Descrição de chapéu The New York Times

Para se tornar potência, China ignora regras e une abertura com repressão

Improvável, crescimento do país em 40 anos teve apoio de rivais e lições do colapso soviético

Philip P. Pan
Pequim e Xangai

Nos anos de incerteza após a morte de Mao Tse-tung, muito antes de a China se tornar uma potência industrial, antes que o Partido Comunista iniciasse uma série de vitórias que reformulariam o mundo, um grupo de estudantes de economia se reuniu em um retiro na montanha perto de Xangai. Lá, nas florestas de bambus de Moganshan, os jovens estudiosos encararam uma pergunta premente: como a China poderia alcançar o Ocidente?

Foi no outono de 1984, e do outro lado do mundo Ronald Reagan prometia "uma nova manhã na América". Enquanto isso, a China começava a se recuperar de décadas de tumulto político e econômico. Havia progresso no campo, mas mais de 75% da população viviam em extrema pobreza. O Estado decidia onde cada pessoa trabalhava, o que cada fábrica produzia e quanto cada coisa custava.

Os alunos e pesquisadores participantes do Simpósio Acadêmico de Economistas Jovens e de Meia Idade queriam liberar as forças do mercado, mas temiam destruir a economia —e alarmar os burocratas e ideólogos do partido que a controlavam.

Certa noite, já tarde, eles chegaram a um consenso: as fábricas deveriam cumprir as cotas estatais, mas vender qualquer coisa a mais que produzissem pelo preço que quisessem. Era uma proposta inteligente, levemente radical, de sabotar a economia planejada —e intrigou uma jovem autoridade do partido que estava na sala e que não tinha experiência em economia. "Enquanto eles discutiram o problema, eu não disse absolutamente nada", lembrou Xu Jing'an, hoje com 76 anos e aposentado. "Eu pensava: como faremos isso dar certo?"

A economia chinesa cresceu tão depressa durante tanto tempo, que é fácil esquecer como era improvável sua transformação em uma potência global, o quanto sua ascensão foi improvisada e gerada pelo desespero. A proposta que Xu levou do retiro na montanha, logo adotada como política governamental, foi um primeiro passo central nessa surpreendente transformação.

A China hoje lidera o mundo em número de proprietários de residências, usuários de internet, formados em faculdade e, segundo algumas contagens, bilionários. A pobreza extrema caiu a menos de 1%. Um país atrasado e isolado evoluiu para ser o mais importante adversário dos EUA desde a queda da União Soviética.

Uma disputa inédita está acontecendo. Com o líder Xi Jinping impondo uma agenda mais assertiva no exterior e enrijecendo os controles no país, o governo dos EUA lançou uma guerra comercial. Enquanto isso, em Pequim, a pergunta hoje é menos como alcançar o Ocidente do que como passar à frente, e como fazer isso em uma nova era de hostilidade dos EUA.

O padrão é conhecido pelos historiadores —uma potência em ascensão desafia uma estabelecida, com uma complicação familiar: há décadas, os EUA encorajaram e ajudaram a ascensão da China, trabalhando com seus líderes e sua população para construir a mais importante parceria econômica do mundo, que levantou os dois países.

Durante esse tempo, oito presidentes americanos acreditaram, ou esperaram, que a China acabasse se dobrando ao que se consideravam as regras estabelecidas da modernização: a prosperidade alimentaria as demandas populares de liberdade política e levaria a China ao grupo dos países democráticos. Ou a economia chinesa fracassaria sob o peso do regime autoritário e da corrupção burocrática.

Mas nada disso aconteceu. Ao contrário, os líderes comunistas chineses desafiaram as expectativas repetidamente. Eles adotaram o capitalismo enquanto continuavam a se chamar de marxistas. Usaram a repressão para manter o poder, mas sem sufocar o empreendedorismo ou a inovação. E lideram há mais de 40 anos um crescimento ininterrupto, muitas vezes com políticas heterodoxas que, segundo os manuais, dariam errado.

No final de setembro, a República Popular da China estabeleceu um marco, superando a União Soviética em longevidade. Dias depois, comemorou um recorde: 69 anos de regime comunista. E a China pode estar apenas acertando o passo —uma nova superpotência com uma economia prestes a se tornar não apenas a maior do mundo, mas a maior por uma ampla margem.

Enquanto deixavam para trás os desastres do governo Mao, os comunistas chineses estudavam e se obcecavam pelo destino de seus antigos aliados ideológicos em Moscou, decididos a aprender com seus erros. Eles tiraram duas lições: o partido precisava adotar uma "reforma" para sobreviver —mas que não não devia incluir democratização.

A China oscilou entre esses dois impulsos concorrentes desde então, entre abrir-se e fechar-se, entre experimentar a mudança e resistir a ela, sempre recuando antes de ir longe demais em qualquer direção, por medo de encalhar.

Muita gente disse que o partido fracassaria, que as tensões entre abertura e repressão seriam demasiadas para um país tão grande quanto a China. Mas talvez seja exatamente por isso que ela disparou.

Os burocratas que eram obstáculos ao crescimento se tornaram motores de crescimento. Autoridades dedicadas à guerra de classes e ao controle de preços começaram a buscar investimentos e promover a empresa privada. Todos os dias agora o líder de um bairro, cidade ou província chinesa faz uma proposta como a que Yan Chaojun fez em um fórum econômico em setembro.

"Sanya", disse Yan, referindo-se à cidade-balneário no sul que ele chefia, "deve ser um bom garçom, babá, motorista e faxineiro para as empresas, e dar boas vindas aos investimentos de empresas estrangeiras."

Foi um ato notável de reinvenção, que enganou os soviéticos. Tanto na China como na União Soviética, as enormes burocracias stalinistas tinham sufocado o crescimento econômico. Autoridades que gozavam de poder irrestrito resistiam às mudanças que ameaçavam seus privilégios.

Mikhail Gorbatchov, o último líder da URSS, tentou romper o domínio desses burocratas na economia abrindo o sistema político. Décadas depois, as autoridades chinesas ainda têm aulas de por que isso foi um erro.

Temendo abrir-se politicamente, mas sem querer se manter imóvel, o partido encontrou outra maneira. Avançou gradualmente e seguiu o padrão do compromisso em Moganshan, que deixou a economia planejada intacta enquanto permitia que a economia de mercado florescesse e a superasse.

Líderes do partido chamaram essa abordagem experimental e gradual de "atravessar o rio sentindo as pedras" —permitir que os agricultores plantassem e vendessem suas próprias colheitas, por exemplo, enquanto mantinham a propriedade estatal da terra; levantar as restrições a investimentos em "zonas econômicas especiais" enquanto as mantinham no resto do país; ou introduzir a privatização vendendo apenas participações minoritárias em empresas estatais, de início.

"Houve resistência", disse Xu. "Agradar aos reformistas e à oposição foi uma arte."

O longo sucesso econômico do país se seguiu a um dos capítulos mais sombrios de sua história, a Revolução Cultural, que dizimou o aparelho do partido e o deixou em ruínas. Na verdade, o excesso autocrático montou o cenário para que o eventual sucessor de Mao, Deng Xiaoping, liderasse o partido em uma direção radicalmente mais aberta.

Isso incluiu enviar gerações de jovens membros do partido para os EUA e outros países para estudar o funcionamento das economias modernas. Ao mesmo tempo, o partido investiu em educação, expandindo o acesso às escolas e universidades, e praticamente eliminou o analfabetismo. O território continental da China hoje produz mais diplomados em ciência e engenharia por ano que os EUA, o Japão, a Coreia do Sul e Taiwan juntos.

Outra explicação para a transformação do partido está na mecânica burocrática. Os analistas às vezes dizem que a China adotou a reforma econômica enquanto resistia à reforma política. Mas na realidade o partido adotou mudanças depois da morte de Mao que não chegaram a eleições livres ou tribunais independentes, mas de todo modo foram importantes.

O partido adotou limites de mandato e idades de aposentadoria obrigatória, por exemplo, o que facilitou remover autoridades incompetentes. E reformulou os boletins internos que usava para avaliar os líderes locais para dar promoções e bônus, enfocando-os quase exclusivamente em metas econômicas concretas.

Esses ajustes aparentemente pequenos tiveram um efeito maior, injetando uma dose de responsabilidade —e competição— no sistema político, segundo Yuen Yuen Ang, cientista política na Universidade de Michigan. "A China criou um híbrido único", disse ela, "uma autocracia com características democráticas."

Em dezembro, o Partido Comunista vai comemorar o 40º aniversário das políticas de "reforma e abertura" que transformaram a China. A propaganda triunfal começou com Xi se colocando na frente e no centro, como se desse a volta da vitória pela nação.

Ele é o líder mais poderoso do partido desde Deng, filho de uma autoridade graduada que serviu em seu governo. Mas, apesar de lembrar esse legado, Xi também se distanciou de uma maneira importante: Deng incentivou o partido a buscar ajuda e expertise no exterior, mas Xi prega a autoconfiança e adverte sobre as ameaças representadas por "forças estrangeiras hostis".

Em outras palavras, ele parece ter menos utilidade para a parte da "abertura" do slogan de Deng.

Dos muitos riscos que o partido assumiu em busca do crescimento, talvez o maior foi permitir a entrada de investimento, comércio e ideias estrangeiros. Foi uma jogada excepcional de um país que já foi tão isolado quanto é hoje a Coreia do Norte, e o recompensou de maneira excepcional: a China aproveitou a onda de globalização que varria o mundo e surgiu como a fábrica do mundo.

A adoção pela China da internet, com limitações, ajudou a torná-la uma líder em tecnologia. E a assessoria estrangeira ajudou a China a reformular seus bancos, construir um sistema jurídico e criar corporações modernas.

O partido prefere uma narrativa diferente hoje em dia, apresentando o boom econômico como "nascido do solo da China" e basicamente o resultado de sua liderança. Mas isso obscurece uma das grandes ironias da ascensão chinesa —que os antigos inimigos de Pequim ajudaram a torná-la possível.

Os EUA e o Japão, habitualmente vilipendiados pelos propagandistas do partido, tornaram-se seus principais parceiros comerciais e foram importantes fontes de ajuda, investimento e expertise.

A China não é o único país que combinou as exigências do regime autoritário com as necessidades do livre mercado. Mas o fez por mais tempo, em maior escala e com resultados mais convincentes que qualquer outro.

O crescimento começou a desacelerar, o que poderá abalar a confiança pública. O partido investe cada vez mais em censura para controlar a discussão dos desafios que o país enfrenta: a desigualdade crescente, níveis de endividamento perigosos, o envelhecimento da população.

O próprio Xi admitiu que o partido deve se adaptar, declarando que o país está entrando em uma "nova era" que exige novos métodos. Mas sua prescrição é em grande parte um retorno à repressão.

A "abertura" foi substituída por um movimento para fora, com enormes empréstimos que os críticos descrevem como predatórios e outros esforços para conquistar influência —ou interferir— na política de outros países. Em casa, a experimentação está afastada, enquanto a ortodoxia política e a disciplina são abraçadas.

Na verdade, Xi parece acreditar que a China teve tanto sucesso que o partido pode voltar a uma posição autoritária mais convencional —e deve fazê-lo para sobreviver e superar os EUA.

Certamente o momento é do partido. Nas últimas quatro décadas, o crescimento econômico da China foi dez vezes mais rápido que o dos EUA, e hoje é mais do que o dobro. O partido parece desfrutar de amplo apoio público, e muitos em todo o mundo estão convencidos de que os EUA do presidente Donald Trump estão recuando, enquanto o momento da China apenas começa.

Mas a China sempre tem um jeito próprio de contrariar as expectativas.

The New York Times

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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