Descrição de chapéu Análise Governo Bolsonaro

Sinal de crise maior, retaliação poderá acelerar a escolha de chanceler

Sinalização do Egito sobre mudança de embaixada pode significar ameaça a pecuária brasileira

Duas bandeiras brasileiras e duas israelenses aparecem no alto de um carro
Bandeiras brasileiras e israelenses em frente ao prédio da embaixada brasileira em Tel Aviv - Jack Guez - 28.out.18/AFP
Igor Gielow
São Paulo

Primeira retaliação externa contra o futuro governo Jair Bolsonaro (PSL), o cancelamento da viagem de uma comitiva brasileira ao Egito poderá acelerar a definição sobre quem ocupará o Itamaraty em sua gestão.

A sinalização do Cairo não poderia ser pior. Por estar em paz com Israel há quase 40 anos, o Egito é um dos países com maior tolerância a políticas de aliados que sejam favoráveis aos governos em Tel Aviv —o problema é quando, a exemplo de Bolsonaro, você queira considerar falar de "governos em Jerusalém".

Desde a partilha da Palestina aprovada pela ONU em 1947, nunca implementada e na qual Jerusalém seria internacional, o status da cidade é central nas rixas entre o mundo árabe e o Estado judeu.

Donald Trump foi o primeiro presidente americano a fazer o que estava aprovado pelo Congresso desde os 1980, e moveu sua embaixada de Tel Aviv para lá, reconhecendo seu status de capital. Apenas Guatemala o acompanhou, seguida por Paraguai, que afinal desistiu.

Mas uma coisa é os EUA fazerem isso. Houve protestos quando Trump anunciou a decisão, mas os países não podem prescindir do comércio com os EUA. No caso brasileiro, há estragos a serem feitos.

O mais óbvio é retaliação na compra de proteína animal halal, ou seja, feito sob as rígidas regras de abate e manuseio islâmicos. Nada menos que 45% do frango e 40% dos bovinos vendidos pelo Brasil têm esse selo.

Inicialmente, a equipe de Bolsonaro duvidava que os países muçulmanos fossem de fato retaliar. Esperavam protestos formais. Mas a rápida reação egípcia sinaliza um cenário menos róseo.

Sabe-se pouco do que Bolsonaro e seu time pensam de fato para política externa. A crítica à política Sul-Sul preconizada nos anos do PT é algo batida e, na prática, aquele modus operandi começou a ser aposentado ainda em um governo petista, o de Dilma Rousseff (2011-16).

Do grupo de generais que coordenou a montar seu programa de governo, é possível ouvir ecos do não alinhamento do general Ernesto Geisel, nos anos 1970. Aqui, no caso Israel e em suas referências aos EUA, Bolsonaro parece discordar da abordagem.

No episódio em que foi especulada uma ação para derrubar a ditadura venezuelana com a ajuda da Colômbia, o time de Bolsonaro também viu o quanto a imagem que se projeta pode dar verossimilhança a qualquer proposta.

Outro foco nervoso é a relação com a China, a quem Bolsonaro acusa de estar comprando o país.

Noves fora isso ser verdade em algumas áreas, é difícil conciliar a sua crítica à motivação ideológica da diplomacia com a denúncia dos tentáculos comunistas de Pequim.

Nesse sentido, os chineses morderam primeiro ao fazer publicar um editorial em um diário chapa-branca ameaçando o Brasil, assoprando com visita ao presidente eleito em casa, nesta segunda (5).

Na bolsa de apostas para o cargo de chanceler, os nomes se mantêm. Seja quem for, diplomatas creem que Bolsonaro faria um favor a si mesmo se providenciasse mediação entre o que acontece no seu bunker na Barra da Tijuca e o Itamaraty, para que o segundo grupo já ajude a modular seu discurso às realidades do mundo exterior.

É preciso lembrar que manter acesa uma urna de polêmicas em área de peso relativo diminuto é, também, uma tática diversionista em si.

E Bolsonaro deixa claro aos seus candidatos a chanceler que, se não topa ideologia, parece topar fé na hora dos negócios externos.

Israel é bandeira de evangélicos que apoiam a ele e a Trump, pelo que consideram "verdade bíblica" de sua existência, mas também porque seu estabelecimento é vital para a volta de Cristo à Terra, segundo interpretação da Bíblia.

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