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África oferece uma saída pragmática para o novo governo

Brasil continua tendo a possibilidade de se posicionar como terceira via para países africanos

Danilo Marcondes de Souza Neto Mathias Alencastro

O futuro da política externa tem sido um dos temas mais discutidos após a eleição de Jair Bolsonaro. 

Ainda não está claro como o governo vai conciliar a visão do secretário de comércio exterior Marcos Troyjo, que defendeu em diversas ocasiões uma maior integração dos Brics (bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e a ambição de alinhamento rigoroso aos Estados Unidos promovida pelo chanceler Ernesto Araújo

Praticamente ignorada até agora, a relação com a África pode ser uma saída pragmática para os futuros dilemas de politica externa do novo governo. 

Embora a cooperação com o continente africano seja frequentemente associada ao governo Lula, as suas bases foram, como sabemos, reforçadas pelo regime militar. 

Universidade criada por Lula em Redenção, no Ceará, que tinha metade dos alunos africanos
Universidade criada por Lula em Redenção, no Ceará, que tinha metade dos alunos africanos - Jarbas Oliveira - 10.ago.17/Folhapress

Em 1975, o então presidente Geisel reconheceu a independência de Angola, liderada por um movimento de inspiração socialista. Anos depois, Figueiredo foi o primeiro chefe de Estado brasileiro a visitar a África. E o continente continuou sendo uma das principais áreas de atuação dos militares durante a Nova República. 

Desde 2014, o Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil treina militares africanos para participação em operações de paz. Representações de defesa foram criadas em países africanos, tais como Senegal e Etiópia. A cooperação naval com a Namíbia, iniciada nos anos 1990, está sendo replicada em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. 

Alguns dos principais membros do novo governo conhecem a realidade africana. O general Santos Cruz, futuro ministro da Secretaria de Governo, esteve na missão da ONU na República Democrática do Congo, atualmente comandada pelo General Elias. 

A recente escolha do almirante Bento, ex-presidente do conselho de administração da estatal Amazônia Azul, para ministro das Minas e Energia reforça a importância do Atlântico Sul no quadro do futuro governo Bolsonaro.

O potencial da cooperação entre Brasil e África não se limita ao campo militar. Na luta contra o crime organizado, a parceria com governos da região merece prioridade. 

Na última década, o Brasil passou a ter um papel central na rota do tráfico de drogas com destino à Europa via países como a Guiné-Bissau. Um modelo de cooperação em torno da segurança e combate ao tráfico pode dar novo ímpeto a fóruns subaproveitados como a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Mais conhecidos pelas suas calamidades, alguns países africanos estão no centro de disputas geopolíticas que interessam ao Brasil. Alguns dos aliados em potencial de um futuro governo Bolsonaro constam entre os investidores mais ativos no continente africano. 

Em particular, Israel está prestes a assegurar o estatuto de membro observador da União Africana e recentemente voltou a estabelecer relações com diversos governos locais.

O Brasil continua tendo a possibilidade de se posicionar como terceira via para governos africanos que buscam equilibrar a sua dependência entre a China e os Estados Unidos. Para tanto, o futuro governo deve deixar de lado os eventuais preconceitos, e avançar para a formulação de uma politica pragmática para África.

Danilo Marcondes de Souza Neto é doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Cambridge; Mathias Alencastro é doutor em Ciência Politica pela Universidade de Oxford e colunista da Folha

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