Descrição de chapéu The New York Times

Otimismo chinês faz do país a melhor representação do sonho americano

A probabilidade de melhorar de nível de vida lá supera em muito a dos EUA

Javier C. Hernández Quoctrung Buithe

Imagine que você fez uma aposta. Há dois jovens de 18 anos, um na China e outro nos EUA, ambos pobres e sem grandes perspectivas. Você deve escolher o que tem maior probabilidade de subir na vida. Qual você escolheria?

Não muito tempo atrás, a resposta pareceria simples. Afinal, o antigo "sonho americano" prometia um caminho para uma vida melhor a qualquer pessoa que trabalhasse bastante. Mas a resposta hoje é surpreendente: a China subiu tão rapidamente que a probabilidade de melhorar de nível de vida lá supera em muito a dos EUA. 

A China ainda é muito mais pobre que os EUA, de modo geral. Mas os chineses detêm uma importante liderança no mais intangível, mas valioso, dos indicadores econômicos: otimismo.

Vendedora olha seu celular em mercado de Pequim - Nicolas Asfouri-20.nov.2018/AFP

Em um país ainda assombrado pela Revolução Cultural, onde a política é rigidamente circunscrita pelo Estado autoritário, os chineses estão hoje entre as pessoas mais otimistas do mundo —muito mais que os americanos e os europeus, segundo pesquisas de opinião pública.

O que mudou? Principalmente, uma expansão econômica sem precedentes na história moderna. Oitocentos milhões de pessoas saíram da pobreza. Isto é 2,5 vezes a população dos EUA. Não só as rendas estão aumentando drasticamente nas famílias, como os filhos ganham mais que os pais.

Isso significa que as expectativas também estão subindo, especialmente entre a crescente classe média chinesa. A expectativa de vida também disparou. Os homens chineses nascidos em 2013 deverão viver mais de sete anos a mais que os de 1990; as mulheres deverão viver quase dez anos a mais. 

"Parece que não há limites para até onde você pode ir", disse Wu Haifeng, 37, analista financeiro que vem de uma família de agricultores de milho no norte da China e hoje ganha mais de US$ 78 mil (R$ 296 mil) por ano. "Parece que a China sempre será forte."

A China costumava representar a maioria dos pobres do mundo. Hoje ela representa grande parte da classe média mundial. Há riscos, é claro, e não há garantias de que a ascensão da China continuará indefinidamente. 

Uma crise econômica prolongada poderia causar grandes danos. E especialistas advertem que a China poderá cair na armadilha da renda média —em que o crescimento e os rendimentos atingem um platô—, se não conseguir atacar os altos níveis de dívida corporativa ou não se esforçar para encorajar a inovação.

A demografia também é uma bomba-relógio: a China corre para enriquecer antes que envelheça. Mas por enquanto o arco econômico parece em constante ascensão.

Assim como os EUA, a China ainda tem uma grande lacuna entre ricos e pobres —e os chineses mais pobres são muito mais pobres, com quase 500 milhões de pessoas (cerca de 40% da população) vivendo com menos de US$ 5,50 por dia (R$ 21), segundo o Banco Mundial. Hoje, a produção econômica per capita da China é de US$ 12 mil, comparados com US$ 3.500 uma década atrás. O número é muito maior nos EUA, US$ 53 mil. 

Mas poucos analistas duvidam de onde virá o maior aumento. O progresso chinês é especialmente notável diante de como o governo usou a engenharia social para restringir onde as pessoas vivem e quantos filhos têm.

Afrouxar essas restrições poderia acelerar o aumento de renda. É por isso que muita gente hoje fala no "sonho chinês". Xu Liya, 49, costumava trabalhar em arrozais em Zhejiang, província rural no litoral leste da China. Sua família comia carne só uma vez por semana, e toda noite ela se amontoava em um quarto com sete parentes.

Então, ela foi à universidade com uma bolsa de estudos e fundou uma loja de roupas. Hoje ela tem dois carros e um apartamento avaliados em mais de US$ 300 mil. Sua filha vai à faculdade em Pequim. "A pobreza e a corrupção prejudicaram as pessoas médias na China durante muito tempo", disse ela. "Embora hoje a sociedade não seja perfeita, os pobres também têm recursos para competir com os ricos."

The New York Times

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves  

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