Equipe de Bolsonaro não entra em consenso, e discurso em Davos é incógnita

Ministros e assessores faziam ofensivas para incluir suas ideias em pronunciamento que será a estreia internacional do presidente

Maria Cristina Frias Luciana Coelho Lucas Neves
Davos

Na véspera de o presidente Jair Bolsonaro fazer seu discurso de estreia no palco internacional em Davos, onde ocorre a reunião anual do Fórum Econômico Mundial, seus principais assessores ainda não sabiam o que ele diria e faziam ofensivas para inserir ideias no pronunciamento.

O presidente acatou, a princípio, sugestões de vários deles, mas quais restarão no discurso em plenária na tarde desta terça (12h30 no Brasil) ainda era uma incógnita na noite desta segunda (21), após a chegada da delegação brasileira em uma viagem que se estendeu por mais de 14 horas até a cidade dos Alpes suíços.

O presidente Jair Bolsonaro no 'AeroLula' com os ministros Paulo Guedes, Sergio Moro e Ernesto Araújo durante viagem à Suíça
O presidente Jair Bolsonaro no 'AeroLula' com os ministros Paulo Guedes, Sergio Moro e Ernesto Araújo durante viagem à Suíça - Alan Santos/Presidência da República

Segundo a Folha apurou com integrantes da comitiva, Bolsonaro e seus assessores não escreveram um texto-base para o pronunciamento. O presidente apenas colheu sugestões de auxiliares do governo e decidirá ele mesmo quais usará. A equipe econômica vem defendendo uma exposição mais detalhada da reforma da Previdência.

O presidente, porém, deu pouca esperança para quem deseja ouvir minúcias de seus planos de reformas e privatizações. “É um discurso muito curto, objetivo, claro, tocando nesses pontos que eu falei, foi feito e corrigido, por assim dizer, por vários ministros para que nós déssemos o recado da forma mais ampla possível, do novo Brasil que se apresenta com a nossa chegada ao poder”, disse a jornalistas após chegar em Davos.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), após jantar com o pai, afirmou avaliar que o interesse na reforma da Previdência é algo doméstico, que não tocaria investidores externos.

Bolsonaro permanecerá quatro dias na cidade de 11 mil habitantes que anualmente recebe o Fórum, estada inusualmente longa para um chefe de Estado.

Para expor o que chama de “novo Brasil”, trouxe consigo cinco ministros —Paulo Guedes (Economia), Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública), Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral), além do filho Eduardo, do chefe da Apex, Marcio Vilalva, e do secretário de Comércio, Marcos Troyjo.

Um ministro da comitiva disse que pode ser que o presidente tenha uma data em mente para apresentar sua proposta, mas não a compartilhou com o gabinete. O ponto central do discurso é a ideia de que o Brasil mudou, está aberto a investimentos sem seguir nenhuma ideologia.

Outra pessoa familiarizada com o debate afirmou ter insistido com o presidente para que ele não cite países no discurso, para não indicar predileções nem desdém que possam prejudicar o comércio do país —como ocorreu quando Bolsonaro anunciou a intenção de transferir a Embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém e países árabes ameaçaram deixar de comprar a carne brasileira.

Mas há na comitiva quem afirme que o presidente dirá que o Brasil deseja ampliar o comércio com todos os países, “exceto alguns” —sem dizer quais.

A plateia em Davos, que reúne cerca de 3.000 pessoas a cada edição do Fórum, é formada principalmente por executivos, empresários e governantes que fazem da cidade uma espécie de grande feira do investimento mundial.

Em relação ao Brasil, existe expectativa de entender melhor os planos de reformas, sobretudo da Previdência, e também de entender se as primeiras impressões difundidas pela imprensa global a respeito do rechaço do novo governo a questões como clima e migração são fundamentadas, após Bolsonaro prometer abandonar acordos mundiais sobre o tema. Os dois assuntos são objeto de várias das 350 sessões do Fórum.

O presidente, segundo assessores, quer ressaltar as credenciais democráticas de seu governo. Um dos ministros afirmou que clima deve ganhar apenas menção lateral, pois o Brasil é, a seu ver, alvo de injustiça no debate ecológico, sendo comumente apontado como algoz do desmatamento por causa do que vê como interesses de políticos estrangeiros e entidades econômicas.

Estavam reservados 45 minutos para o discurso de Bolsonaro, o primeiro dos cinco chefes de Estado ou governo que falarão na plenária principal neste ano, mas a duração, foi reduzida para 30 minutos.  No lugar do que seria o terço final do discurso, entrará uma sessão especial com o secretário de Estado americano, Mike Pompeo. 

Após o pronunciamento, o presidente brasileiro receberá perguntas do criador e chairman do Fórum, Klaus Schwab.

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