Descrição de chapéu The New York Times

Sem regras como as da Guerra Fria, China e EUA arriscam confronto naval

Em meio a guerra comercial, tensão entre os dois países aumentou no mar do Sul da China

JANE PERLEZ Steven Lee Myers
Honolulu (EUA)

À distância, o navio de guerra chinês avisou o destróier americano que ele estava seguindo uma “trajetória perigosa” no mar do Sul da China. Então avançou ao lado da embarcação dos EUA, chegando perigosamente perto. Por alguns minutos de tensão, uma colisão pareceu iminente.

O navio americano, o Decatur, tocou seu apito. Os chineses o ignoraram. Em vez disso, sua tripulação se preparou para jogar no mar grandes para-choques brancos, para proteger seu navio. “Estavam tentando nos empurrar para fora do caminho”, disse um dos marinheiros americanos.

Apenas uma virada forte a estibordo pelo Decatur evitou um desastre nas águas equatoriais calmas naquele início de manhã em setembro –um desastre que teria danificado gravemente as duas embarcações, deixado mortos entre as duas tripulações e mergulhado duas potências nucleares em uma crise internacional, segundo um funcionário sênior dos EUA que falou sob condição de anonimato para descrever o incidente em detalhes.

O destróier americano Decatour, que quase colidiu com um navio chinês
O destróier americano Decatour, que quase colidiu com um navio chinês - Diana Quinlan/U.S. Navy/The New York Times

Os dois navios chegaram a 41 metros de distância um do outro. Foi o mais perto que já se chegou a uma colisão em um processo no qual a Marinha americana vem contestando a crescente presença militar chinesa na região. 

O incidente de 30 de setembro exemplificou o que comandantes dos EUA temem que seja uma fase nova e perigosa nos confrontos na hidrovia contestada, que vêm ocorrendo sem que exista um acordo ao estilo da Guerra Fria, com regras básicas de conduta para impedir uma escalada hostil.

“Um jogo de pombo e gavião está sendo jogado nos pontos de conflito da Ásia”, disse Brendan Taylor, especialista no mar do Sul da China da Universidade Nacional Australiana.

“É apenas uma questão de tempo até ocorrer um choque”, ele prosseguiu, acrescentando que enxerga o potencial de um incidente desse tipo escalar e converter-se em uma crise maior.

Quando se reunirem em Washington (9) nesta sexta-feira, o ministro da Defesa chinês, Wei Fenghe, e seu colega americano, Jim Mattis, devem fazer um esforço para acalmar essas tensões crescentes e reduzir os riscos de erros de cálculo.

Mas a guerra comercial e o discurso do vice-presidente Mike Pence no mês passado declarando que os EUA vão adotar uma linha muito mais dura em relação à China dão aos dois homens pouco incentivo para aliviar as tensões na hidrovia.

Apesar dos riscos, nenhuma das duas partes parece estar disposta a recuar.

Após a quase-colisão em setembro, o almirante John M. Richardson, chefe de operações navais dos Estados Unidos, avisou que EUA e China “vão se confrontar cada vez mais em alto mar”.

No ano passado a administração Trump instruiu a Marinha a executar mais operações contra as reivindicações territoriais da China, e a Marinha vem enviando navios de guerra com mais frequência a águas próximas às ilhas artificiais que a China ampliou com hangares para aeronaves, pistas de pouso, portos de águas profundas e, mais recentemente, mísseis de curto alcance. Recentemente Washington também pediu a aliados seus que contribuam para a tarefa com navios próprios.

“Em resposta a essa situação, creio que a China terá que adotar as medidas necessárias para elevar o custo de tais atos de provocação dos EUA e outros países relevantes”, disse Wu Shicun, presidente do Instituto Nacional de Estudos do Mar do Sul da China, em Haikou, China, instituição que muitas vezes reflete a posição da Marinha chinesa. “Se não o fizer, as ações das partes provocantes serão mais frequentes e sem escrúpulos.”

Mas a quase-colisão com o Decatur destacou os perigos presentes quando rivais se desafiam.

O incidente ocorreu quando o Decatur, com 300 tripulantes, chegou a 12 milhas náuticas de distância do recife Gaven, dois afloramentos no mar que desde 2014 a China vem ampliando e fortificando com armamentos. O destróier chinês, o Lanzhou, com número semelhante de tripulantes, acelerou por trás e ultrapassou o Decatur.

Este relato do que aconteceu é baseado em entrevistas com autoridades americanas, além de um vídeo entregue pelo Ministério da Defesa britânico ao The South China Morning Post, vídeo que foi descrito por um funcionário da defesa americana como autêntico.

À medida que a China levar mais aviões e navios para contestar o domínio dos EUA na região, os enfrentamentos desse tipo podem se tornar mais frequentes. Os EUA dizem que no ano passado ocorreram 18 incidentes de risco no ar e no mar entre navios e aviões chineses e americanos na região do Pacífico, um ligeiro aumento em relação a anos anteriores.

Durante a Guerra Fria, Washington e Moscou respeitaram os termos de um Acordo sobre Incidentes Marítimos, mais ou menos regido pelo modo como operavam as Marinhas dos dois países. Mas a disputa naval entre Estados Unidos e China é diferente.

Na época, Moscou e Washington queriam assegurar a liberdade de navegação no alto mar para permitir que ambas as potências promovessem seus interesses globais.

Já a rivalidade entre Pequim e Washington gira em torno da reivindicação chinesa de domínio territorial sobre virtualmente todo o mar do Sul da China e dos esforços dos EUA para contestar essa reivindicação. As duas partes adotaram posições tão inflexíveis que qualquer acordo de meio termo para evitar ou desarmar confrontos parece improvável.

A missão do Decatur era deixar claro que o alto mar é aberto a todos e que as zonas de 12 milhas náuticas reivindicadas pela China como seu território soberano não são reconhecidas pela lei internacional. A China argumenta que a lei internacional, conforme definida por uma decisão de 2016 da Corte Permanente de Arbitragem, em Haia, não se aplica nesse caso.

Em 2014 os EUA e a China, além de outros países, firmaram o Código para Encontros Imprevistos no Mar, que emula aspectos do pacto anterior com os soviéticos e define protocolos a serem seguidos em confrontos.

Mas o código é voluntário e não cobre a questão básica das águas territoriais e de quem pode navegar onde, disse Collin Kohn, especialista em direito marítimo na Escola Rajaratnam de Estudos Internacionais, em Singapura. “É mais como um acordo de cavalheiros”, ele explicou.

Na semana passada Richardson exortou a China a “voltar à adesão constante ao código acordado”, que, para ele, “minimizará as possibilidades de um erro de cálculo que possa levar a um incidente local e uma potencial escalada”.

Concretamente, ele estava pedindo que os navios chineses parem de agir como senhores do mar do Sul da China.

O clima crescente de enfrentamento é intensificado pelo receio dos EUA de que seus navios e tripulações estejam na defensiva, depois de 70 anos de hegemonia inconteste do oceano Pacífico.

Em maio o chefe do Comando Indo-Pacífico dos EUA, almirante Philip S. Davidson, disse ao Congresso que a China controla o mar do Sul da China “em todos os cenários menos o de uma guerra”.

Isso levou a uma revisão das prioridades estratégicas e de gastos da Marinha. Enquanto a administração Trump empurra a Marinha a fazer mais no mar do Sul da China, ela o está fazendo com menos equipamentos, justamente quando a China vem aumentando os dela.

Em 2017 a China tinha 317 navios de guerra e submarinos, comparados com 283 dos americanos. Mesmo com 60% da Marinha americana estando no Pacífico, uma força total menor significa que ela pode se deslocar menos na periferia da Chna.

Uma projeção traçada pelo Pentágono indica que até 2025 as forças armadas chinesas terão 30% mais aviões de combate e quatro porta-aviões, sendo que atualmente têm dois, disse um oficial militar sênior dos EUA. Também se prevê que os chineses tenham significativamente mais destróieres com mísseis guiados, sistemas avançados de guerra submarina e mísseis hipersônicos.

The New York Times

Tradução de Clara Allain

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