Descrição de chapéu The Washington Post

Lobistas apoiados por sauditas pagaram 500 diárias no hotel de Trump em Washington

Os lobistas gastaram ao todo mais de US$ 270 mil no hotel após eleição

David A. Fahrenthold e Jonathan O’Connell
Washington | The Washington Post

Lobistas representando o governo saudita reservaram blocos de quartos no hotel do presidente Donald Trump em Washington menos de um mês após a sua eleição em 2016. Foram cerca de 500 diárias no hotel de luxo em apenas três meses, segundo organizadores das viagens e documentos aos quais o jornal Washington Post teve acesso.

Na época, os lobistas reservavam grande número de quartos em hotéis de Washington como parte de uma campanha pouco ortodoxa: eles ofereciam uma viagem gratuita a veteranos militares americanos, que depois eram enviados ao Capitólio para fazer lobby contra uma lei à qual os sauditas se opunham. A informação é de veteranos e organizadores.

Inicialmente os lobistas sauditas alojaram os veteranos no norte da Virgínia. Então, em dezembro de 2016, mudaram a maior parte de suas reservas para o Trump International Hotel, no centro de Washington. Os lobistas gastaram ao todo mais de US$ 270 mil para hospedar seis grupos de veteranos visitantes no hotel de Trump, que ainda pertence ao presidente.

O Hotel Internacional Trump, em Washington - Alex Brandon-21.dez.2016/Associated Press

Essas reservas motivaram a abertura de duas ações judiciais federais alegando que Trump violou a Constituição ao receber pagamentos impróprios de governos estrangeiros.

Durante esse período, revelam documentos, o custo médio de uma diária no hotel era US$768. Os lobistas que organizaram as viagens dos veteranos disseram ter escolhido o hotel de Trump apenas porque ele ofereceu um desconto e tinha quartos disponíveis, não para favorecer Trump.

“De maneira alguma”, disse Michael Gibson, agente político residente em Maryland que ajudou a organizar as viagens. “Não teve nada a ver com isso.”

Alguns dos veteranos que se hospedaram no hotel de Trump disseram não ter sido informados sobre o papel dos sauditas nas viagens. Agora eles se perguntam se foram utilizados duplamente: não apenas para transmitir a mensagem de outros ao Congresso, mas também para beneficiar a Organização Trump.

“Fez todo o sentido do mundo quando soubemos que os sauditas pagaram os custos”, disse Henry Garcia, veterano da Marinha, residente em San Antonio, que fez três viagens a Washington. Segundo ele, os organizadores nunca mencionaram a Arábia Saudita quando o convidaram.

Garcia achou que as viagens tinham sido organizadas por outros veteranos, mas isso o deixou surpreso porque esse grupo gastava dinheiro livremente, diferentemente de todo grupo de veteranos com que ele já trabalhara. Havia quartos particulares nos hotéis, jantares gratuitos, consumo livre no bar. E então, disse Garcia, um dos organizadores que estava tomando champanhe do minibar mencionou um príncipe saudita.

“Falei ‘ah, quer dizer que fomos usados para dar dinheiro a Trump’”, disse Garcia.

Conforme revelam formulários de informações sobre lobistas, a firma de Washington Qorvis/MSLGroup, que há anos representa o governo saudita nos Estados Unidos, pagou aos organizadores das viagens de veteranos. A firma se negou a dar declarações.

A embaixada saudita não respondeu a perguntas sobre o tema desta reportagem. Executivos do hotel de Trump, exigindo anonimato para falar de seus clientes, disseram que não tinham conhecimento na época que a conta estava sendo paga pela Arábia Saudita. Eles se negaram a comentar sobre as tarifas pagas pelos hóspedes.

A existência das estadias financiadas pela Arábia Saudita no hotel de Trump foi noticiada no ano passado por vários veículos de imprensa. Mas uma revisão de e-mails, agendas e formulários de divulgação de lobistas sauditas, além de entrevistas conduzidas neste outono com duas dúzias de veteranos, forneceram muito mais detalhes do que havia antes sobre a extensão das viagens e as interações dos organizadores com os militares veteranos.

A revisão indicou um total de seis viagens. Após a primeira visita, os grupos cresceram e sua estadia em Washington se prolongou. Com base em agendas e documentos de planejamento entregues aos veteranos, além de conversas com os organizadores, o “Washington Post” estimou que o governo saudita pagou por mais de 500 diárias em hotéis de Trump.

Essas transações viraram munição para os autores de dois processos judiciais alegando que Trump violou a cláusula de emolumentos estrangeiros da Constituição, pelo fato de ter recebido pagamentos de governos estrangeiros. Na terça-feira (4) os procuradores federais de Maryland e de Washington enviaram intimações a 13 entidades comerciais da Organização Trump e 18 empresas concorrentes, buscando principalmente documentos que registrem os gastos estrangeiros no hotel Trump.

No início deste ano a Organização Trump doou cerca de US$151 mil ao Tesouro americano, dizendo que esse valor representou o lucro que auferiu com governos estrangeiros, sem explicar como calculou essa cifra. Defendendo Trump nas ações judiciais, o Departamento de Justiça disse que a Constituição não proíbe transações comerciais rotineiras.

Em 2019 essas transações serão submetidas a pente-fino pela nova maioria democrata na Câmara. Democratas disseram que, depois do assassinato do colunista do “Washington Post” Jamal Khashoggi no consulado saudita de Istambul, querem entender os vínculos comerciais de Trump com o governo saudita.

“Países estrangeiros entendem que, se movimentarem as empresas do presidente, podem conseguir favores dele”, disse o deputado democrata Adam Schiff, que vai comandar o Comitê de Inteligência da Câmara no ano que vem. “Isso representa um problema real, na medida em que pode funcionar.” A Casa Branca se negou a comentar.

Quando essas visitas de veteranos começaram, no final de 2016, o governo saudita estava perdendo pontos em Washington.

No final de setembro o Congresso havia passado por cima de um veto do presidente Barack Obama e aprovado uma lei à qual os sauditas se opunham terminantemente: a lei de Justiça Contra os Patrocinadores de Terrorismo, conhecida pela sigla Jasta. Apoiada por famílias de vítimas do 11 de setembro, a nova lei abria a porta para processos litigiosos caros acusando o governo saudita de carregar parte da culpa pelos ataques. Dos 19 sequestradores dos aviões envolvidos nos ataques, 15 eram cidadãos sauditas.

Os sauditas reagiram tentando algo novo. Para combater um dos grupos mais respeitados da América –as famílias do 11 de setembro--, eles recrutaram aliados de outro. Saíram à procura de militares veteranos de guerra.

“Bem-vindo de volta, irmão!”, escreveu Jason Johns, veterano do Exército e lobista em Wisconsin, a vários veteranos em dezembro de 2016, conforme e-mails idênticos que dois veteranos compartilharam com o “Post”. Johns convidou os veteranos, que não conhecia pessoalmente, para uma viagem para “invadir o Capitólio” e fazer lobby contra a lei Jasta.

“Vamos nos hospedar no Trump International Hotel, com todas as despesas pagas”, ele escreveu nos e-mails. Sua assinatura nas mensagens dizia que ele era do “Grupo de Defesa de Veteranos N.M.L.B.”, que é a firma de advocacia de Johns sediada em Madison, Wisconsin.

Segundo documentos registrados com o Departamento de Justiça, Johns estava, na realidade, atuando em prol do governo saudita. A Qorvis, empresa que fazia lobby pelos sauditas havia muito tempo, estava pagando Michael Gibson, que por sua vez estava pagando Johns.

A primeira viagem organizada por Johns, em novembro de 2016, foi pequena e curta. Cerca de 22 veteranos passaram duas noites no hotel Westin em Crystal City, Virginia –na outra margem do rio Potomac, separados do Capitólio por 6,5 km e um grande engarrafamento. Gibson, que ajudou a organizar as viagens, contou que outra viagem foi promovida no mesmo mês, também com estadias no Westin.

Então, em 2 de dezembro de 2016, Gibson disse que a Qorvis o instruiu a organizar mais uma visita em cima da hora; os convidados deveriam chegar em poucos dias. Não havia mais quartos disponíveis no Westin, nem em muitos outros hotéis para os quais Gibson telefonou.

“Então resolvi da minha própria cabeça ligar para o hotel de Trump”, ele disse. “Falei que estava representando um cliente, um grupo de veteranos, e perguntei se eles ofereciam descontos para veteranos. E eles disseram que sim, tinham leitos disponíveis.” Além disso, ofereceram tarifas mais baixas.

Gibson disse que depois dessa viagem a Qorvis lhe pediu para programar outras para 2017. A firma não o mandou voltar a usar o hotel de Trump. Mas a primeira viagem tinha ido bem, então ele optou por continuar.

Houve cinco outras viagens ao todo em janeiro e fevereiro, segundo documentos e entrevistas. O número de participantes chegou a 50 em uma das viagens no final de janeiro, e as visitas duraram três noites, segundo as agendas enviadas aos veteranos. Essa também foi uma decisão dos clientes. Gibson disse que não contou a nenhum funcionário do hotel de Trump que os sauditas estavam pagando a conta: “Paguei tudo com o cartão de crédito corporativo de meu cliente, a Qorvis, e disse que estava trazendo um grupo de veteranos para trabalharem sobre legislação.”

Alguns veteranos que participaram das viagens se disseram surpresos com algumas coisas.

Uma dessas coisas foi quanto dinheiro o grupo parecia gastar.

“Já participamos de centenas de eventos de veteranos. Ficamos em hotéis Holiday Inn, comemos cream crackers e tomamos limonada. E lá estávamos em um hotel que custa US$500 por noite”, comentou Dan Cord, um marine veterano. “Eu nunca tinha visto nada igual. Eles nos mandavam beber por conta deles.”

Cada viagem incluía um ou às vezes dois jantares em um salão de banquetes do hotel Trump. Os veteranos disseram que as bebidas geralmente eram gratuitas e que o bar aberto geralmente deveria acabar em determinado horário, mas que Johns, em um gesto teatral, muitas vezes esticava o horário por mais uma hora.

Outra coisa que surpreendeu os veteranos foi que seu grupo parecia não ser hábil em fazer lobby.

Os veteranos contaram que lhes disseram que a nova lei poderia provocar retaliações de outros países e poderia levar militares veteranos americanos a ser processados no exterior pelas ações de suas unidades na guerra. Eles receberam alguns documentos contendo informações factuais, incluindo um em cujo pé, em letra de tamanho pequeno, lia-se “distribuído pelo Qorvis MSLGROUP em nome da Real Embaixada da Arábia Saudita”.

Mas eles não receberam briefings detalhados sobre como a lei deveria ser emendada, nem briefings para deixar para análise dos parlamentares.

O timing também era inesperado. Os veteranos voltaram cinco vezes em janeiro e fevereiro, quando a discussão da lei estava praticamente dormente e Washington tinha sua atenção voltada à posse do novo presidente. Foram enviados inúmeras vezes para reuniões com legisladores que já tinham decidido sua posição, reuniões que não davam em nada.

“Na quarta vez em que conversei com o assessor de Grassley, ele falou ‘ei, cara, o que mais está acontecendo?’. A gente nem falou do projeto de lei”, contou Robert Suesakul, veterano do Exército vindo do Iowa, depois de sua quarta visita ao gabinete do senador republicano do Iowa Charles Grassley. Ficara claro desde a primeira visita dos veteranos que o senador não estava interessado em emendas à lei. “Não fazia nenhum sentido tentar falar com eles uma quarta vez.”

Ainda outro problema: em alguns casos, assessores dos parlamentares questionaram os veteranos porque sabiam quem estava financiando as viagens. Embora os próprios veteranos não subessem.

Suesakul contou: “A gente entrava no gabinete e os assessores diziam: ‘Vocês são os veteranos que estão sendo subornados?’.”

Em entrevista telefônica, Johns disse que foi decepcionante ouvir veteranos dizerem que foram ludibriados. Disse que ele sempre deixou claro, no jantar da primeira noite das viagens, que as despesas estavam sendo pagas pelo governo saudita. Segundo ele, foi dito a todos os veteranos presentes que quem não estivesse de acordo com isso podia voltar para casa.

“Eu dizia: ‘Vejam bem, eu também sou veterano. Estou trabalhando para uma firma de relações públicas aqui. A Arábia Saudita está arcando com o custo da viagem’”, disse Johns.

Mas outro organizador, o veterano do Exército Dustin Tinsley, não se lembra de ter ouvido Johns avisar a todos sobre o envolvimento saudita. Para ele, os veteranos deveriam ter pesquisado, eles próprios, ou perguntado.

“Quando me perguntavam diretamente se a Arábia Saudita estava pagando os custos, eu dizia que sim, e nem um único dos veteranos falou ‘não quero fazer parte disso’”, disse Tinsley.

Vários dos veteranos discordam, dizendo que não foram informados sobre a origem do dinheiro. Ou então que a notícia tinha sido revelada apenas mais tarde, após perguntas repetidas ou muita bebida.

“Um dos caras tinha bebido um pouco demais”, contou o veterano texano Gary Ard, descrevendo um encontro com um dos auxiliares de Johns que havia bebido no hotel Trump. “Ele levantou as mãos e falou ‘obrigado, príncipe saudita!’.”

Ard desistiu depois duas viagens. Disse que se sentiu culpado por ter não intencionalmente colhido informações políticas para uma potência estrangeira.

“Estávamos levando aquela conversa sincera com os legisladores, colocando tudo por escrito e entregando-o a um grupo de pessoas que não sei quem são”, falou Ard. “Meu medo é que a gente ofereça insights sobre quais parlamentares e senadores podem ser abordados e como eles pensam. E isso está totalmente errado.”

A última estadia de veteranos no hotel Trump foi em meados de fevereiro de 2017, depois de os primeiros veículos de imprensa terem divulgado que Johns trabalhava para os sauditas. O próprio Johns disse não ter certeza de quanto haviam custado as viagens: as contas dos hotéis não chegavam às mãos dele, e ele nunca soube quanto tinham custado as diárias.

Em um documento registrado com o Departamento de Justiça, como é obrigatório para firmas americanas que atuam como agentes de outros países, a Qorvis disse que gastou US$190 mil com estadias no hotel Trump e mais US$82 mil com refeições e estacionamento.

O valor citado pelas estadias equivale a mais ou menos US$360 por diária por pessoa, muito abaixo da diária média cobrada pelo hotel Trump no mesmo período. Em documentos financeiros divulgados acidentalmente no ano passado pela General Services Administration, proprietária do edifício, a Organização Trump recebeu uma média de US$768,67 por diária em janeiro e fevereiro. O preço foi inflacionado pela demanda alta na época da posse presidencial.

Desde fevereiro de 2018, clientes sauditas têm reforçado os lucros de dois outros hotéis de Trump. Os números internos do hotel Trump de Chicago indicam um aumento acentuado de hóspedes sauditas desde que Trump chegou ao poder. Em Nova York, este ano, o gerente geral do hotel Trump no Central Park disse que uma única estadia de alguns clientes sauditas –que viajavam no cortejo do príncipe herdeiro Muhammad bin Salman—foi tão rentável que ajudou o hotel a auferir lucro nesse trimestre.

Tradução de Clara Allain

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