Número de crianças mortas por fome no Iêmen pode chegar a 85 mil

Grupo humanitário alerta para grave efeito de bloqueios à chegada de ajuda

Menino subnutrido senta em cama do hospital Aslam, em Hajjah, no Iêmen - Hani Mohammed-01.out.2018/Associated Press
Sanaa (Iêmen) | Associated Press e Reuters

​O número de crianças com menos de 5 anos que morreram de fome pode chegar a 85 mil nos três anos de guerra civil no Iêmen. ​

A estimativa é do grupo de ajuda humanitária Save The Children e foi divulgada nesta quarta-feira (21). O número é baseado nas taxas de mortalidade de 20% a 30% para casos não tratados de desnutrição aguda severa em crianças pequenas.

A ONU (Organização das Nações Unidas) aponta que mais de 1,3 milhão de crianças sofreram com a fome desde que uma coalizão liderada pelos sauditas declarou guerra aos rebeldes houthi no Iêmen, em março de 2015.

O grupo humanitário aponta que uma estimativa conservadora indica a morte de 84.701 crianças por desnutrição, a maioria em áreas onde os grupos internacionais de ajuda humanitária não conseguem chegar.

A escala do desastre humanitário no Iêmen tem levado cada vez mais governos a pressionarem por um cessar-fogo.

Estima-se que 8,4 milhões de pessoas estejam passando fome no país. Cerca de 57 mil pessoas já morreram na guerra, segundo a base de dados independente do Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED) —a última estimativa da ONU é de 2016. 

“Para cada criança morta por bombas ou balas, dezenas estão morrendo de fome e isso pode ser evitado”, diz Tamer Kirolos, diretor do braço iemenita da Save the Children. “Crianças que morrem dessa forma sofrem imensamente enquanto as funções de seus órgãos vitais diminuem e eventualmente param.”

A Save the Children atribui a crise de fome ao bloqueio organizado pela Arábia Saudita há um ano, depois que um grupo de rebeldes apoiados pelo Irã disparou um míssil balístico na capital saudita, Riad.

O grupo humanitário cita ainda confrontos recentes dentro e ao redor da cidade portuária de Hodeida, por onde o Iêmen importa cerca de 70% de sua comida e ajuda humanitária. Segundo o Save the Children, o volume de importação comercial no porto, sob controle dos rebeldes, caiu mais de 55 mil toneladas métricas por mês.

Para contornar o bloqueio, a Save the Children tem trazido suprimentos pelo norte do Iêmen, no porto de Aden, o que atrasa a chegada à população.

Outras ONGs afirmaram que a guerra tem atingido civis de outras formas além da desnutrição. A falta de vacinas para as crianças, de pré-natal para grávidas e de acesso a hospitais para as parturientes também têm aumentado a mortalidade no país, segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

O enviado especial da ONU para o Iêmen, Martin Griffiths (centro), chega ao aeroporto internacional de Sanaa - Mohammed Huwais/AFP

O enviado das Nações Unidas para o Iêmen, Martin Griffiths, desembarcou em Sanaa nesta quarta para tentar retomar as negociações de paz no país.

Ambos os lados dizem querer negociar, e a expectativa de Griffiths é organizar conversas de paz dentro de "algumas semanas", na Suécia.

O secretário de Defesa dos EUA, Jim Mattis, também disse nesta quarta que as negociações de paz entre as forças pró-governo e os rebeldes houthis devem acontecer na Suécia em dezembro.

Apoiadas por uma coalizão liderada pela Arábia Saudita desde 2015, as forças pró-governo tentam expulsar os rebeldes houthis dos territórios que conquistaram no ano anterior, incluindo a capital Sanaa.

Atualmente, o Iêmen está praticamente dividido em dois: as forças pró-governo controlam o sul e uma boa parte do centro, enquanto os rebeldes dominam Sanaa, o norte e amplas faixas do oeste.

Na semana passada, a coalizão pró-governo disse que suspenderia os ataques na cidade de Hodeida; em resposta, os rebeldes também afirmaram que deixariam de fazer ataques com mísseis e drones à Arábia Saudita, aos Emirados Árabes Unidos e às forças iemenitas pró-governo. 

 
 

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