Egito restringe venda de coletes amarelos para evitar atos semelhantes aos da França

País teme ressurgimento de protestos nos sete anos da Primavera Árabe

Cairo | Associated Press

As autoridades egípcias restringiram, sem alarde, a venda de coletes amarelos no país, temendo que opositores do governo possam se inspirar no movimento que tem levado milhares às ruas na França e fazer grandes manifestações no aniversário de sete anos da Primavera Árabe, em janeiro.

Segundo fontes das forças de segurança e vendedores ouvidos pela agência de notícias Associated Press, o governo instruiu os vendedores de equipamentos de proteção a não oferecer os coletes amarelos para compradores que entrarem na loja e restringir o comércio da peça para companhias que tenham permissão da polícia para a compra.

As instruções foram passadas por agentes da polícia em uma reunião com importadores de produtos de segurança para a indústria e vendedores, no Cairo, nesta semana. Os comerciantes foram alertados que quem violar as regras será punido, disseram as autoridades egípcias, sem dar mais detalhes.

Manifestante com colete amarelo participa de confronto com a polícia perto da Champs Elysees, em Paris, no sábado passado (8) - Zakaria Abdelkafi-08.dez.2018/AFP

A Associated Press procurou seis lojas em uma região do Cairo que concentra este tipo de comércio, e todas disseram não vender mais a peça. Dois lojistas afirmaram apenas que não vendiam mais o colete e outros quatro explicaram seguir ordens da polícia. “Eles parecem não querer que as pessoas façam como na França", disse um vendedor.

A restrição, segundo a agência, ficará em vigor até o fim de janeiro. Procurado, o Ministério do Interior egípcio recusou-se a comentar o assunto.

Nos últimos dois anos, as autoridades egípcias pressionaram fortemente qualquer oposição, reforçando a presença de policiais e soldados em todo o país para impedir quaisquer eventos para comemorar o aniversário do início da revolta de 2011, em 25 de janeiro, que culminou com a queda de Hosni Mubarak.

Os coletes amarelos usados ​​pelos manifestantes franceses se tornaram o símbolo da onda de protestos que começou em novembro contra o aumento das taxas de combustível, mas se multiplicou para incluir uma série de exigências, incluindo a renúncia do presidente Emmanuel Macron. A peça é vestimenta obrigatória dos motoristas franceses em caso de acidente.

A cobertura da mídia egípcia sobre os distúrbios enfatizou os motins, saques e incêndios criminosos que se seguiram em Paris, ecoando o refrão frequente do presidente Abdel-Fattah el-Sissi de que a ação nas ruas leva ao caos.

O Egito praticamente proibiu os protestos no país. O general El Sissi alega que a mão de ferro contra os protestos é necessária para manter a estabilidade e cita os exemplos das guerras civis na Síria e no Iêmem. 

Desde que El Sissi assumiu o cargo, em 2014, não houve protestos significativos no país. Ainda assim, o governo está constantemente preocupado, especialmente porque os protestos de 2011 eclodiram como parte de uma reação em cadeia, inspirada pela revolta da Primavera Árabe na Tunísia.

O advogado de direitos humanos Gamal Eid disse que sua Rede Árabe para Informação sobre Direitos Humanos, com sede no Cairo, viu um recente aumento nos pequenos protestos sociais, em especial contra a privatização de empresas estatais.

"O governo daqui está falando sobre suas conquistas, mas teme uma reação porque as pessoas comuns ainda não se beneficiaram com os mega projetos em andamento", disse Eid, que é proibido pelas autoridades de viajar e teve seu site bloqueado pelo governo.

Negad Borai, outro advogado especializado em direitos humanos, disse que o governo pode atrasar os aumentos de preços esperados no próximo ano "para evitar protestos inspirados pelo que está acontecendo na França".

El Sissi liderou a retirada militar de 2013 de um presidente eleito livremente. Ele foi eleito em 2014 e, no início deste ano, ganhou um segundo mandato, praticamente sem oposição.

Ele supervisionou a maior repressão vista no Egito, prendendo milhares de islamitas e ativistas pró-democracia, revertendo as liberdades conquistadas na insurreição de 2011, silenciando os críticos e colocando regras draconianas sobre grupos de direitos humanos.  

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