Concurso Miss Venezuela faz versão enxuta e coroa jovem nascida em favela

Evento também foi afetado pela crise que atinge o país e tenta superar denúncias de abusos

Isabella Rodriguez, eleita miss Venezuela - Yuri Cortez/AFP
Caracas | AFP

Penteados em troca de publicidade, um novo código de ética. O concurso Miss Venezuela, que realizou nesta quinta (13) sua 65ª edição, tenta se reinventar para superar o estrago da crise econômica, sepultar os escândalos de supostos abusos e abrir as portas para as transexuais.

A vencedora desta edição foi Isabella Rodríguez, 25, morena de 1,78 metro nascida em Petare, a maior favela da Venezuela, em Caracas. A comunidade tem mais de 500 mil moradores. 

"De Petare para o mundo, os sonhos podem sim se tornar realidade", disse Isabella, que representará a Venezuela no concurso Miss Mundo em 2019. 

A opulência é coisa do passado nesse concurso que formou sete ganhadoras do Miss Universo e seis do Miss Mundo. De um estádio de Caracas, com capacidade para 20 mil pessoas, passou para um estúdio da emissora de TV, com capacidade para cerca de 200.

A miss Venezuela Isabella Rodríguez desfila durante o concurso - Xinhua

A organização teve que trabalhar duro para não deixar o concurso morrer, trocando penteados e maquiagem por anúncios no canal e dividindo os custos do vestuário com os estilistas.

"Assim como não temos como realizar um Miss Venezuela opulento, porque o momento do país não o justifica, tampouco queremos ceder espaços. Estamos nos adequando aos recursos que temos", disse Nina Sicilia, produtora do evento, em entrevista à AFP.

As coreografias da cerimônia e o show musical foram feitos por jovens talentos venezuelanos, alguns estreantes na televisão. Antes, o concurso recebia os maiores cantores do país. 

O espetáculo se adapta assim a uma crise de cinco anos de recessão, escassez de produtos básicos e inflação prevista pelo FMI de 10.000.000% para 2019. Uma mistura que obrigou 2,3 milhões de venezuelanos a deixar o país desde 2015.

"As 24 jovens estão sofrendo com os mesmos problemas do resto da sociedade", diz Sicilia, vice-campeã do Miss Venezuela em 1985.

As candidatas também tiveram que se adaptar ao alto índice de criminalidade e ao colapso do sistema de transportes por falta de peças de reposição. 

Como algumas vão para o ensaio de ônibus ou metrô, não é possível programar sessões de fotos antecipadas, e elas devem voltar para casa ainda na luz do dia ou dividir o carro com seus companheiras, diz Sicilia.

Competidoras se apresentam durante o Miss Venezuela, em Caracas - Yuri Cortez/AFP

Como uma metáfora do concurso, uma das candidatas tropeçou durante a apresentação para a imprensa, mas se levantou e seguiu em frente, embora não tenha conseguido evitar as lágrimas.

O concurso também busca se recuperar de um escândalo após ter sido alvo de denúncias de abusos e de prostituição. Em março, cerca de dez ex-misses fizeram acusações de vínculos com homens poderosos acusados de corrupção próximos do governo venezuelano.

Um novo código de ética proíbe que as jovens recebam financiamento externo ou que sua candidatura seja proposta por terceiros. As inscrições são feitas em uma formulário online.

"O vestuário e todo o resto fica por conta do Miss Venezuela", lembra Sicilia.

Após 40 anos no evento, Osmel Sousa, conhecido como o "czar da beleza", renunciou em fevereiro, após sofrer várias acusações. Ele nega qualquer conduta imprópria.

Para evitar imprevistos, o concurso foi "despersonalizado". "Não pode existir nada acima da organização", diz a produtora. 

Do esquema tradicional foi mantido o zelo que impede a imprensa de abordar as participantes. A equipe do canal mantém os microfones afastados.

Sicilia defende os concursos de beleza contra as críticas de que são uma afronta à dignidade feminina. "A mulher tem que entender que só com sua voz é capaz de mudar o mundo", reflete.

Patrimônio da cultura popular venezuelana, o evento está disposto a abrir suas portas para as transexuais, um tema forte desde a participação da espanhola Ángela Ponce no Miss Universo 2018.

"Fui convencida por Ángela Ponce, porque conversei com ela, fiquei tocada com sua força", diz Sicilia, esclarecendo que ainda não será possível fazer isso, já que a legislação venezuelana impede que uma transexual assuma a identidade de mulher.

Apesar das dificuldades, ela vê no Miss Venezuela "um oásis de alegria". "É como o beisebol, como a "hallaca" (prato natalino), como o "cuatro" (instrumento musical), como uma gaita. É nossa essência".

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