Fraude após morte de indígena abre crise na chefia da polícia do Chile

Episódio é o coroamento de sequência de escândalos envolvendo os carabineros

Policiais atuam para dispersar protesto em Santiago contra a morte do mapuche Camilo Catrillanca - Jorge Villegas/Xinhua
Clóvis Rossi
São Paulo

A descoberta de uma fraude montada pelos carabineros —a polícia militar chilena— abriu uma crise na instituição que acabou salpicando o presidente Sebastián Piñera.

Um grupo de operações especiais da corporação matou um jovem mapuche, etnia indígena que tem secular história de resistência, primeiro aos conquistadores espanhóis e, mais recentemente, em defesa do território que reivindicam, o Wallmapu, localizado na região dos Andes.

O assassinato foi em novembro, mas só agora surgiu um vídeo que evidenciava ter sido falsa a montagem dos policiais que tentaram demonstrar que houvera confronto entre carabineros e mapuches, do qual teria resultado a morte de Camilo Catrillanca.

Piñera convocou nesta quinta (20) ao Palácio de la Moneda o general diretor dos carabineros, Hermes Soto, para pedir que renunciasse (o chefe dos carabineros tem mandato de quatro anos e não pode ser removido, de acordo com a Constituição).

Soto, no entanto, não aceitou o pedido de Piñera, que anunciou, então, que iniciará os “procedimentos” para afastá-lo. O “procedimento” é, primeiro, emitir decreto presidencial fundamentando o motivo do afastamento. Depois, o decreto passa para análise da Câmara e do Senado (está prevista para esta sexta, 21, uma sessão do Senado).

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, durante discurso no Palacio de la Moneda - Jorge Villegas - 12.dez.2018/Xinhua

Todo o episódio é o coroamento de uma sequência de escândalos envolvendo os carabineros, instituição que gozava de prestígio superior ao de qualquer polícia latino-americana.

Consequência inevitável: a aprovação ao trabalho dos carabineros caiu de 72% em junho para 40% agora, após a morte do jovem mapuche

Mas é inevitável que respingue também no presidente e em seu homem de confiança, Andrés Chadwick, ministro do Interior e de Segurança Pública.

Tanto Piñera como Chadwick respaldaram a princípio o general Soto, até que a situação do chefe policial se tornou insustentável. A resistência dele a deixar o cargo manterá o desgaste por alguns dias, até se completar o processo para sua destituição.

Mesmo depois de sua saída, o desgaste fica: o combate à criminalidade foi uma das principais bandeiras de campanha de Piñera.

O episódio acabou provocando danos à imagem do sobrinho do político chileno mais próximo do clã Bolsonaro, o candidato presidencial José Antonio Kast, que ficou em quarto lugar no pleito que elegeu Piñera. O sobrinho dele, Felipe Kast, difundiu o vídeo montado em que se simulava o confronto que resultaria na morte do mapuche.

Felipe Kast, de extrema direita, como o tio, pediu desculpas nesta quinta-feira: “Parece-me necessário pedir desculpas porque cometi um erro ao ter acreditado na versão inicial dos carabineros”.

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