Senado dos EUA avança medida para retirar apoio à coalizão saudita na guerra do Iêmen

Voto coloca pressão sobre Trump para punir o país aliado no caso Khashoggi

Washington | Associated Press

O Senado americano aprovou nesta quarta-feira (28) o avanço de uma resolução para encerrar a participação dos EUA na coalizão liderada pela Arábia Saudita que combate rebeldes no Iêmen. A medida será levada à debate geral na casa na próxima semana.

O voto bipartidário (63 a favor e 37 contra) foi um sinal claro para o presidente Donald Trump de que o Senado espera punição à Arábia Saudita pelo seu envolvimento na morte do jornalista Jamal Khashoggi.

Khashoggi foi morto no consulado saudita em Istambul, na Turquia, em 2 de outubro, em um crime que, segundo a CIA (agência de inteligência americana), foi ordenado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman para calar o jornalista, crítico do regime. Trump questionou as descobertas da inteligência americana. 

Secretário de Defesa dos EUA, Jim Mattis, fala com repórteres após visita ao Senado para fazer lobby contra resolução para retirar forças americanas do Iêmen - Thomas Watkins/AFP

Apesar da repercussão internacional do caso, Trump se esforçou para evitar críticas contundentes aos sauditas e deixou claro que o assassinato não seria suficiente para romper relações comerciais e diplomáticas com um importante aliado americano no Oriente Médio.

O presidente tentou evitar o voto até o último minuto. Os secretários de Estado, Mike Pompeo, e Defesa, Jim Mattis foram ao Capitólio para fazer lobby contra a resolução em audiência a portas fechadas.

Pompeo e Mattis adotaram o mesmo discurso de Trump e afirmaram que não há evidências diretas conectando o príncipe saudita ao assassinato. O secretário de Estado disse ainda que o conflito iemenita estaria muito pior sem a participação americana.

“De forma geral, rebaixar os laços com a Arábia Saudita seria um erro grave para a segurança nacional dos EUA e dos nossos aliados”, disse Pompeo. “O reino é uma força poderosa para a estabilidade na região.”

Muitos senadores reclamaram da ausência da diretora da CIA, Gina Haspel, durante a audiência pré-voto. Para o democrata Bom Menendez, de Nova Jersey, ela não compareceu porque teria dito com um alto grau de confiança que o príncipe estava envolvido com o assassinato de Khashoggi. O republicano Lindsey Graham, da Carolina do Sul, disse que insistirá na presença da diretora no próximo debate e ameaçou até mesmo a adiar votos importantes se ela não vier. “Eu não vou deixar isso passar."

O assessor de imprensa da CIA, Timothy Barrett, disse que ninguém impediu a ida de Haspel à audiência e que a agência de inteligência já forneceu todas as informações do caso aos líderes do Senado e de seu comitê de inteligência.

O senador republicano Bob Corker, presidente do Comitê de Relações Exteriores, declarou que era aparente para todos no encontro que o príncipe era responsável pela morte do jornalista.

“Temos um problema aqui. Entendemos que a Arábia Saudita é um aliado, um país semi importante”, afirmou Corker. “Temos também um príncipe que está fora de controle.”

A medida em debate no Senado pede o fim da assistência militar americana na guerra civil que, desde 2015, opões rebeldes houthi, apoiados pelo Irã, e o governo iemenita, apoiado pela coalizão liderada pelos sauditas.

O confronto levou o Iêmen a um desastre humanitário em que se estima mais de 8,4 milhões de pessoas passando fome. Cerca de 57 mil pessoas já morreram na guerra, segundo a base de dados independente do Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED) —a última estimativa da ONU é de 2016. 

O embaixador britânico no Iêmen disse nesta quinta-feira (29) que conversou com representantes dos dois lados do conflito e que eles devem comparecer às conversas de paz previstas para a próxima semana em Estocolmo.

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