Trump e Xi tentam trégua no G20, mas guerra de modelos irá persistir

Encontro de líderes neste sábado ocorre em meio a disputas entre EUA e China

Boneco inflável de Trump é hasteado em protesto anti-G20 em frente ao Congresso em Buenos Aires  - Alberto Raggio/AFP
Buenos Aires

Os presidentes Donald Trump e Xi Jinping podem até declarar uma trégua, durante o jantar que compartilharão neste sábado (1º) na capital argentina, mas será apenas o final da batalha de Buenos Aires e não o fim da guerra que os dois gigantes da economia mundial estão travando.

Não se trata apenas da guerra comercial, caracterizada pela imposição de pesadas tarifas às importações de bens chineses pelos Estados Unidos e pela retaliação chinesa (mais modesta, mas sempre retaliação).

O fundo da questão é bem amplo: envolve, de parte da China, o esforço para equiparar-se aos Estados Unidos e, pelo lado americano, o fervente empenho em impedi-lo.

Ou, posto mais diretamente: qual dos dois países será o modelo mais relevante neste século 21?

Não é uma impressão isolada: Rana Foroohar, colunista do Financial Times, escreveu na última segunda-feira (26) que “os investidores estão olhando à frente, preocupados com o que será um conflito longo, existencial, entre as duas maiores economias”.

Se é assim, qualquer acordo no jantar entre Trump e Xi Jinping tende a ser “chutar a lata ladeira abaixo”, como disse para o Financial Times Michael Every (Rabobank), usando a expressão inglesa para o brasileiríssimo “empurrar com a barriga”.

 

O que significaria empurrar com a barriga e, com isso, provocar um cessar-fogo na guerra comercial, que é a parte mais saliente do conflito mais amplo? Concessões chinesas em pelo menos três áreas de que os americanos reclamam, a saber:

1 - Reduzir a exigência, hoje absoluta, de transferência de tecnologia para firmas que pretendem se instalar na China. Como são obrigados a associar-se com empresas chinesas, estas se apropriam da tecnologia e dispensam ou minimizam o papel das parceiras.

2 - Reduzir os pesados subsídios concedidos à empresas chinesas, um típico capitalismo de Estado.

3 - Respeitar mais a propriedade intelectual.

O tamanho dessas concessões não está anunciado nem mesmo como especulação. Se forem de fato importantes, talvez façam Trump suspender a duplicação (para 25%) das tarifas aplicadas à praticamente metade das exportações chinesas, medida prevista para janeiro.

Os presidentes da China, Xi Jinping, e dos EUA, Donald Trump, durante encontro em Pequim - Andrew Harnik - 9.nov.2017/AP

As concessões —dependendo, claro, da dimensão delas— podem de fato atrasar o impulso da China para equiparar-se aos Estados Unidos, mas não o eliminarão.

Segundo o mais respeitado conselheiro econômico de Xi Jinping, Shi Yinhong, o líder chinês não tem a menor disposição para comprometer-se com mudanças estruturais que afetem esse modelo de capitalismo de Estado, no qual empresas estatais dominam setores considerados estratégicos e descolam crédito fácil de bancos também estatais.

O lado americano chega para a batalha de Buenos Aires duvidando até de concessões que não chegam a ferir gravemente o modelo.

Documento bem recente do USTr —uma espécie de Ministério do Comércio Exterior dos Estados Unidos— afirma: “A China não alterou fundamentalmente seus atos, políticas e práticas relativas à transferência de tecnologia, propriedade intelectual e inovação. Na verdade, parece ter adotado ações adicionais não razoáveis em meses recentes”.

Entende-se, por isso, que Larry Kudlow, diretor do Conselho Nacional Econômico dos EUA, diga que cabe a Xi “vir com novas ideias para romper o impasse” durante o G20 de Buenos Aires.

Até esta quinta-feira (29), o impasse continuava rigorosamente do mesmo tamanho no complexo de Costa Salguero, em que se reúnem os negociadores do grupo.

Resta ver se seus chefes, no jantar deste sábado, conseguem um cessar-fogo, de modo a permitir que a guerra continue de maneira mais subreptícia e seus tiros não alcancem os demais parceiros.

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