ministério informou que, por lei, a assistência consular não envolve o custeio de sepultamento e traslado de corpo ou “pagamento dos serviços de advogados para casos específicos”.

Para o reitor Ernesto Medina, “em nenhum momento foi feito justiça” para a estudante.

Maria José diz que seu livro vai contar “uma história muito bonita”. “Quero ilustrar com cada passo da vida dela. Não tenho condições de pagar a publicação, mas pretendo conseguir, para que ao menos as lembranças da vida da minha filha não sejam enterradas.”

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