Descrição de chapéu The Washington Post Governo Trump

Criança imigrante de 7 anos morre sob custódia de agentes da fronteira dos EUA

Menina guatemalteca teve desidratação após cruzar ilegalmente a fronteira ao lado de seu pai

Nick Miroff Robert Moore
The Washington Post

Uma menina guatemalteca de sete anos morreu de desidratação e choque séptico depois de ser detida pela Patrulha de Fronteira dos EUA após atravessar ilegalmente a fronteira entre o país e o México, anunciou nesta quinta (13) a Agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP). 

A criança e seu pai faziam parte de um grande grupo de imigrantes que foi detido em um trecho remoto do deserto do estado americano do Novo México.   

A morte da menina deve intensificar as críticas às condições de detenção nas estações da Patrulha de Fronteira e nas instalações da CBP, que não estão equipadas para lidar com o número cada vez maior de famílias que buscam asilo nos Estados Unidos.

Imigrantes se entregam para a Patrulha de Fronteira em Mission, no Texas; aumentou o número de famílias detidas por entrarem ilegalmente nos EUA
Imigrantes se entregam para a Patrulha de Fronteira em Mission, no Texas; aumentou o número de famílias detidas por entrarem ilegalmente nos EUA - John Moore - 7.nov.18/Getty Images/AFP

De acordo com registros da CBP, a menina e seu pai foram detidos às 22h do dia 6 (madrugada do dia 7 no Brasil), ao sul de Lordsburg, Novo México, como parte de um grupo de 163 pessoas que abordaram agentes americanos americanos para se entregar.

Mais de oito horas depois, às 6h25, ela começou a sofrer convulsões, de acordo com os registros da CBP. Em comunicado, a agência disse que uma equipe de emergência chegou pouco depois, mediu a temperatura de seu corpo — 41ºC — e constatou que "ela aparentemente não comia ou bebia água há diversos dias".

Depois de ser transportada de helicóptero ao Hospital Infantil Providence, em El Paso, a menina sofreu uma parada cardíaca e chegou a ser ressuscitada, de acordo com a CBP. "No entanto, a criança não se recuperou e morreu no hospital menos de 24 horas depois da internação", afirmou a nota. 

A agência não divulgou o nome da menina ou o de seu pai, que continua em El Paso esperando por uma reunião com funcionários do consulado guatemalteco, de acordo com a CBP. Autoridades informaram que estão investigando o incidente para determinar se os procedimentos utilizados foram adequados. 

Os migrantes detidos nas estações da Patrulha da Fronteira em geral recebem comida e água, e após a revelação do caso não estava claro ainda se ela tinha sido alimentada e se tinha passado por um exame médico antes que as convulsões começassem.

"Nossas mais sinceras condolências à família da criança", disse Andrew Meehan, porta-voz da CBP, em declaração ao jornal The Washington Post.

"Os agentes da Patrulha de Fronteira tomaram todas as medidas possíveis para salvar a vida da menina nas circunstâncias mais difíceis", disse Meehan. "Somos pais e mães, irmãos e irmãs, e por isso estamos cientes da dor causada pela perda de uma criança".

A União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) atribuiu a morte da menina à "falta de prestação de contas e a uma cultura de crueldade na CBP". A organização acrescentou que "o fato de que tenha demorado uma semana para que esses fatos viessem à luz mostra a necessidade de transparência na CBP. Apelamos por uma investigação rigorosa sobre como essa tragédia aconteceu e por reformas sérias para prevenir futuras mortes", afirmou Cynthia Pompa, gerente de operações do ACLU Border Rights Center, em comunicado.

Ainda que nas últimas semanas as atenções tenham se concentrado nas caravanas de migrantes que estão chegando à fronteira entre as cidades de Tijuana e San Diego, na Califórnia, um grande número de centro-americanos continuam a tentar entrar nos EUA pelas rotas no Texas, Arizona e Novo México.

As caravanas às vezes passam alguns dias em casas oferecidas pelos contrabandistas de pessoas, ou atravessam a fronteira a pé em áreas remotas, às quais chegam carregando pouca comida e água.

As detenções de migrantes que viajam em grupos familiares dispararam este ano, e funcionários do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos dizem que decisões judiciais que limitam sua capacidade para manter as famílias em detenção resultaram em um sistema de "captura e liberação" que encoraja os migrantes a trazerem seus filhos com eles, como um escudo contra detenção e deportação —adultos sozinhos podem ser mantidos presos com mais facilidade. 

Em novembro, agentes da Patrulha de Fronteira detiveram o recorde de 25.172 "membros de unidades familiares" na fronteira sudoeste dos Estados Unidos —entre os quais 11.849 no setor de patrulha do vale do rio Grande, no sul do Texas, e 6.434 no setor de El Paso, que cobre o extremo oeste do Texas e o Novo México.

Os migrantes que viajam como parte de grupos familiares respondem por 58% do total de pessoas detidas no mês passado pela Patrulha de Fronteira.

Na terça-feira, Kevin McAleenan, comissário da CBP, disse em depoimento ao comitê judiciário do Senado que as celas nas quais sua agência mantêm os detidos são"incompatíveis" com a nova realidade de pais trazendo seus filhos para o lado americano da fronteira, onde eles se entregam em grupo aos agentes de fronteira e solicitam asilo.

"Nossas estações de patrulha de fronteira foram construídas décadas atrás, com celas destinadas a homens adultos desacompanhados, e não a famílias com crianças", ele disse aos legisladores.

A pequena estação da Patrulha de Fronteira em Lordsburg recebeu um grupo de 227 migrantes na quinta-feira, disse a CBP, depois de receber 123 deles na quarta-feira. Os dois grupos —muito grandes, sob os padrões da agência— consistiam em sua maioria de famílias com crianças.

A CBP informou que estava aguardando a autópsia da menina, mas que era provável que isso demorasse algumas semanas. O diagnóstico inicial dos médicos do hospital Providence identificava a causa de morte como choque séptico, febre e desidratação, informou a CBP.

"Devido ao direito do paciente à confidencialidade, o hospital não pode oferecer informações sobre pacientes e encaminha quaisquer questões sobre a paciente à CBP", disse Marina Monsisvais, porta-voz do hospital.


 

Tradução de Paulo Migliacci

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.