Rebeldes do Iêmen usam força para capturar e torturar prisioneiros civis

Houthis reprimem a oposição e usam prisioneiros para obter ações do governo e resgates

Estudante de 24 anos torturado por meses por houthis posa para foto em Marib, no Iêmen 
Estudante de 24 anos torturado por meses por houthis posa para foto em Marib, no Iêmen  - Nariman El-Mofty - 26.jul.2018/Associated Press
Marib (Iêmen) | Associated Press

Farouk Baakar estava de serviço como paramédico no hospital de Rashid no dia em que um homem foi trazido à sala de emergência. Ele estava sangrando e mostrava ferimentos a bala e sinais de tortura. Durante dias, havia sido chicoteado nas costas e suspenso pelos pulsos.

O paciente havia sido dado por morto e deixado à beira de uma estrada depois de dias de cativeiro em uma prisão operada pelos rebeldes houthis, que controlam o norte do Iêmen e há quatro anos travam guerra com as forças do governo, apoiadas pela Arábia Saudita e os EUA.

Semanas depois de sua alta, o homem foi capturado mais uma vez pelas forças houthis. No seu celular, os rebeldes  encontraram uma foto que ele tirou com o médico que o salvou. Decidiram então se vingar de Baakar.

Milicianos invadiram o hospital, vendaram o paramédico e o colocaram em uma picape. Baakar passou 18 meses em prisões nas áreas do Iêmen controladas pelos houthis. Diz ter sido queimado, espancado e acorrentado ao teto pelos pulsos por 50 dias, até que seus captores acharam que estivesse morto.

Foi solto há um ano, depois que sua família pagou um resgate equivalente a R$ 31 mil.

Baakar e seu paciente estão entre as milhares de pessoas aprisionadas pela milícia houthi. Muitas delas, constatou uma investigação da agência de notícias Associated Press, sofreram torturas extremas, com golpes de cassetete no rosto, queimadas por ácido ou penduradas do teto pelos pulsos ou órgãos genitais durante semanas.

Os rebeldes capturam civis em operações brutais para reprimir a oposição e obter prisioneiros para trocar por combatentes detidos pelas forças do governo ou pedir resgates. 

A ministra de Relações Exteriores da Suécia, Margot Wallstrom, e o enviado da ONU para o Iêmen, Martin Griffiths, dão entrevista coletiva antes do início das conversas para negociações para troca de prisioneiros no Iêmen
A ministra de Relações Exteriores da Suécia, Margot Wallstrom, e o enviado da ONU para o Iêmen, Martin Griffiths, dão entrevista coletiva antes do início das conversas para negociações para troca de prisioneiros no Iêmen - Stina Stjernkvist - 6.dez.18/TT News Agency/Reuters

A União das Mães de Sequestrados, uma associação de mulheres que têm parentes aprisionados pelos houthis, documentou mais de 18 mil prisioneiros nos últimos anos, entre os quais mil casos de tortura em uma rede de centros de detenção secretos, de acordo com Sabah Mohammed, represente da organização na cidade de Marib, reduto da oposição aos houthis.

O grupo alega que ao menos 126 prisioneiros morreram como resultado de torturas desde que os houthis tomaram a capital do país, Sanaa, no final de 2014.

Mesquitas, antigos castelos, escolas, clubes e outras edificações civis servem como instalações provisórias para os detidos, antes de sua transferência a prisões oficiais, de acordo com depoimentos de vítimas e organizações de direitos humanos

Só em Sanaa, são 30 desses locais clandestinos, segundo a organização de mães.

Os abusos dos houthis foram menos visíveis para o mundo externo porque os rebeldes trabalham para eliminar os dissidentes e silenciar os jornalistas.

Um dos ex-prisioneiros era professor em Dhamar, no norte do país. Ele, que pediu que não fosse identificado na reportagem, passou quase cinco meses em uma cela subterrânea. Ficou vendado o tempo todo, mas acompanhava a passagem dos dias pelos chamados diários às preces islâmicas. Os carcereiros o espancavam com varas de ferro e diziam que ele morreria. “Prepare o testamento.”

Os líderes houthis negaram pedido de entrevista da Associated Press. O Ministério dos Direitos Humanos houthi afirmou em comunicado, no final de 2016, que “não existe uma política de tortura sistemática de prisioneiros”. 

Tradução de Paulo Migliacci

 

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