Madri restringe acesso ao centro da cidade para carros que não sejam elétricos

Ideia é reduzir em 30% o uso de carros na região central; comércio reclama

Lucas Neves
Madri

Na praça Callao, espécie de Times Square no centro da capital espanhola, um anúncio “intruso” disputa espaço nos imensos painéis digitais com propagandas da nova turnê do cantor Alejandro Sanz e de gadgets eletrônicos.

É a campanha de divulgação do plano Madri Central, que restringe fortemente o acesso de carros a um perímetro de quase 5 km² naquela região.

Em vigor desde 30 de novembro, a iniciativa pretende reduzir em 40% as emissões de dióxido de nitrogênio na área delimitada e coloca a cidade na linha de frente das metrópoles europeias que adotaram medidas de proteção ambiental.

Homem passa por sinal pintado em área central de Madri que passa a restringir o acesso a carros não eletrificados - Paul White-30.nov.2018/Associated Press

Em 2017, Paris baniu os veículos a diesel registrados de 1997 a 2000. No ano anterior, a prefeita havia transformado uma artéria de 3,3 km à beira do Sena em zona de pedestres.

Londres, Estocolmo e Milão criaram pedágios urbanos, enquanto Berlim demarcou há dez anos um setor de circulação restrita nos moldes do madrilenho, só que mais severo.

Na capital espanhola, apenas moradores registrados na prefeitura, pessoas com mobilidade reduzida, viaturas policiais e serviços de emergência terão acesso livre ao retângulo de concreto que inclui os museus Reina Sofía e Thyssen, a praça Puerta del Sol e a Gran Vía, versão local da Broadway.

Para os outros, a permissão de entrada e permanência se dará segundo um sistema de classificação ambiental de veículos, assinalada por adesivos.

Quem tiver carro elétrico ganha salvo-conduto. Automóveis híbridos ou a gás podem adentrar o perímetro e estacionar por até duas horas.

Carros movidos a gasolina (a “linha de corte” de registro é o ano 2000) e diesel (2006) terão permissão para acessar a área exclusivamente a fim de se dirigir a estacionamentos públicos ou garagens.

Os que não ultrapassarem o sarrafo “etário” ficarão sem etiqueta e estarão banidos. 

Há requisitos também para motos e caminhões —no caso desses últimos, quanto mais velho e poluente, menor a janela para circulação.

Comerciantes são os principais críticos do “retângulo verde”, por temer o sumiço da clientela e dificuldades logísticas com fornecedores.

A prefeitura contra-argumenta recorrendo a estatísticas de deslocamentos em direção ao centro. Segundo a administração, 1,2 milhão de percursos diários com esse destino são feitos em transporte público, 550 mil a pé e apenas 230 mil de carro —a ideia é reduzir o último montante em cerca de 30%.

Empresas de transporte, de seu lado, dizem não ter recursos para substituir as frotas por modelos mais limpos e preveem falências.

“É péssimo. Mesmo que as multas só comecem a ser aplicadas em março, as pessoas já se retraem”, disse na semana passada Iker Casas, funcionário de um café na área afetada.“Para quem trabalha, também é ruim. Faltam ônibus noturnos para a periferia.”

Gerente de um bar de tapas, Susana Torralbo se distancia do coro dos descontentes. “Acho a iniciativa muito boa. Diminuirá o ruído, vai ser possível andar com mais tranquilidade. Não acredito que o meu faturamento vá cair.”

Por ora, os motoristas infratores recebem cartas de apresentação do plano. Quando o monitoramento por câmeras deixar a fase piloto, no primeiro trimestre de 2019, receberão uma sanção de 45 euros (R$ 200), que dobra se não for paga em até três semanas.

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