Canadá anuncia asilo a jovem saudita que fugiu da família

Rafah Mohammed al-Qunun, 18, estava detida em aeroporto na Tailândia havia 48 horas

A saudita Rahaf Mohammed al Qunun é vista deixando o aeroporto Suvarnabhumi, em Bancoc, na Tailândia - Reuters
Bancoc (Tailândia) e Montreal (Canadá)

O Canadá está "encantado" de receber e dar asilo a uma jovem da Arábia Saudita que fugiu da família, afirmou nesta sexta-feira (11) o premiê canadense, Justin Trudeau.

Na noite desta sexta, Rafah  Mohammed  al-Qunun, 18, embarcou em um voo da companhia aérea Korean Air de Bancoc, na Tailândia, para Seul, na Coreia do Sul, onde tomaria um voo a Toronto, no Canadá, segundo a chefe da imigração tailandesa, Surachate Hapkarn.

"Concedemos asilo a ela. Estamos encantados por fazê-lo porque o Canadá é um país que leva em conta até que ponto é importante defender os direitos do indivíduo e das mulheres no mundo todo", afirmou Trudeau.

O premiê afirmou que concedeu o asilo atendendo a pedido do Alto Comissariado das Nações Unidas para o Refugiado (Acnur).

Al-Qunun, 18, fugiu do Kuait, onde visitava parentes, e chegou à Tailândia em um voo no sábado (5). Ela planejava ir para a Austrália e pedir asilo lá, mas foi detida após sair do avião em Bancoc e informada de que seria deportada.

Ela então deu início a uma campanha nas redes sociais para evitar ser deportada. Entrincheirou-se no quarto de hotel colocando móveis na frente da porta e passou a postar mensagens e vídeos em seu Twitter.

"Meus irmãos e minha família e a embaixada saudita vão estar esperando por mim no Kuait”, disse à Reuters. “Eles vão me matar. Minha vida está em perigo. Minha família ameaça me matar pelos motivos mais triviais.”

De acordo com o The New York Times, autoridades tanto do Canadá quanto da Austrália entrevistaram al Qunun como parte do processo de repatriamento. Segundo Surachate, citado pelo jornal, a jovem preferiu o Canadá.

"Foi desejo dela ir para o Canadá", afirmou. "Ela ainda se recusa a se encontrar com o pai e o irmão, e eles vão viajar de volta hoje também. Eles estão desapontados."

As relações entre o Canadá e a Arábia Saudita pioraram nos últimos meses depois que Ottawa pressionou o reino saudita pela libertação de ativistas de direitos humanos. A Arábia Saudita retaliou expulsando o embaixador canadense e cortando negócios bilaterais.

Rahaf afirmou que fugiu por temer por sua vida e por sofrer “abusos físicos, emocionais e verbais e por ser trancada dentro de casa por meses”. Também afirma que a família está impedindo que ela continue estudando.

"Não me deixam dirigir nem viajar. Sou oprimida. Amo a vida e o trabalho e sou muito ambiciosa, mas minha família está me impedindo de viver.”

Segundo a ONG internacional Human Rights Watch, ela também deseja renunciar ao islã.

“Se ela for obrigada a voltar a seu país, as consequências podem ser dramáticas”, informou a entidade, que assinala que a jovem está se convertendo em um “símbolo de resistência”.

Nas redes sociais, a adolescente escreveu que sua família é poderosa na Arábia Saudita, mas não identificou quem são. Os parentes da jovem não foram encontrados por agências de notícias para comentar as acusações.

Na Arábia Saudita, as mulheres são submetidas a numerosas restrições, como o sistema de guarda masculina, pelo qual dependem da autorização de um homem (pai, marido ou irmão, geralmente) para viajar, estudar e tomar outras decisões importantes.

Uma mulher julgada por haver cometido um “crime moral” pode ser castigada violentamente por sua família e executada em casos denominados “crimes de honra”.

Reuters e AFP
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