Fugindo da família, saudita se tranca em hotel na Tailândia para não ser deportada

Adolescente conseguiu proteção após postar em rede social que será morta se voltar a seu país

Bancoc | AFP e Reuters

Dizendo fugir de sua família, uma adolescente saudita se trancou em um hotel dentro do aeroporto de Bancoc, na Tailândia, para evitar ser deportada, e conseguiu proteção das autoridades após divulgar sua história no Twitter.

​Rahaf Mohammed al-Qunun, 18, fugiu do Kuait, onde visitava parentes, e chegou à Tailândia em um voo no sábado (5). Ela planejava ir para a Austrália e pedir asilo lá, mas foi detida após sair do avião em Bancoc e informada de que seria deportada.

Rahaf Mohammed al-Qunun, 18, aparece em vídeo deito no quarto de hotel na Tailândia onde está trancada
Rahaf Mohammed al-Qunun, 18, aparece em vídeo deito no quarto de hotel na Tailândia onde está trancada - Twitter/@rahaf84427714/via Reuters

Depois disso, entrincheirou-se no quarto de hotel colocando móveis na frente da porta e passou a postar mensagens e vídeos em seu Twitter.

"Meus irmãos e minha família e a embaixada saudita vão estar esperando por mim no Kuait”, disse à Reuters. “Eles vão me matar. Minha vida está em perigo. Minha família ameaça me matar pelos motivos mais triviais.”

Nesta segunda (7), a polícia tailandesa afirmou que ela não será expulsa, após a jovem se reunir com representantes do Acnur (comissariado da ONU para os direitos humanos), encontro que vinha pedindo em seu Twitter.

Pouco antes, um tribunal havia recusado um recurso apresentado por uma advogada especialista em direitos humanos para impedir sua expulsão, e autoridades da Tailândia haviam dito que ela seria devolvida para o Kuait em um voo na parte da manhã. 

Depois de conseguir a proteção das autoridades, Rahaf postou que estava assustada porque seu pai havia chegado na Tailândia, mas que se sentia segura e aguardava ser levada para um outro país, onde poderia pedir asilo.

Rahaf al-Qanun (no centro) é escoltada por oficiais da imigração tailandesa e do Acnur no aeroporto de Bancoc
Rahaf al-Qanun (no centro) é escoltada por oficiais da imigração tailandesa e do Acnur no aeroporto de Bancoc - Thai Immigration Bureau/AFP

Segundo a polícia da Tailândia, o impedimento para a entrada da saudita no país ocorreu por ela não ter os documentos requeridos.

​A jovem, que afirma ter visto para a Austrália, disse mais cedo ter sido detida por autoridades sauditas ao chegar ao aeroporto tailandês e que teve seu passaporte confiscado à força.

O ministro de relações exteriores saudita negou que a embaixada tenha retido o passaporte dela. A embaixada saudita também negou que tenha enviado representantes ao terminal e disse "estar em contato constante com a família da jovem".

 
Rahaf afirmou que fugiu por temer por sua vida e por sofrer “abusos físicos, emocionais e verbais e por ser trancada dentro de casa por meses”. Também afirma que a família está impedindo que ela continue estudando.

"Não me deixam dirigir nem viajar. Sou oprimida. Amo a vida e o trabalho e sou muito ambiciosa, mas minha família está me impedindo de viver.”

Segundo a ONG internacional Human Rights Watch, ela também deseja renunciar ao Islamismo. “Se ela for obrigada a voltar a seu país, as consequências podem ser dramáticas”, informou a entidade, que assinala que a jovem está se convertendo em um “símbolo de resistência”.

Nas redes sociais, a adolescente escreveu que sua família é poderosa na Arábia Saudita, mas não identificou quem são. Os parentes da jovem não foram encontrados por agências de notícias para comentar as acusações.

Na Arábia Saudita, as mulheres são submetidas a numerosas restrições, como o sistema de guarda masculina, pelo qual dependem da autorização de um homem (pai, marido ou irmão, geralmente) para viajar, estudar e tomar outras decisões importantes.

Uma mulher julgada por haver cometido um “crime moral” pode ser castigada violentamente por sua família e executada em casos denominados “crimes de honra”.

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