Descrição de chapéu The Washington Post

George Bush ajudou o Partido Republicano a se aproximar dos evangélicos

Embora fosse devoto da Igreja Episcopal, presidente se aliou a grupos cristãos conservadores

Lori Johnston

George H.W. Bush, que morreu na sexta-feira (30), foi episcopaliano durante toda a vida, parte da aristocracia do cristianismo fundador dos Estados Unidos. Mas, como candidato presidencial, fez parte da abertura republicana ao movimento evangélico, algo que transformou a paisagem nacional.

Uma missão de bombardeio aéreo que o levou a cair no oceano Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial e a morte de sua filha menor de leucemia foram alguns dos momentos em que ele disse que recorreu a Deus e à oração.

Em sua infância, Bush frequentou a igreja Christ Episcopal, em Greenwich, Connecticut. Seu pai, Prescott Bush, foi senador republicano do Connecticut. A mãe do futuro presidente, Dorothy Walker, costumava ler para sua família trechos do “Livro Episcopal de Orações Comuns”.

“Ele era episcopaliano por tradição. Sua mãe era extremamente devota, ela lia todos os livros. Ele amava sua mãe e por isso amava a tradição”, disse ao jornal The Washington Post em abril Doug Wead, que foi assistente especial do presidente e co-escreveu com ele o livro “George Bush, Man of Integrity”, publicado em 1988.

Muitos casamentos da família Bush são celebrados na igreja St. Ann’s Episcopal, em Kennebunkport, Maine. O reverendo Billy Graham também foi convidado a pregar na igreja, como ele relatou em seu livro “Just As I Am”.

Em reportagem do Washington Post de 1988, um primo de George H. W. Bush, George Herbert Walker III, teria dito que o presidente praticava “um cristianismo feliz, raramente enfatizando o sofrimento ou o pecado. Era um cristianismo otimista, do tipo ‘cumpra o seu dever’, ‘é um mundo maravilhoso lá fora’.”

Ao longo de sua vida Bush foi indagado sobre sua fé em Deus. Ele relacionava algumas de suas recordações de acontecimentos históricos à oração e a Deus. No dia 7 de dezembro de 1941 ele ainda era estudante da Phillips Academy, colégio interno de base calvinista, em Andover, Massachusetts.

“Tínhamos ido à igreja, ao serviço religioso obrigatório. Saímos e estávamos atravessando o campus quando alguém disse que Pearl Harbor tinha sido bombardeado”, ele contou à CNN em 2012.

Um dos momentos de consciência da fé que Bush citava com mais frequência ocorreu após uma missão de bombardeio aéreo em setembro de 1944. Quando seu avião sofreu uma avaria, Bush, aviador naval, saltou de paraquedas no oceano Pacífico. Ele teria se perguntado: “Por que fui poupado? O que Deus tinha reservado para mim?”

“Bush sentiu sem sombra de dúvida que viveu um momento espiritual na Segunda Guerra Mundial”, disse Wead. “Alguma coisa lhe aconteceu lá, e ele teve várias outras experiências ao longo da vida. Quando lhe perguntavam se ele tinha renascido, ele dizia ‘não houve um momento específico acima de todos os outros que eu possa dizer que foi quando tudo mudou para mim, houve vários. E aquele resgate na Segunda Guerra Mundial foi um desses momentos.’”

Bush e sua esposa, Barbara, se casaram em 1945 na Primeira Igreja Presbiteriana, em Rye, Nova York, a cidade natal de Barbara. Quando se mudaram para o Texas, no início da década de 1950, inicialmente frequentaram uma igreja presbiteriana, segundo o livro “Religion and the Oval Office”, de Gary S. Smith.

Segundo o livro, Bush disse que a fé dele e de Barbara “realmente nos amparou” quando sua filha Robin morreu de leucemia aos 3 anos de idade, em 1953.

De acordo com o Centro Pew de Pesquisas, Bush foi um dos 11 presidentes americanos que se identificaram como episcopalianos —denominação que tem origem anglicana. Em Houston, para onde ele e Barbara Bush se mudaram em 1960, eles frequentavam a Igreja Episcopal St. Martin’s, onde foi realizado o funeral de Barbara na primavera deste ano.

Bush começou a falar publicamente sobre suas crenças religiosas quando se tornou candidato presidencial. Ele precisou falar do movimento evangélico crescente, diz Wead, e, quando ele era vice-presidente, a discussão era sobre como ele poderia formar um relacionamento com esse movimento e demonstrar respeito por ele.

“Não demorei a descobrir que, na minha opinião, ele estava em uma jornada espiritual”, diz Wead. “Em um primeiro momento, pareceu que tudo era política. Mas depois comecei a perceber que ele estava definindo suas próprias crenças, burilando-as, e ouvindo o que acreditavam outras pessoas e essas outras tradições, filosofias e teologias.”

Em 1988, quando era candidato a presidente, Bush concorreu com o candidato democrata Michael Dukakis, que defendia o direito ao aborto.

No segundo debate presidencial, em 13 de outubro de 1988, Bush disse: “Considero a vida humana muito, muito preciosa. E, vejam bem, esta não foi uma decisão fácil para mim. Sei que outros discordam dela. Mas quando eu estava naquela igrejinha do outro lado do rio em relação a Washington e vi nosso neto batizado em nossa religião, fiquei muito feliz mesmo porque a mãe não abortou aquele filho e o ofereceu para adoção (seu filho Marvin Bush e a esposa dele, Margaret Conway, adotaram duas crianças). Então estou partindo disso. E é algo pessoal. Não ataco [Michael Dukakis] com relação a essa questão, nem critico outros com relação a isso. Mas é assim que eu, George Bush, penso sobre isso.”

A família Bush tem posições tanto conservadoras quanto liberais sobre a saúde reprodutiva e o controle de natalidade, mas Ronald M. Green, professor emérito da disciplina Estudo de Ética e Valores Humanos no Dartmouth College, diz que a família Bush liderou, em certa medida, o movimento de republicanos patrícios que, partindo do pensamento centrista, aproximou-se da oposição cristã conservadora em relação ao controle de natalidade, aborto e pesquisas sobre saúde reprodutiva, como as pesquisas sobre o uso de células-tronco ou tecido fetal em transplantes.

“G.W.H. iniciou esse movimento, e seus filhos politicamente ativos o acentuaram”, diz Green, que há 28 anos acompanha as posições da família Bush sobre questões de bioética.

O livro de Gary Smith “Religion in the Oval Office” destaca que Bush elogiava o legado judaico-cristão dos EUA e enxergava a família e a religião como o “norte moral” da América.

Quando aceitou a candidatura presidencial republicana, em 1988, o discurso que proferiu para a Convenção Nacional Republicana incluiu os seguintes comentários: “Sou guiado por certas tradições. Uma delas reza que Deus existe, que Ele é bom e que Seu amor, embora seja dado gratuitamente, tem um custo autoimposto: precisamos tratar uns aos outros com bondade”.

Durante sua Presidência, de 1989 a 1993, Bush frequentou a Igreja Episcopal St. John’s, em Washington. Em seu discurso de posse, em 1989, ele disse que seu primeiro ato como 41º presidente do país seria orar.

“Peço a vocês que abaixem a cabeça”, ele disse. “Pai Nosso no Céu, abaixamos a cabeça e lhe agradecemos por Vosso amor. Agradecemos pela paz deste dia e pela fé compartilhada que torna provável sua continuidade. Fazei-nos fortes para fazer Vosso trabalho, dispostos a ouvir Vossa vontade e inscrever em nossos corações as seguintes palavras: ‘Usem o poder para ajudar as pessoas’. Pois o poder nos é dado não para promovermos nossos próprios objetivos, nem para criar grande ostentação no mundo, nem para engrandecer um nome. Existe apenas uma finalidade justa do poder, que é servir ao povo. Ajude-nos a lembrar, Senhor. Amém.”

Ele concluiu seu discurso dizendo: “Não temo o que vem pela frente. Pois nossos problemas são grandes, mas nosso coração é maior. Nossos desafios são grandes, mas nossa vontade é mais forte. E se nossas falhas são infinitas, o amor de Deus é verdadeiramente ilimitado.”

Bush mencionou orações em 220 discursos e proclamações que fez enquanto presidente, escreveu Smith, também autor de "Faith and the Presidency: From George Washington to George W. Bush" e membro do Centro de Visão e Valores do Grove City College, uma faculdade cristã de artes liberais na Pensilvânia.

Em seu discurso do Dia de Ação de Graças em 1990, Bush falou do legado religioso da nação, dizendo: “Este experimento grandioso chamado América não passa de uma manifestação recente do eterno anseio de liberdade que tem a humanidade. Apenas com liberdade poderemos realizar a maior esperança da humanidade: a paz. Desde a sabedoria de Salomão até a maravilha do Sermão do Monte, das profecias de Isaías aos ensinamentos do islã, as escrituras sagradas que são nosso legado comum falam frequentemente das muitas bênçãos concedidas à humanidade, falam frequentemente do amor pela liberdade, falam frequentemente da causa da paz.”

Mas outros discursos foram memoráveis pelos tropeços de Bush em relação ao assunto da fé.

John E. Booty, professor de Estudos Anglicanos na Universidade do Sul em Tennessee, disse ao Washington Post em 1988 que em 1982, um discurso que Bush fez na conferência trienal geral da Igreja Episcopal foi “um desastre”, já que ele aproveitou o momento para defender a política de armas da administração Reagan.

A Presidência de Bush abrangeu a queda do Muro de Berlim, a queda da União Soviética e a primeira Guerra do Golfo.

Bush disse à CNN que sabia que os EUA travariam guerra contra o Iraque logo após Saddam Hussein invadir o Kuait, e ele teve um encontro com o bispo Edmond Lee Browning, presidente da Igreja Episcopal.

Bush descreveu à CNN o seguinte diálogo com o bispo: “Ele falou: ‘Sr. Presidente, o senhor não deve recorrer à força. Isso seria imoral.’ Eu respondi: ‘Ed, lamento dizer que eu encaro a coisa sob outra ótica. Não acho que seja imoral.’ Eu lhe disse: ‘Veja o que eu acho imoral’. Mostrei a ele um relatório da Anistia Internacional sobre as brutalidade cometidas contra os jovens iraquianos. Quero dizer que há essa brutalidade aberta e que está muito claro que é errada.”

Segundo seu livro “All the Best, George Bush: My Life in Letters and Other Writings”, durante a eleição de seu filho George W. Bush em 2000, George H.W. Bush escreveu em email a seu filho Jeb Bush, governador da Flórida: “Espero que Deus nos abençoe com uma vitória na Flórida e em todo o país, mas aconteça o que acontecer nossa família será forte e sólida”.




 

The Washington Post

Tradução de Clara Allain

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