Refugiados de caravana para os EUA se acumulam em Tijuana

Cidade mexicana vira zona-tampão entre centro-americanos e os Estados Unidos

Mexicanos que trabalham regularmente nos EUA aguardam a liberação da passagem de San Ysidro, em Tijuana
Mexicanos que trabalham regularmente nos EUA aguardam a liberação da passagem de San Ysidro - Adrees Latif/Reuters
Júlia Zaremba
Washington

Os EUA fecharam durante três horas nesta segunda (19) o posto de fronteira de San Ysidro, entre as cidades de Tijuana e San Diego, para instalar barreiras que contenham o fluxo de migrantes da América Central em busca de refúgio no país. 

A interdição levou mexicanos que trabalham nos EUA a enfrentarem longas filas até a reabertura da passagem, cruzada por cerca de 110 mil pessoas em 40 mil veículos diariamente —uma das mais movimentadas na divisa. 

A ação ocorre um dia após centenas de mexicanos protestarem contra os migrantes vindos do sul em uma das regiões mais ricas da cidade, a menos de 2 km da fronteira, segundo a Associated Press. 


Com bandeiras de seu país e ao som do hino nacional do México, o grupo gritava “Fora! Fora!” e “Nós não os queremos em Tijuana”. Outras manifestações de hostilidade contra a caravana foram registradas nos últimos dias. 

O hondurenho Ivis Muñoz, 26, contou à agência de notícias que ele e outros estrangeiros foram atacados a pedradas enquanto dormiam em uma praia. Um dos agressores teria dito: “Não queremos vocês aqui! Voltem para seu país!” 

O também hondurenho Carlos Padilla, 57, disse ter sido tratado como animal e chamado de porco, com os demais, por moradores de Tijuana. 

O comportamento destoa do registrado há cerca de um mês, quando comunidades mexicanas receberam os migrantes com festa e promoveram mutirões para ajudá-los. Alguns moradores de áreas rurais distribuíram frutas e água para os refugiados na época. 

A caravana que chegou a Tijuana na última semana após mais de um mês de peregrinação traz cerca de 3.000 pessoas que fogem da pobreza, da violência e da instabilidade política de países como El Salvador, Honduras e Guatemala.


O chamado “Triângulo Norte” é a região com mais alto número de assassinatos por cem mil habitantes no mundo (excluídas zonas de guerra). 

Com o avanço da caravana, o governo do México estima que a população de migrantes em Tijuana deva mais do que triplicar, chegando a cerca de 10 mil pessoas que partiram em 13 de outubro de San Pedro Sula, em Honduras, e percorreram quase 5.000 quilômetros desde então —a maior parte do trecho, a pé. 

A caravana foi descrita pelo prefeito de Tijuana, Juan Manuel Gastelum, como uma “avalanche” para a qual a cidade não está preparada. “É um tsunami. Há preocupação entre todos os cidadãos.” 

Ele calcula que os migrantes fiquem no local por ao menos seis meses enquanto aguardam respostas a pedidos de asilo feitos aos EUA. 

O presidente americano, Donald Trump, emitiu um decreto no início do mês determinando que migrantes vindos do México tenham direito a asilo somente se entrarem com o pedido nos postos de fronteiro e aguardarem seu processamento fora dos EUA.

No posto de Tijuana, um dos mais movimentados, apenas em torno de cem demandas são registradas por dia. 

Nesta segunda, grupos de direitos civis solicitaram a suspensão da medida na Justiça. 

A maioria dos migrantes está acampada em um complexo esportivo ao ar livre, dormindo em um campo de beisebol sujo ou sob arquibancadas. O lugar foi aberto para receber os refugiados após os abrigos da cidade atingirem a sua capacidade máxima. Chuveiros, pias e banheiros foram oferecidos por grupos religiosos. 

Trump, que explorou a questão da caravana durante o período anterior às eleições legislativas, voltou a criticar os migrantes. 


“Não é irônico que grandes caravanas estejam marchando para nossa fronteira em busca de asilo porque estão com medo de estar em seus países, mas estejam orgulhosamente carregando a bandeira de seus países?”, escreveu sábado (17). “Isso pode ser possível? Sim, porque é tudo uma GRANDE FARSA, e o contribuinte americano está pagando!” 

No dia seguinte, retomou o assunto. “Prender e soltar é um termo obsoleto. Agora é prender e deter”, escreveu, reforçando que os migrantes que tentarem entrar no país serão “detidos ou expulsos”. 

Também no fim de semana, Trump afirmou a repórteres na Casa Branca que seria um “momento muito bom” para paralisar o governo caso a Câmara, agora com maioria da oposição democrata, não aprove verba para construir de um muro na fronteira. Trump quer cerca de US$ 5 bilhões para financiar o muro. 

A paralisação pode ocorrer caso ele não sancione o Orçamento para o ano fiscal de 2019, iniciado em outubro. 

Mais de 5.000 soldados foram deslocados para a fronteira sul dos EUA para deter os migrantes. Trump disse que ficarão por lá “o tempo que for necessário”. O plano original era de que a missão fosse encerrada em 15 de dezembro. 

O republicano tem tratado os refugiados como ameaça à segurança nacional. 

Antes da eleição legislativa, dia 6 de novembro, ele compartilhou um vídeo que retrata os migrantes como criminosos. Em outras ocasiões, afirmou que havia criminosos e pessoas do Oriente Médio infiltrados na caravana, ameaçando cortar a ajuda à América Central e fechar a fronteira com o México.

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