Dados eleitorais revelam fraude em eleição presidencial na República Democrática do Congo

Há suspeita de que o atual presidente, há 18 anos no cargo, tenha um plano para seguir no poder

Martin Fayulu, candidato que teria vencido a eleição na República Democrática do Congo, segundo levantamento do jornal Financial Times - Baz Ratner - 12.jan.2019/Reuters
Londres e Johanesburgo | Financial Times

Martin Fayulu foi o vencedor inequívoco das eleições presidenciais realizadas em dezembro na República Democrática do Congo, conforme revela uma análise feita pelo Financial Times de duas coleções separadas de dados eleitorais. A conclusão contradiz a alegação das autoridades, segundo as quais o vencedor da eleição histórica foi o candidato rival Felix Tshisekedi.

A análise aponta para uma fraude enorme na primeira transferência de poder desde que Joseph Kabila assumiu a Presidência da nação africana rica em minérios, quase 18 anos atrás. É provável que ela encoraje críticos de Kabila que suspeitam que o líder congolês esteja tentando se perpetuar no poder por meio de um acordo com Tshisekedi.

De acordo com os dados eleitorais vistos pelo FT e que representam 86% do total de votos depositados em todo o país, Fayulu venceu com 59,4% dos votos. O candidato rival Tshisekedi, que na semana passada foi declarado o vencedor inesperado do pleito, foi o segundo colocado, com 19% dos votos, segundo esse conjunto de dados.

Uma análise realizada pelo FT de um conjunto distinto de resultados eleitorais colhidos manualmente por 40 mil observadores da Igreja Católica e que representam 43% dos eleitores que foram às urnas revela que Fayulu recebeu 62,8% desses votos. Os resultados colhidos em 28.733 postos de votação correspondem quase perfeitamente ao conjunto mais extenso de resultados oficiais ao qual o FT teve acesso.

O conjunto maior de dados, uma planilha contendo mais de 49 mil registros, contém os resultados eletrônicos reais que as autoridades vêm procurando ocultar, segundo uma pessoa com conhecimento direto de como foram obtidos os dados. A pessoa em questão, que tem proximidade com Fayulu, pediu anonimato para falar porque os dados contradizem a declaração oficial da comissão eleitoral.

Os números obtidos representam a contagem eletrônica dos votos colhidos por 62.716 urnas eletrônicas em todo o país. Eles foram obtidos do banco de dados central da comissão eleitoral antes do anúncio dos resultados, na semana passada, disse a pessoa.

Uma análise realizada pelo FT das duas contagens revela uma correlação quase perfeita com os resultados parciais obtidos pela igreja –com um coeficiente de correlação que varia entre 0,986 e 0,991 para cada um dos três candidatos mais bem posicionados (sendo que 1 representaria uma correspondência perfeita).

As novas cifras corroboram a afirmação da igreja na semana passada segundo a qual a comissão eleitoral divulgou resultados falsos.

“É muito difícil acreditar ... que dezenas de milhares de linhas de dados poderiam ter sido produzidas em um prazo muito curto para dar esses resultados, sem sinais de interferência”, comentou Jason Stearns, diretor do Grupo de Pesquisas sobre o Congo do Centro de Cooperação Internacional, um think tank com sede em Nova York, que também reviu os dados vazados. “Isso reforça a necessidade de ser feita uma auditoria completa e cuidadosa da contagem de votos.”

A comissão eleitoral negou que seus resultados tenham sido fraudulentos. Barnabé Kikaya Bin Karubi, assessor diplomático chefe de Joseph Kabila, disse que caberá ao tribunal constitucional decidir sobre a validade da eleição. Ele se negou a dar declarações sobre uma potencial fraude. Gilbert Kankonde Nkashama, porta-voz de Tshisekedi, disse que é impossível que Fayulu tenha ganho a eleição e questionou a independência da igreja católica.

Fayulu quer derrubar o resultado da eleição no tribunal constitucional, embora a imparcialidade do tribunal também tenha sido questionada.

Ex-colônia belga, o Congo tem 80 milhões de habitantes e teve apenas quatro eleições desde sua independência, em 1960, e nunca antes teve uma transferência de poder que tenha passado pelas urnas. Joseph Kabila deveria ter deixado o poder em 2016, mas as eleições foram adiadas até que protestos de rua e pressão regional o forçaram a realizar uma eleição.

Joseph Kabila, atual presidente da República Democrática do Congo, ao votar na eleição - Luis Tato - 30.dez.2018/AFP

A coalizão governante de Kabila procurou conservar o controle da Presidência por meio de Emmanuel Shadary, que Kabila escolheu para ser seu sucessor. Os partidários de Fayulu alegam que, quando os eleitores não deram votos suficientes a Shadary, o terceiro colocado, a comissão eleitoral recebeu ordens de instalar Tshisekedi no poder no lugar dele.

Segundo os resultados aos quais o FT teve acesso, Fayulu recebeu mais de 9,3 milhões de votos, 3 milhões a mais do que os anunciados pela comissão eleitoral, e venceu em 19 das 26 províncias do país, incluindo a capital, Kinshasa, e as províncias orientais densamente povoadas de Kivu Norte e Kivu Sul.

Enquanto isso, segundo os dados, Tshisekedi recebeu 3 milhões de votos, 4,1 milhões menos do que apontou a comissão eleitoral, enquanto Shadary recebeu 2,9 milhões, ou seja, 1,5 milhão a menos que o total divulgado.

Os dados revelam que os resultados de 15,7 milhões dos 18,3 milhões de votos foram contabilizados no próprio dia da eleição, mas os votos que ficaram faltando não poderiam ter resultado em um vencedor diferente. Devido a erros de funcionamento em algumas urnas eletrônicas, nem todos os votos dados foram transmitidos para o banco de dados central, informou uma pessoa com conhecimento do banco de dados.

O arquivo tem a forma de uma planilha com valores separados por vírgulas, um formato utilizado por muitos pacotes de software para armazenar dados tabulares, e tem mais de 49 mil linhas. Cada local de voto é identificado por um número diferente composto de seis algarismos.

Segundo a análise do FT, os dados não divergem significativamente da lei de Benford, um teste estatístico utilizado comumente em campos como a contabilidade forense para identificar dados fraudulentos.

Tom Wilson, David Blood e David Pilling

Tradução de Clara Allain

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