França estima prejuízo de mais de R$ 56 bi por protestos de 'coletes amarelos'

Bloqueios geram perdas para diversos setores, como logística e turismo

Carro queimado em Aubervilliers, subúrbio no norte de Paris - Thomas Samson - 3.dez.2018/AFP
Lucas Neves
Madri

No começo da terceira semana de mobilização dos “coletes amarelos” franceses contra o aumento da taxação sobre combustíveis, associações de empresários e comerciantes, além de governantes locais, faziam a conta nesta segunda (3) dos estragos e do prejuízo causados pelo bloqueio de estradas e centros de compras –mas também pela irrupção de violência, sobretudo em Paris, no último sábado (1º).

Enquanto isso, a pedido do presidente Emmanuel Macron, o primeiro-ministro Edouard Philippe recebia para consultas líderes dos partidos com representação parlamentar, quase todos sugerindo o congelamento ou a total revogação do reajuste do imposto que é o estopim do movimento popular.

A Associação Nacional das Indústrias Alimentícias, por exemplo, projeta perdas de até 13 bilhões de euros (R$ 56 bilhões) no setor se o nó rodoviário em alguns pontos do país não se desfizer logo –os primeiros grandes protestos ocorreram em 17 de novembro.

As transações feitas por ocasião das festas natalinas respondem por 20% do faturamento anual desse segmento, informou o grupo, e o baque pode ser especialmente duro (e talvez incontornável) para pequenos e médios empresários.

De seu lado, as firmas de logística e de transporte de carga avaliam já ter amargado juntas prejuízo de 400 milhões de euros (R$ 1,7 bilhão), o que põe em risco postos de trabalho, segundo as federações respectivas.

Uma das mercadorias que não chegaram a seu destino foi justamente o combustível. Com centrais de distribuição isoladas por manifestantes, uma centena de postos de gasolina estava a seco na segunda, mas o impacto nacional ainda é limitado.

Ainda na segunda, a Prefeitura de Paris estimou que gastará, só para recuperar o mobiliário urbano vandalizado no último sábado, entre 3 milhões (R$ 13 milhões) e 4 milhões de euros (R$ 17,3 milhões).

Os pequenos comerciantes viram sua arrecadação cair entre 20% e 40% nas últimas duas semanas, segundo cifras transmitidas ao Ministério da Economia. Nos grandes supermercados e lojas de departamento, a queda varia entre 15% e 25%, enquanto nos shoppings e galerias comerciais, a clientela encolheu 14%.

Já o turismo sente os efeitos da difusão nacional e internacional das cenas em que a sofisticada avenida Champs Elysées e suas adjacências surgem transfiguradas em praças de guerra. As reservas para as próximas semanas sofreram retração de até 20%, o que repercute no setor de restaurantes, no qual há casos em que 50% dos comensais desapareceram.

Ao longo de toda a segunda, a sede da chefia de governo francesa foi palco de um cortejo de líderes partidários. “As soluções [para a crise sociopolítica] precisam ser vigorosas, audíveis e imediatas”, disse à saída Marine Le Pen, da ultradireitista Reunião Nacional, que afirmou ter recomendado a Philippe a redução das tarifas de luz e água e o aumento do salário mínimo, entre outras medidas.

Na outra ponta do espectro, a França Insubmissa aventou até a possibilidade de uma dissolução da Assembleia Nacional (Câmara dos Deputados) em prol de eleições legislativas antecipadas.

Motoristas de ambulâncias bloqueiam trânsito em frente à Assembleia Nacional, em Paris - Gonzalo Fuentes/Reuters

Os direitistas d’Os Republicanos, por sua vez, pediram, pela voz de seu presidente, Laurent Wauquiez, um referendo popular sobre a política de transição energética do governo (a taxa que é o pomo da atual discórdia deve financiar investimentos em fontes limpas ou menos poluentes).

“Não há mais tempo para debate. É hora de agir e de fazer um gesto de apaziguamento”, disse ele, referindo-se a um possível recuo sobre a imposição da nova taxa.

A agenda governamental para tentar contornar a crise se anuncia cheia nos próximos dias. Na terça (4), o premiê recebe uma delegação de líderes dos “coletes amarelos”, mas ninguém sabe ao certo quem aparecerá em Matignon, dada a falta de hierarquia nas fileiras do movimento e sua distância do establishment partidário e sindical.

Grupos disputam a prerrogativa de representar os mais de 280 mil que foram às ruas e rodovias no último dia 17 (e ainda 130 mil no último sábado) com uma pauta que costura várias declinações de um só clamor: a recomposição do poder de compra do cidadão médio.

Quem assume a dianteira não tarda em ser atacado e mesmo ameaçado em redes sociais, o principal canal de mobilização dos “coletes amarelos”. A desarticulação (ou pulverização) é a um só tempo a força e o ponto vulnerável dos manifestantes, reenergizado periodicamente por novos adeptos, mas até aqui incapaz de delimitar reivindicações e negociar.

Segundo a chefia de polícia de Paris, que deteve 412 pessoas nos atos de sábado, o participante-padrão é um homem com idade entre 30 e 40 anos, vindo do interior do país, onde, cumpre lembrar, a rede de transportes públicos possui inúmeros pontos cegos, o que deixa milhões dependentes de carros particulares –daí o descontentamento com o reajuste da tarifa sobre a gasolina.

Também na terça, o ministro do Interior, Christophe Castaner, se reúne com sindicatos de policiais, que se dizem exauridos e lançaram nos últimos dias o balão de ensaio de uma volta do estado de emergência, como após os atentados de 2015 –o cenário até aqui foi rechaçado pelo governo.

Na quarta (5) e na quinta (6), o Parlamento discute o impasse, e no sábado (8), os “coletes amarelos” esperam arrastar novamente multidões para estradas e avenidas contra a política daquele que chamam de “presidente dos ricos”.

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